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17 Out 2020

CORONEL USTRA O HERÓICO “DOUTOR TIBIRIÇÁ - O VIGILANTE DA TERRA”[1]

Escrito por 

 “Viver é lutar. Se o duro combate os fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”.

 

Em 15 de outubro do corrente [2015], no velório do herói que partia, foi esse trecho do final da Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, que, emocionados, ouvimos recitar a valorosa viúva, D. Joseíta, acompanhada por suas filhas e família. Na capela pairava o espírito imortal do Exército de Caxias, encarnado naqueles que, assim como o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, sempre colocaram a Instituição e a Pátria acima de interesses e ambições e, por isso, se tornaram exemplos lembrados pelas gerações que lhes seguiram. Ao som do Toque de Silêncio e sob a sagrada Bandeira Nacional, o Exército entregou seu ilustre soldado ao comando de São Miguel Arcanjo, Príncipe da Milícia Celeste. A Bandeira do Brasil, símbolo da Pátria, a quem ele tanto amou e honrou, foi entregue à guarda de D. Joseíta pelo Comandante Militar do Planalto. Ao velório compareceram centenas militares da ativa, fardados, inclusive oficiais-generais servindo em Brasília, além de outros tantos companheiros da reserva e civis.

Em São Paulo, no início dos anos 1970, o então Major Ustra conduziu as ações que iniciaram o desmantelamento dos grupos da esquerda radical e a neutralização de sua tentativa de implantar o terror e criar a guerrilha urbana no País. Ustra se tornou um dos símbolos da vitória da Nação sobre os que pretenderam estabelecer o sanguinário regime socialista no Brasil, ideologia do atraso e da violência fratricida, hoje, reconhecidamente fracassada. Ele era o Doutor Tibiriçá, comandante destemido e líder da gloriosa Operação Bandeirante - a OBAN - honraria que o fez alvo de permanente perseguição revanchista, alimentada por representantes da antiga esquerda revolucionária, encastelados nos altos escalões da República após o início dos anos 1990.
Nos idos de 1970, havia uma grande incerteza sobre o futuro da democracia no País, pois as ações da luta armada vinham em uma escalada difícil e, para muitos, impossível de se deter. Foram tempos de elevada insegurança, que não podem ser avaliados, seja por analistas sentados em confortáveis poltronas, diante do computador e no ar refrigerado; seja no papo amigável e descontraído em uma mesa de bar, sem a devida contextualização; e muito menos por pretensos historiadores que, ideológicos e facciosos, são mestres em distorcer a verdade. É preciso imaginar o cenário vivido pelos irmãos de armas que deixavam a família em casa e saiam para enfrentar o guerrilheiro violento, radical, disfarçado, misturado ao povo ordeiro e que era preparado para matar, sequestrar lançar ou plantar uma bomba, sem se importar se entre suas vítimas estariam crianças, mulheres e idosos não combatentes. Companheiros cientes de que o inimigo interno (isso mesmo: o inimigo interno) descobrira seus endereços e ameaçava suas famílias, obrigando-os a constantes mudanças de moradia, com todas as atribulações decorrentes. Irmãos de armas que viam seus camaradas serem feridos ou mortos em emboscadas, atentados e outras operações conduzidas pelos grupos da esquerda armada revolucionária.

Foi nesse clima de incertezas e insegurança que nossos companheiros e famílias passaram alguns anos de suas vidas, para que a grande maioria dos brasileiros seguisse vivendo normalmente, usufruísse das benesses do milagre econômico, que realmente existiu como lembram os cidadãos que o vivenciaram, e visse concretizada a redemocratização, propósito sempre anunciado e buscado pelos governos militares. Nossos irmãos de armas fizeram o que teríamos que fazer todos nós, soldados, se estivéssemos no lugar deles naqueles anos decisivos para o futuro da liberdade no Brasil. Porém, é sabido que Deus e os soldados só são lembrados nos momentos de insegurança e incerteza. Passadas as dificuldades, Deus é esquecido, os soldados são perseguidos e, às vezes, deixados para trás pelos companheiros que teriam de protegê-los.

Por isso tudo e muito mais, é inconcebível abandonar irmãos de armas ante a injustiça que correm o risco de sofrer. Por outro lado, é hipocrisia a condenação de governos nos quais tenham ocorrido excessos na reação à luta armada, por sucessivos governos que remuneram, apoiam e confraternizam com o MST, cujas ações resultam, impunemente, em ameaças, invasões, destruições e mortes; que idolatram regimes totalitários e lideranças ditatoriais criminosas como as de Cuba e do Irã; que concedem asilo político a terroristas estrangeiros condenados ao mesmo tempo em que entregam a Cuba fugitivos daquela ditadura; e, ainda, pagam indenizações milionárias a assassinos, sequestradores e terroristas anistiados, e suas famílias, mas não às vítimas de seus crimes[2]•.

Em 2013, assisti ao depoimento do Coronel Ustra em audiência pública da nefasta, e indevidamente chamada, Comissão Nacional da Verdade. Ustra enfrentou, com indescritível e admirável coragem moral, inteligência, lucidez e segurança, o cenário montado com o propósito de intimidar e enfraquecer o mais relevante símbolo da vitória do Exército contra a luta armada. Seria uma forma de abrir espaços na mídia para a opaca e desacreditada comissão, de maneira a respaldar o prosseguimento de trabalhos vistos como facciosos pela maioria da sociedade. Ledo engano daqueles que não sabem do que é capaz um soldado com têmpera de aço e consciência tranquila de ter cumprido dignamente a missão que o Exército e a Nação lhe confiaram.

"Teu grito de guerra retumbe aos ouvidos d’imigos transidos por vil comoção; e tremam d’ouví-lo pior que o sibilo das setas ligeiras, pior que o trovão "
(Canto VI da Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias).

Ao entrar no auditório, a presença do Coronel Ustra transmitiu uma silenciosa mensagem de força interior, que se impôs ao público presente. Iniciada a inquirição, as respostas precisas e a voz do comandante se impuseram à audiência e desarmaram os inquisidores que, surpreendidos, foram ficando inseguros e sem argumentos convincentes para embasar os questionamentos que faziam.

Ah, como foi bom ver os membros da comissão, fisionomias espantadas e mentes desorientadas, na realidade, totalmente perdidos, caírem do pedestal onde pretendiam brilhar sob os holofotes da mídia, tripudiando sobre uma ilusória fragilidade do emblemático alvo da esquerda radical. Arrogância, vaidade, revanchismo, injustiça e ambição midiática - uma ausência total de grandeza de propósitos - desmoronaram diante da autoridade moral de quem sempre teve a Nação, o Exército e a família como razões de viver. A audiência foi encerrada, apressadamente, após o tumulto provocado por antigo preso da OBAN, nos anos 1970, frustrado pela intervenção de militares que assistiam ao evento e cuja reação obrigou a comissão a fazer cumprir as recomendações estabelecidas por ela mesma ao início do evento. Por causa desse fracasso, a comissão da omissão da verdade nunca mais fez uma audiência pública durante seus trabalhos, cuja finalidade, de fato, nunca foi revelar a verdade histórica sobre violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 e promover a reconciliação nacional, propósitos surrealistas após centenas de obras escritas sobre o regime militar e mais de trinta anos da redemocratização. Seus objetivos, claros desde o início, eram provocar a revisão da Lei de Anistia, para punir apenas os agentes do Estado que combateram a luta armada, condenar os governos militares e os chefes do passado e imobilizar as Forças Armadas, contribuindo com o projeto da liderança política no poder de implantar o socialismo no Brasil.

As Histórias do Brasil e do Exército, inclusive nos anos 1960 e 1970, não hão de ser conhecidas apenas pela versão dessa esquerda socialista radical, derrotada e anistiada pelos governos militares, e descompromissada com os feitos históricos e os heróis nacionais. A verdade não será sufocada pelos apóstolos de Lênin e Mao, seguidores de Fidel, Lula e Chaves e serventes da atual liderança política, pouco afeita à verdade, mentora dos escândalos do mensalão e do petrolão.

O Exército não cometerá tal injustiça com seu passado longínquo e com sua contribuição decisiva para a implantação, condução e consolidação da democracia no Brasil. Não permitirá que neguem sua indissolúvel união e lealdade à Nação, nem que seja vilipendiada a memória de antigos e honrados chefes e camaradas, entre eles o Coronel Ustra, que lideraram e defenderam a Nação da agressão comunista. Seria o suicídio da autoestima e do autorrespeito, além de uma desonrosa rendição à esquerda radical, em seu propósito de quebrar a coesão do Exército e promover o rompimento das futuras gerações de soldados com o honroso legado da Instituição. A História do Exército, cuja reputação e credibilidade são irrefutáveis, há de ser contada, também, pelos herdeiros de Caxias, Mascarenhas, Castello e Médici. O Coronel Ustra, um herdeiro dessa nobre linhagem, deixou relevante contribuição para as Histórias do Brasil e do Exército com seu livro A Verdade Sufocada, um cativante e bem documentado relato do combate à luta armada. A saga vivida por Ustra, como líder e testemunha ocular, nos faz lembrar o trecho final do célebre poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias:

"Assim o Timbira, coberto de glória, guardava a memória do moço guerreiro, do velho Tupi. E à noite nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, tornava prudente: Meninos, eu vi!”.

 

FONTE: Epílogo do livro A Verdade Sufocada

Observações:

[1] Tibiriçá (1440? – 1562) - “O Vigilante da Terra” na língua Tupi: era um cacique tupiniquim e foi o primeiro indígena a ser catequizado pelo Padre Anchieta. Liderou com bravura a sua tribo na defesa da povoação de São Paulo, em seu nascedouro, quando atacada por uma confederação de tribos indígenas.
[2] “A Viúva do Che”: artigo deste autor, publicado em vários sites da internet em 2009, inclusive no site “A verdade Sufocada”.



 

Última modificação em Sábado, 17 Outubro 2020 18:48
Luiz Eduardo Rocha Paiva

O General de Brigada Luiz Eduardo Rocha Paiva nasceu na cidade de Niterói (RJ) em 07 de setembro de 1951.

Foi graduado Oficial da Arma de Infantaria em 1973, na Academia Militar das Agulhas Negras e passou à reserva remunerada em 2007, com mais de 40 anos de serviço ativo.

Possui cursos dos níveis de graduação, mestrado e doutorado na área de Ciências Militares, respectivamente, na Academia Militar das Agulhas Negras, Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Pós-Graduação MBA Executivo do Exército Brasileiro – Especialização – na Fundação Getulio Vargas – RJ.

Foi instrutor na Academia Militar das Agulhas Negras, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Em 1985, estagiou na 101ª Divisão de Assalto Aéreo do Exército dos EUA, onde fez o Curso de Assalto Aéreo.

Em 1992/1993, foi Observador Militar das Nações Unidas, na missão de paz em El Salvador – América Central.

Em 1994/1995 fez o Curso de Altos Estudos Militares da Escola Superior de Guerra do Exército Argentino.

Em 1998/1999, foi comandante do 5º Batalhão de Infantaria Leve em Lorena – SP, unidade da Força de Ação Rápida do Exército. Na oportunidade, comandou missão de pacificação no sul do Pará em conflito entre o MST e fazendeiros locais.

Como oficial-general foi gerente do Programa Excelência Gerencial do Exército, Comandou a Escola de Comando e Estado-Maior e foi Secretário-Geral do Exército.

Recebeu dezessete condecorações nacionais e seis estrangeiras.

É professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Diretor Da Área de Geopolítica e Conflitos do Instituto Sagres, em Brasília, e Conselheiro da Comissão de Anistia do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, cargo não remunerado.

É palestrante e escreve artigos sobre geopolítica, estratégia, liderança, política nacional e a Força Expedicionária Brasileira, publicados em livros, jornais e revistas nacionais e estrangeiras. 

É casado com a Sra. Nadia Maria Rocha de Lima Paiva, há 45 anos, com quem tem dois filhos: Rodrigo de Lima Paiva - Ten Cel de Infantaria - e Fabio de Lima Paiva - Analista Sênior do Banco do Brasil - e quatro netos. 

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