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25 Set 2020

NANANDO EM BERÇO ESPLÊNDIDO

Escrito por 

Há aquelas víboras que estão a muito aninhadas nas entranhas do poder e sabem muito bem o que devem fazer para manter a sua posição vantajosa no ecossistema. E sabem fazer isso muito bem, diga-se de passagem.

 

Há bichinhos que durante uma temporada entram em hibernação, outros em brumação. Os primeiros, geralmente são animais de sangue quente. Os segundos são répteis. A bicharada que hiberna puxa a baba durante o inverno e, na primavera, voltam a dar as caras. Já os animais que brumam se recolhem, ficam acordados, quietinhos, durante essa estação do ano, esperando o momento propício para voltar a cena.

Essa mera curiosidade do mundo animal, que me ocorreu ao assistir um episódio da série “Cobra kai”, levou-me a matutar um cadinho a respeito do ano eleitoral, onde cidadãos desavisados, como eu, serão convidados a escolher um nome para ocupar o trono do executivo municipal e para indicar um outro nominho para se abancar num domínio junto ao legislativo da polis.

Tenho a impressão que os quatro anos dum mandato (que em alguns casos acaba terminando com um mandado), são semelhantes a estação em que as flores se ausentam. Durante quatro anos tudo fica cinza, pálido, sem vida. Até parece que a Feiticeira Branca das Crônicas de Nárnia resolveu ficar uma temporada nas municipalidades desse triste país. Ao menos, em boa parte delas.

Todos somem. Ninguém dá as caras. Ninguém.

Aí, lá pelas tantas, eis que o clima fica “mais melhor de bão”. O sol dança no horizonte como se houvesse bailão no CTG, as flores voltam a colorir a paisagem e a nos fazer sorrir e, junto com elas, tanto os animais de sangue quente como as víboras voltam a cena. Os primeiros procuram o que comer; os segundo, a quem morder.

Eleição nessas terras de Pindorama acaba sendo mais ou menos assim: um fervo só. Especialmente quando se refere as disputas pelos cargos de “otoridade” nas cercanias municipais.

Entre os cidadãos desavisados temos meio que de tudo um pouco. Há aqueles que são bonachões feitos ursos de desenho animado. Tudo é uma alegria só. Tudo é motivo para uma festa.

Temos também cidadãos que, feito guaxinins, não perdem tempo e tentam tirar proveito de tudo, cientes de que esses dias de regozijo não irão durar muito.

E, é claro, acabamos encontrando aqui e acolá, um e outro cidadão coruja. Taciturnos. Melancólicos. Eles ficam apenas observando tudo do seu canto, cientes de que tudo aquilo é um retrato mal feito do que há no fundo de nossa alma.

Já entre os candidatos o trem é doutro jeito. Há aquelas víboras que estão a muito aninhadas nas entranhas do poder e sabem muito bem o que devem fazer para manter a sua posição vantajosa no ecossistema. E sabem fazer isso muito bem, diga-se de passagem.

Também há aquelas serpentes que estão tentando conquistar o seu lugar ao sol e procuram fazer de tudo para consegui-lo. Algumas delas são extremamente astutas; outras se acham, mas não são.

E há aquelas cobrinhas que vivem rodeando as víboras e serpentes, rastejando junto de seus mestres, procurando garantir um cadinho pra si daquilo que está vibrando no presente, antes que o frio volte a imperar.

Uma vez ou outra aparece aqui e acolá uma águia que fere um e outro membro do serpentário. Sim, as vezes aparece, mas é muito raro que isso aconteça. É raro que ela apareça e, mais raro ainda, que ela consiga ferir as criaturas escamosas.

Seja como for, a brumação está acabando. A hibernação também. A palavra de ordem dentro de alguns dias será eleição, a primavera do povo; e, junto com ela outras mais chegarão, prometendo dias melhores para todos.

Nesse tempo, todos se refestelarão com essa vaga possibilidade e, quando esses dias findarem, todos voltarão a sumir. Todos.

Os cidadãos eleitores hibernarão, retornando para suas lides de cada dia, preocupados com as contas de hoje – e com as de amanhã também.

Quanto aos répteis, estes voltarão para suas tocas e irão, faceiros, brumar por mais quatro anos. Ficarão sumidos, mas atentos, preparando-se para o próximo bote que deverá ser dado daqui a quatro primaveras.

Enfim, encurtemos o causo: é mais ou menos assim que segue o ciclo [depre]cívico da vida, e segue sendo, caminhando miúdo, sem direito a música Elton John como trilha sonora.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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