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12 Out 2020

"ACABEI COM A LAVA JATO": BRINCADEIRA SEM GRAÇA, ATO FALHO OU CONFISSÃO DE BOLSONARO

Escrito por 

POR: ALEXANDRE GARCIA                                                                                                                          

“É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato, eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo”

 

Brincadeira sem graça, ato falho ou confissão despudorada? O presidente Jair Bolsonaro aproveitou o lançamento de um programa de incentivo ao setor aéreo, com desburocratização, desregulamentação e redução de custos, para falar de outro assunto completamente alheio ao tema da cerimônia: a Operação Lava Jato. E o fez de uma forma bastante infeliz. “É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato, eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo”, afirmou.

As reações foram imediatas. No Twitter, sem citar especificamente a declaração de Bolsonaro, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro Sergio Moro escreveu que “as tentativas de acabar com a Lava Jato representam a volta da corrupção. É o triunfo da velha política e dos esquemas que destroem o Brasil e fragilizam a economia e a democracia. Esse filme é conhecido. Valerá a pena se transformar em uma criatura do pântano pelo poder?”. Em nota, a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba afirmou que “o discurso indica desconhecimento sobre a atualidade dos trabalhos e a necessidade de sua continuidade”, e que a afirmação “reforça a percepção sobre a ausência de efetivo comprometimento com o fortalecimento dos mecanismos de combate à corrupção”.

    Como o presidente da República afirma, sem ruborizar, que “acabou com a Lava Jato” e que isso é motivo de “orgulho” e “satisfação”?

O que todo brasileiro que apoiou desde o início o combate à ladroagem representado pela Lava Jato, e que votou em Bolsonaro justamente por repudiar o projeto cleptomaníaco petista, se pergunta agora é: como o presidente da República afirma, sem ruborizar, que “acabou com a Lava Jato” e que isso é motivo de “orgulho” e “satisfação”? Admitamos, por um instante que seja, que na verdade Bolsonaro quis dizer que seu governo não precisará de “uma Lava Jato” porque não é corrupto. Não seria, portanto, uma referência à Lava Jato propriamente dita, que continuaria na ativa, investigando a roubalheira dos governos anteriores, porque no de Bolsonaro não haveria nada a investigar.

A própria premissa usada pelo presidente tem lá suas falhas, dada a manutenção de Marcelo Álvaro Antônio, denunciado pelo caso dos “laranjas do PSL”, no Ministério do Turismo; e, principalmente, as inúmeras questões por responder envolvendo o senador Flavio Bolsonaro e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, resvalando também no nome da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Mas, ainda que não houvesse a menor sombra de dúvida, a menor suspeita sobre a lisura de integrantes do governo ou do entorno de Jair Bolsonaro, a afirmação teria sido uma brincadeira sem graça, um chiste profundamente infeliz. O presidente usou de forma leviana e desastrosa o nome da mais bem-sucedida operação de combate à corrupção do país, dizendo que “acabou com ela” quando sua continuação se mostra mais que necessária, dadas as inúmeras ramificações do esquema criado pelo petismo, com o apoio de outros partidos e de empreiteiras, para pilhar as estatais.
E mesmo dando a Bolsonaro o benefício da dúvida sobre o real sentido de uma frase tão enfática, não há como negar que a Lava Jato real – essa, que já teve Moro e Deltan Dallagnol, e que ainda tem tantos membros valorosos no Ministério Público, na Polícia Federal e no Judiciário –, vem sendo minada, sim, por ações de Bolsonaro, a começar pela escolha de Augusto Aras, um crítico da operação, como procurador-geral da República. Aras está entre os que compraram a narrativa tão vaga quanto equivocada dos tais “excessos” da Lava Jato, grupo que, a julgar por declarações passadas, pode também incluir Kassio Nunes Marques, o escolhido de Bolsonaro para a vaga deixada por Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal.

 

FONTE: GAZETA DO POVO

Última modificação em Segunda, 12 Outubro 2020 18:14
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