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11 Set 2020

O TEMPO NÃO PARA NÃO

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Uma atitude similar a essa é aquela que muitas vezes se vê manifesta em um ano eleitoral municipal, quando ouvimos as pessoas dizerem que irão votar em Fulano e Beltrano porque eles irão possivelmente vencer e ele, o Cicrano, não quer saber de perder o seu voto.

 

Lá por meados dos anos noventa, quando comecei a me aventurar com as lides de sala de aula, havia eu perguntado a uma turma do terceiro ano do Ensino Médio se eles se lembravam da sensação de quando eles foram para escola pela primeira vez, quando eram ainda pequerruchos e, uma das alunas, toda sorridente, disse que ela lembrava sim, que era um momento de grande alegria para ela começar a ir para o “coleginho”. Ouvindo isso, perguntei: “por quê?” E ela: “porque todo mundo ia para o ‘coleginho’ e eu também queria fazer o mesmo”.

Essa fala, lacônica e sincera, que nunca saiu de minha memória, de certa forma sintetiza o que muitas vezes significa o tal do contentamento momentâneo e, por incrível que pareça, o que nos contenta muitas vezes não é necessariamente algo bom, mas sim, apenas algo que “todo mundo faz” e, se todos fazem, acaba muitas vezes nos parecendo “legal”.

Ninguém gosta de reconhecer, mas, muitas das decisões que tomamos em nossa vida são fundadas num juízo similar a esse. Se todos fazem isso, se as pessoas “bacanas” estão lá, pô, eu também quero fazer isso e estar lá para me sentir contente e satisfeito.

Uma atitude similar a essa é aquela que muitas vezes se vê manifesta em um ano eleitoral municipal, quando ouvimos as pessoas dizerem que irão votar em Fulano e Beltrano porque eles irão possivelmente vencer e ele, o Cicrano, não quer saber de perder o seu voto. De jeito maneira.

Sim, há aqueles que votam no aparente vencedor porque tem interesses nada republicanos na vitória do Fulano; outros votam porque realmente imaginam que esse parece ser a melhor escolha para os rumos da cidade, como há aqueles que votam por considerá-lo um mal menor e, por fim, temos aqueles que votam no tal Beltrano porque, como dizem, eles não querem perder o seu preciosíssimo voto que nem de Minerva é.

Detalhe importante: geralmente esses Cicranos são os mais empolgados com a bagaça eleitoral toda. Vão em todos os comícios, estão em todos os botecos, lanchonetes, barbearias e bares falando sem parar das peripécias do seu candidato e anunciando as “boas novas”, dizendo o que Falano supostamente irá realizar para o bem do futuro de toda a municipalidade. Enfim, é um troço lindo de se ver.

Pois é, mas tal qual a garotinha que queria porque queria ir para o “coleginho” só porque todo mundo estava indo pra lá, nós muitas vezes sufragamos nosso voto numa ou noutra beldade política só porque, aparentemente, todo mundo está rumando para a mesma direção.

Bem, por essas e outras que, penso eu, devemos, sim, levar a sério as questões políticas, mas não tão a sério assim. É por isso, também, que é bom não levarmos tão a sério as lides políticas, porém, sem jamais perdermos a seriedade. Enfim, é importante levarmos a sério os ditos e feitos da classe política, sem, é claro, levá-los a sério.

De mais a mais, iremos descobrir se ganhamos ou perdemos o nosso amado votinho daqui quatro anos e não após a abertura e apuração das urnas, não é mesmo? Por isso, vamos devagar com o andor porque o santo é de barro e o futuro a Deus pertence.

Última modificação em Quinta, 08 Outubro 2020 09:12
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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