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02 Out 2020

UM ELEFANTE, O CÉU ESTRELADO E NÓS

Escrito por 

Por definição um ser diminuto como nós não tem como abarcar toda a grandeza da criação e, muito menos, todos os atributos do Criador.

 

No mundo contemporâneo qualquer garotinho é capaz de olhar para uma pessoa adulta e, com um olhar ousado, dizer que tudo é relativo e que não existem valores universais. É muito fácil dizer isso. Muito mais fácil do que esforçar-se para procurar conhecer a verdade.

Basta apresentar para si e para seu interlocutor um e outro exemplo de valores estrambólicos que sejam cultivados por uma e outra sociedade que, apressadamente, o guri acreditará piamente que demonstrou que esse trem fuçado de verdades universais é coisa de obscurantistas do passado.

Aliás, colar o rótulo de obscurantista em qualquer um que diga que a realidade não é bem desse jeito como as ideias absolutistas da última hora querem relativizar, é algo que traz uma tremenda segurança psicológica.

Se aqueles que não rezam na nossa cartilha são obscurantistas, logo, minha pessoinha é iluminada. E um adolescente adora isso. As duas coisas: uma resposta rápida que não exija um longo período de reflexão e a sensação de que ele é melhor e mais sabido que as pessoas da geração anterior.

Dito isso, mudemos um pouco a direção dessa prosa e matutemos um tanto sobre esse troço que é o relativismo. É óbvio que existem elementos que integram a realidade que são relativos, porém, existem outros mais que são universais e que, por sua vez, podem ser percebidos de forma relativa.

Trocando por dorso: o conhecimento da verdade, de qualquer uma, é sempre problemático; e reduzir esse problema a uma coleção superficial de vários pontos de vista não resolve a parada.

Dito de outra forma: podemos dizer que o conhecimento da verdade, que a distinção entre elementos universalmente válidos e troços circunstancialmente relativos, é similar a visão de uma paisagem coroada de boniteza.

Em qualquer cenário temos o céu em contraste com a terra. Ininterruptamente. O céu é sempre o mesmo. A terra, a paisagem geográfica, varia muito dependendo donde estamos no globo e, por isso, uma complementa necessariamente a outra.

Sim, em alguns lugares o céu pode estar nublado, com muitas nuvens. Pois é. Mas as nuvens não são o céu. Elas estão no céu. Sei também que a visão das estrelas num canto do globo é diferente de outras regiões da terra. Claro que sim. Mas as constelações que adornam o céu com sua boniteza não são o céu, elas estão além dele. Logo, a presença de elementos transitórios não invalida a existência daqueles que são permanentes. Muito pelo contrário. Eles não seriam transitórios se não existissem os permanentes.

Resumindo: tal qual o céu, as verdades universais acabam sendo a interface que nos permite identificar, distinguir e reconhecer tudo o mais que se apresente junto a elas, sob e além delas.

Abre parêntese: certa feita o Maneco Kant havia dito que o que mais lhe causava admiração na vida eram as luzes do firmamento e a lei moral inscrita no coração dos homens. Coincidência das coincidências, hoje em dia, sob a égide da ditadura do relativismo, temos o fenômeno da invisibilidade do céu noturno e a tentativa de negar a presença da lei moral no coração humano. Bacana isso, não é mesmo? Bem, eu achei. Fecha parêntese.

Agora, sigamos por outro carreiro. Há uma parábola budista que é contada muitas vezes por todo e qualquer caboclo que deseja demonstrar que tudo é relativo e que não existem verdades universais. É a parábola dos monges cegos.

Parábolas, histórias e historietas, no velho Paraná sempre começam assim: Diz que havia um monastério onde viviam monges cegos e, no centro dele, existia um elefante. Um dia os monges foram apalpar o paquiderme. O primeiro apalpou a calda e concluiu que o bicho era uma corda. O segundo abraçou uma pata e disse que seriam uma coluna. O terceiro alisou a pança e afirmou que era um muro. O quarto agitou a orelha e declarou que o animal era uma palmeira. O quinto acabou pegando na tromba e, meio que sem jeito, meio que gaguejando, disse que era uma cobra, mas, na verdade, ele tinha outra coisa em mente.

Moral da história: o elefante, no centro, é a realidade e, cada um dos monges, ao tocá-lo, seríamos nós, tentando conhecer o real. Cada um teria percebido algo diferente, logo, vejam como a verdade é relativa. Cada um dos monges percebeu algo que enriqueceu a visão do outro. Fim do causo.

Não. Não é o fim não. É só o começo. Vejamos: se nós juntarmos uma corda, com uma coluna, um muro, uma palmeira e uma... cobra, nós teremos o quê? Com toda certeza não será um elefante.

Trocando em miúdos: todas as percepções que os monges tiveram ao tocar o paquiderme no centro do monastério eram apenas ilusões, enganos, auto enganos, devaneios e similares. Só isso e olhe lá. Coisinhas que em nada ajudaria na compreensão do que estava diante deles.

Bem, de forma similar às personagens da parábola, nós temos apenas acesso a um e outro aspecto da realidade e, muitas vezes, movidos por um misto de afobação e presunção, tiramos conclusões apressadas que não tem correspondência alguma com a verdade dos fatos.

Pois é. Quantas e quantas vezes nos equivocamos. Quantas e quantas vezes iremos nos equivocar. O número é graúdo e incerto, mas isso não significa que a verdade seja relativa. Não. Significa que nossa capacidade de captar a dita cuja é limitada, por isso, o conhecimento dela, da verdade, sempre é um trem problemático.

Sim, o fato de reconhecermos a majestade da verdade não significa que a conhecemos por inteiro. Por definição um ser diminuto como nós não tem como abarcar toda a grandeza da criação e, muito menos, todos os atributos do Criador. Porém, dizer que um e que o Outro são relativos não passaria dum ato soberbo, de querer reduzir Deus e sua criação duma forma bestial para que ambos caibam dentro de nossa insignificante caixola.

Enfim, mesmo que não concordemos com nada do que foi escrevinhado até aqui, mesmo que continuemos agarrados aos dogmas da ditadura do relativismo, a verdade continuará sendo o que é, mesmo que todos nós continuemos, com beicinho e cara feia, dizendo o contrário e ignorando a sua presença em nossa vida.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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