Sex12042020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

28 Out 2020

CHIMARRÃO, FOGO E OUTROS BICHOS

Escrito por 

A partir do momento que se considera tudo como tendo a mesma importância, nada mais tem valor algum”.

 

Teotónio estava, como de costume, tomando seu mate na pracinha desajeitada da sua desajeitada cidade. É incrível como o mal gosto se expressa tão bem nas curvas arquitetônicas idealizadas por “otoridades” cheias de presunção mal disfarçada de boa intenção.

Enquanto roncava a cuia, num passo manso, meio manco e sem muita pressa, se aproximou dele seu Juvenal. Pobre homem. Na eleição passada foi atropelado por um celerado bêbado que estava se aloprando fazendo “campanha” para um dos candidatos. Acabou ficando rengo das patas.

Mesmo assim, arrastando as chinelas, todo santo dia ele sai bater-perna pelas ruas da cidade. Diz ele que é para não ficar entreverado de vez.

Enfim, Juvenal se achega do velho que está chimarreando só na praça. “Dia Teo”! “Dia homem de Deus! Se abanque aqui comigo. Vamos prosear um teco”. “Já sendo”. Com uma certa dificuldade ele se senta no banco da praça. “Precisa de ajuda”? “Agradecido. Mas não carece não”. “Aceita uma cuia”? “Mas é claro. Ou você acha que eu me sentei aqui com você por causa da tua boniteza”?

O mate é servido e a prosa é desengatada. “Você viu o que aconteceu no Chile”? Seu Juvenal dá umas duas puxadas no mate, fecha levemente os olhos enquanto lambe os beiços, e diz: “Vi sim. Que barbaridade aquilo”. “Verdade. O que deu na cabeça dessas pessoas para destruir não apenas um edifício histórico, mas a casa de Deus”? “Foi o culto desse tal do relativismo e do multiculturalismo. Toda manifestação horizontal de barbarismo é sempre precedida de uma invasão vertical de bárbaros diplomados”.  “Que é isso homem de Deus! O que é que Chico tem que ver com Francisco”?

Seu Juvenal ronca a cuia, como manda a tradição, devolve-a para Teotónio e continuou. “Tem tudo haver meu amigo. Tudo haver”. “Então me explique. Gosto de ouvir suas palestras”. “Bem, então comecemos pela tal da cultura. Afinal de contas, o que é isso?” Teotônio parou um pouco pra matutar e, em seguida, disse: “Homem de Deus, agora você me pegou. Eu ia dizer que é tudo que a gente faz, mas imagino que isso seja um tanto vago”. “Verdade. Mas, no sentido meramente antropológico é isso mesmo. Tudo o que fazemos de certa forma é um registro de nossa passagem por essa vida e, enquanto tal, reflete o que há em nossa alma”. “No caso daquele diabedo que ateou fogo nas Igrejas chilenas o que há na alma deles é enxofre”. “Possivelmente”.

Teotônio serve mais uma coisa para si mesmo e Juvenal continua com seu colóquio. “Nesse sentido, meu amigo, cultura é tudo aquilo que nós cultivamos e tudo o que nós cultuamos”. “Uh! Acho que já sei onde você quer chegar”. “Sabe sim. Quando cultivamos algo nós esperamos que esse algo dê frutos. Nenhum agricultor atira sementes no solo por atirar. Há sempre o propósito de colher algo”. “E queremos colher algo bom quando semeamos algo no solo de nossa alma”. “Exatamente. Mas para que isso ocorra é preciso que a semente seja boa”. “E o relativismo por si não é uma boa semente”. “Exato. A partir do momento que se considera tudo como tendo a mesma importância, nada mais tem valor algum”. “E no lugar da beleza, da bondade e da verdade nós temos o uso da violência para impor a deformidade, a maldade e falsidade”. “Isso mesmo!” “Eu sempre acompanho o teu programa de rádio Juvenal e presto bastante atenção em cada uma de suas conferências”. “Obrigado”.

Teotônio ronca a cuia, deita a água lentamente na mesma e passa para Juvenal perguntando: “Tudo bem. E o culto que tem que ver com a cultura”?

Juvenal faz um gesto com a mão, sinalizando para esperar um pouquinho. Deu umas duas puxadas no mate e retomou o fio da meada. “Ao cultivar algo estamos realizando um ato de valorização; e, toda vez que valorizamos algo, nós colocamos esse algo no centro de nossa vida; quando elegemos algo como centro estamos dizendo que esse trem dá sentido à nossa existência”. “Ou seja: torna-se aquilo que nós cultuamos”. “Exatamente índio velho”. “E nesse sentido há cultos que nos edificam e cultos que nos degradam”. “Perfeito. Porque nós acabamos, com o passar do tempo, nos tornando a imagem se semelhança daquilo que consideramos mais importante em nossa vida”.

Juvenal fez um silêncio enquanto terminava de tomar sua cuia e, após roncar a bichinha, passou-a para seu amigo. “E quando falo isso Teo, não estou dizendo que nos tornamos aquilo que dizemos ser importante, mas sim, aquilo que está, de fato, presente em nossos corações como algo precioso”. “Entendo. Entendo perfeitamente o que você está dizendo”. “Então diga”. “Quando nós vemos essa valorização imensa que é feita do relativismo em nossa sociedade, através da grande mídia e do sistema educacional, não se está valorizando todas as culturas, mas sim, deixando um grande vazio no coração das pessoas”. “Isso mesmo”. “E aí, por isso, abre-se um espaço para o culto de qualquer coisa e, na maioria das vezes, é algo que não presta”. “Porque o ser humano não é capaz de viver no vazio de sentido. Ele carece de algo que lhe diga o que é certo e errado, justo e injusto, belo e disforme, que dê um norte na sua caminhada por esse mundão de meu Deus”. “E o relativismo não é capaz de fornecer isso”. “Porque o relativismo, usado como critério de valor, não como ferramenta de análise, acaba servindo de navio quebra gelo para novos valores, ideias e ideais”. “E destruir o que é cultivando e cultuado é fundamental para impor um novo padrão cultural, um novo conjunto de valores para ser cultivado e cultuado”. “No final das contas o objetivo é atacar e destruir o Cristianismo que é a pedra de toque da Civilização Ocidental”.

Teotônio fica silente por um instante, pensativo. Juvenal então retoma a palavra. “Quando você observa mais de perto, percebe que o que todas essas bandeiras radicais, defendidas pelos esquerdistas, têm por finalidade é a destruição do Cristianismo”. “E o pior é que tem muita gente boa que defende essas coisas e nem se dá conta disso tudo”. “Verdade. É o que acontece quando nos fiamos pelo relativismo”. “Quando deixamos de ter a procura pela verdade como referência fundamental de nossa vida acabamos sendo referenciados por qualquer um que queira nos manipular”. “É bem isso. É bem isso que acontece quando colocando Marx (ou qualquer outra coisa) no lugar de Cristo”.

“Veja Teo, nós estamos tendo a destruição de Igrejas por radicais desse naipe nos Estados Unidos, na Europa, na China, em todos os cantos do mundo e, em regra, os agentes de destruição tem muita coisa em comum e não é apenas uma carteira de cigarros FREE”. “E inclusive a Igreja está cheio de gente desse tipo que é adepta do relativismo e do multiculturalismo. Que estão trabalhando para destruí-la por dentro”. “Pois é. Pra você ver como as coisas estão”.

Teotônio ofereceu mais uma cuia de mate para o amigo, mas Juvenal declinou a oferta. Disse que já estava meio verde de tanto mate. Levantou-se e, trôpego, segui seu rumo pela esbugalhada calçada do passeio público de sua triste cidade.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.