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11 Mai 2004

Respeitem o Trabalhador

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Na economia e em outros campos da ação humana, entre uma ação e seus efeitos finais, decorre um decurso de tempo, em que os resultados costumam ser, temporariamente, contrários aos desejados.

Na economia e em outros campos da ação humana, entre uma ação e seus efeitos finais, decorre um decurso de tempo, em que os resultados costumam ser, temporariamente, contrários aos desejados. Embora aparentem contradição, esses conflitos entre os efeitos de curto e de longo prazo são apenas ajustamentos – inescapáveis! - que o processo de mercado desencadeia, com ou sem a mão do Estado. Mas, se é difícil encontrar um brasileiro que saiba distinguir entre causas e efeitos, é quase impossível achar quem saiba discernir entre efeitos de curto prazo e de longo prazo... Isto nos vem a propósito da velhíssima discussão sobre os baixos salários no Brasil.

Salários – queiram ou não os que escrevem a palavra mercado entre aspas - dependem da produtividade dos trabalhadores, que é baixa em nosso país, porque aqui nunca se investiu com seriedade em educação e saúde e porque somos carentes de capital. Portanto, a solução correta – tanto para os baixos salários quanto para a concentração da renda, é que se passe a dar a devida atenção, de um lado, a esses setores e, de outro, à formação de poupança, para municiar aumentos no estoque de capital e na produtividade do trabalho e, portanto, nos salários.

Mas, como ainda se desconhece, em quase toda a América Latina, o que nos ensinavam os antigos romanos – que, “uma vez atacadas as causas, cessam os efeitos” – prefere-se montar uma parafernália de paliativos para o baixo poder aquisitivo dos salários, que, no longo prazo, só agravam o problema: salário mínimo, vale-transporte, tíquete-refeição, passes para idosos e estudantes, cartões para isto e para aquilo, restaurantes e salões de beleza a um real, PIS, PASEP, Fome Zero... Como não existe nada “de graça” na economia e o “longo prazo”, enfim, chegou, após décadas dessas dissimulações, milhões de trabalhadores já morreram na pobreza e outros milhões passam agudas necessidades, geração após geração.

Que tal atacar as causas de uma vez por todas? Que tal abolir todas essas demagogias e expedientes eleitoreiros? Que tal extirpar os encargos trabalhistas e tributários, que oneram o custo da mão-de-obra e perpetuam a pobreza e o desemprego? Toda a discussão sobre se o salário mínimo deve ser de uns centavos a mais ou a menos por dia é inútil, a não ser para dar votos! A simples aceitação do conceito de salário mínimo já é indício de desconhecimento máximo...

Os encargos que incidem sobre a contratação de mão-de-obra com carteira de trabalho assinada chegam ao escandaloso percentual médio de 103%. Para termos uma pálida idéia de como esses gravames podem ser responsabilizados por uma considerável parcela do desemprego e da informalidade, suponhamos que caíssem, dos atuais 103%, para 15%. Com o novo salário mínimo de R$ 260, o custo por trabalhador baixaria de R$ 527,80 para algo muito perto de R$ 300, ou seja, quem hoje emprega 10 trabalhadores poderia, ao mesmo custo, passar a empregar 17 funcionários e mais um décimo oitavo trabalhando em meio expediente, um crescimento de 75%! E a empresa que resolvesse manter apenas os 10 empregados poderia pagar a cada um exatamente R$ 458,95, ou 76,5% a mais do que o mínimo proposto pelo governo popular do PT...

O salário mínimo e todo o caudal de óbolos dos “vales” e “tíquetes” são excrescências a serem eliminadas.  Os homens públicos precisam respeitar a dignidade da pessoa humana, sem flores e passeatas, mas com educação e saúde; sem populismo, mas com o fim do Estado saúva; sem o foco enganoso dos refletores, mas com o foco virtuoso nas causas dos problemas.


(Publicado no Jornal do Brasil - 10/05/2004).

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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