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19 Set 2020

NA SALA DE ESPELHOS DA ALMA

Escrito por 

Ao relativizarmos a majestade da Verdade acabamos por coroar os caprichos do nosso ego que passam a ser nossa régua de valores que utilizamos, sem a menor cerimônia, para mensurar a importância e o significado de tudo que está a nossa volta.

 

É praticamente impossível amar aquilo que não se conhece. Da mesma forma, é fácil por demais rejeitar toda e qualquer coisa que presumimos conhecer.

Presumo, logo me sinto autorizado a caluniar, depredar e tutti quanti. É mais ou menos assim, infelizmente, a toada que embala o jogo da vida.

Claro que cada um de nós é bem capaz de lembrar de um bom punhado de pessoas que agem mais ou menos desse jeitão, porém, relutamos, como relutamos, em admitir que muitas vezes agimos bem assim.

Se fazemos isso por mero automatismo, ou por malícia calculada, ou movido por um misto desses dois impulsos, é algo que cabe a cada um analisar, se assim desejar.

Abre parêntese. Não ousarei dizer o que há no coraçãozinho peludo de ninguém não. Penso que isso não seria producente. Por isso, que cada um escarafunche o seu. Fecha parêntese.

Mas nada impede que matutemos um cadinho sobre o assunto e que o façamos a partir das palavras do Santo Evangelho. Penso, especificamente, na parábola que nos ensina a diferença da oração do fariseu e do publicano (Lucas XVIII; 9 – 14).

Todos nós conhecemos muito bem essa parábola. Todos. Fiéis quentes, crentes frios, devotos amornados e, inclusive, os incrédulos simpatizantes; e não há uma viva alma que ao lê-la não diga pra si mesmo que conhece boleiras de caboclos que são a cara escarrada do fariseu e, ao mesmo tempo, diga para si, no cavernoso silêncio do seu coração, que agradece a Deus por ser semelhante ao  humilde publicano.

É. Sem querer querendo, acabamos por fazer a mesmíssima meleca que o fariseu da parábola. Sim, é duro, mas é assim mesmo. Cá estamos nós, todo santo dia em nossas preces, e nos domingos na Santa Missa, repetindo as palavras e o gesto do publicano com o espírito do fariseu sem, é claro, nos darmos conta disso.

E, assim agimos por termos nosso olhar e coração obtusos para a verdade. Por isso relativizá-la é mais cômodo, tendo em vista que podemos fazer de conta que não é conosco o babado. É sempre com todos, menos com nossa pessoa.

Ao relativizarmos a majestade da Verdade acabamos por coroar os caprichos do nosso ego que passam a ser nossa régua de valores que utilizamos, sem a menor cerimônia, para mensurar a importância e o significado de tudo que está a nossa volta.

E reparem numa coisa curiosa pra caramba: sem o menor pudor relativizamos o valor e a importância de tudo que, de alguma forma, questiona nosso olhar caprichoso, mas nunca, nunquinha, relativizamos nossa alminha absolutista que, petulantemente, diz que “a verdade sou eu” porque tudo é relativo. Tudo, menos “eu”.

De acordo com esse mantra mundano que impera no mundo contemporâneo, é escandaloso que alguém ouse dizer que Cristo é a Verdade. Sim. Diante Dele tudo o que somos é relativo.

Tal observação dá muito pano pra manga. Se dá. Por isso, imagino eu, muitos preferem dizer lá no subsolo da sua alma que “eu sou a verdade” e tudo é relativamente válido frente ao que “eu digo”. Procedendo assim, acabamos por nos agrilhoar em nossos desejos rasteiros e utopias furadas e, com essa auto sabotagem, ficamos impedidos de ver, reconhecer e acolher a Verdade, tendo em vista que nos habituamos a viver confortavelmente num simulacro de vida.

Enfim, como havíamos dito no início dessa escrevinhada, é praticamente impossível amar aquilo que desconhecemos, da mesma forma que é fácil rejeitar toda e qualquer coisa que presumimos conhecer, principalmente quando não estamos nem aí para a Verdade.

Última modificação em Sábado, 19 Setembro 2020 17:45
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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