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07 Out 2020

CIRCUNSTÂNCIAS E OPORTUNIDADES

Escrito por 

Parece que o racionalismo cultural das sociedades mais esclarecidas tornou as pessoas pretensiosas e materialistas

 

O meu curso no US Army War College iniciou-se, em julho de 1988, com o módulo didático de “Senior Leadearship”, isto é, liderança de altos escalões. Ao final, deveria cada aluno apresentar um trabalho escrito contendo a descrição do próprio projeto de carreira.

No meu “paper”, defendi a tese de que não era possível planejar o futuro profissional, pela complexidade das variáveis que interferiam no curso da vida. O máximo previsível era manter-me preparado para as oportunidades geradas pelas circunstâncias que adviriam, e atento, para que elas não passassem em vão. Os demais alunos apresentaram suas visualizações com as respectivas metas e cronologias. Na crítica de final do módulo, o instrutor mostrou-se desapontado. Sem mencionar o meu nome, sugeriu que não era possível um oficial nos tempos modernos deixar de planejar a própria carreira. Aos seus olhos, minhas alegações demonstravam insensatez e irresponsabilidade.

Parece que o racionalismo cultural das sociedades mais esclarecidas tornou as pessoas pretensiosas e materialistas. A simples observação dos fatos mostra que a interpretação da realidade natural transcende a razão humana.

Os estudos do fenômeno da sincronicidade por Jung demonstraram que todos os processos conscientes estão ligados ao cérebro. Porém, Von Frisch provou que há pensamentos e percepções transcerebrais, pois que existe comportamento “inteligente” dos organismos desprovidos de cérebro.

Leibnitz, em seus escritos, enfatizou para os empiristas que: “Há percepções que não são percebidas”. E mostrou que a harmonia é uma lei natural. Ratificando o pensamento daquele filósofo, Jung afirmou que: “Há no inconsciente conhecimento a priori de acontecimentos, sem qualquer base causal”.

O homem tem a liberdade de pensar, que é absoluta. Quem não é senhor do próprio pensamento, não tem liberdade. Contudo, a liberdade de agir é limitada. Alberto Magno descobriu que a emocionalidade da alma humana constitui a causa principal de todas as decisões. E a afetividade repousa basicamente nos instintos, que são irracionais.

As circunstâncias que influenciam o destino humano são desconhecidas e independem da vontade das criaturas. Meditando, Humberto de Campos intuiu que: “As circunstâncias da vida expressam a vontade de Deus”.

“Tudo na vida é mutável”, concluiu Heráclito. Um século depois, Sócrates acrescentou: “A sabedoria é o estado da alma que se une ao imutável”.

Portanto, o destino só pode ser um projeto inconsciente. Não quero, com isso, subestimar o uso da razão em planejar o que se consegue descortinar na própria mente. Pelo uso da inteligência e das habilidades adquiridas, é possível fazer previsão em linhas gerais e otimizar o curso da vida, mas a definição de metas é uma pretensão temerária. A verdade é que a natureza humana é frágil e dependente.

Passados 18 anos, observei ter sido o único dentre os 256 oficiais diplomados em 1989, em Carlisle Barracks, a atingir o posto máximo da carreira comum. Minha tese estava provada. O diagnóstico científico e a sabedoria empírica parecem tender para a terapêutica evangélica das questões do destino: “Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará” (Mt.7:7 a 11).

Última modificação em Quarta, 07 Outubro 2020 17:24
Maynard Marques de Santa Rosa

 General-de-Exército reformado. Nasceu em Canudos (município de Anadia-AL), em 1944. Formado pela AMAN, turma de 1967. Graduou-se nos demais cursos de formação militar e no curso de Política e Estratégia do US Army War College. Serviu em 24 organizações militares. Foi Comandante Militar do Nordeste, Secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, professor de pós-graduação da Fundação Armando Álvares Penteado-FAAP (S. Paulo) e Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República

 

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