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12 Set 2020

TENHO MUITA PENA DO SENHOR, MINISTRO

Escrito por 

Toda suposta glória que possamos pensar ter alcançado se desvanece no tempo, ficando o registro, apenas, do que se possa ter feito de bom ou de mal.

 

Meus amigos

Vou voltar a uma reflexão que já fiz, tempos atrás, mas, agora, para me permitir uma conclusão sob enfoque diverso.

No seu livro O HOMEM, um dos mais de sessenta publicados pelo filósofo brasileiro Huberto Rohden, logo no primeiro capítulo, após o prefácio, o autor faz as considerações que transcrevo a seguir:

              “Através de milhões de anos, o homem, graças à Potência original, atingiu o nível em que hoje se acha: fluiu, como escreveu Teilhard de Chardin, através da hilosfera (material), pela biosfera (vida) e se acha agora na noosfera (inteligência), podendo traçar o seu itinerário ascensional até a logosfera (razão)”.

Esse processo evolutivo propiciou ao homem a possibilidade, diferentemente do que ocorre com os demais seres vivos, de lidar com o abstrato.

Entretanto, ainda hoje, mesmo aqueles indivíduos que alcançaram estágios mais evoluídos, enfrentam uma grande dificuldade de lidar com o intangível.

Como explicar, compreender, o amor, a alegria, a tristeza, o bem, o mal, o certo, o errado, a bondade, a maldade, a beleza, a paz....

Ao longo de sua evolução, o homem passou a recorrer aos símbolos, no esforço hercúleo de dar concretude a esse abstrato com o qual tem dificuldade de interagir.

Ainda assim, o problema não fica adequadamente resolvido, mas, de alguma forma amenizado. Caso pedisse ao prezado leitor que explicasse o que é paz, provavelmente recorreria a símbolos como uma pomba branca, ou, quem sabe, a um campo amplo, florido, num dia ensolarado. Estou certo de que um sem número de outras alternativas terão vindo à mente de cada um dos que possam estar acessando este texto.

Retornemos aos tempos do Renascimento, quando artistas brilhantes eram apoiados por mecenas, para expressar seu talento, normalmente, em obras de fundo religioso.

Qual terá sido a magnitude do desafio daqueles homens para retratar nas suas pinturas, suas esculturas, as imensas intangibilidades que os temas religiosos suscitam.

Como representar Deus numa pintura? A maior das intangibilidades. Apesar de onipresente e onipotente, precisando ser resumido no espaço disponível para sua manifestação artística.

Hoje, se sabe que a Divindade, invariavelmente, foi retratada na figura de homens idosos, cabelos brancos, traços desgastados pelo tempo.

Penso que não seja difícil supor que, representando a Divindade todas as virtudes que devem ser buscadas pelo ser humano, aqueles artistas, admitiram que a figura de um idoso pudesse ser aceita como uma forma simbólica adequada para superar tamanho desafio.

Muito provavelmente, partiram da suposição de que a vida, como maior das escolas, tende a levar o homem bastante vivido, experiente, a estar mais preparado para externar atributos como sensatez, equilíbrio, tolerância, desambição, compreensão, paciência, juízo de valores desapaixonado, entre tantos outros que se pode imaginar, seriam as qualidades mínimas que se acredita poder representar a Divindade.

Interessante. Sendo teologicamente aceito que “o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus”, aqueles iluminados artistas se viram na circunstância paradoxal de representar Deus a imagem e semelhança do homem.

A força daquelas imagens é tão expressiva que, sem dúvida, quando se busca imaginar como deve ser a Divindade, como se poderia representá-la, uma parcela expressiva dos seres viventes, hoje, é levada a pensar em alguém (um velhinho), lá dos céus, que nos observando, é capaz de atuar na direção de apoiar nossos mais angustiosos desafios.

E essa imagem se reflete no dia-a-dia, na quase totalidade de todos, numa atitude de atenção especial aos idosos. Com os meus setenta e cinco anos, a toda hora, sou brindado com manifestações de consideração, de respeito, de atenção, nos mais diversos lugares, por parte dos mais jovens, seja tentando ceder sua vez na fila da padaria, seja com uma expressão de quase carinho ao cumprimentar com um simples bom dia.

Essa atenção, esse cuidado, se poderia dizer, com os mais velhos, parece se desvanecer quando o idoso se comporta de forma mais agressiva no ambiente em que se encontra.

Ao tentar se valer dessa condição de mais velho, para impor o encaminhamento de solução do que quer que seja, ao se dirigir de forma grosseira, impositiva, exigente de aceitação às suas considerações, parece que aquela visão de carinho dos mais jovens se transforma numa manifestação de insatisfação.

Expressões pejorativas tendem, então a ter lugar, ainda que só em pensamento: Hih! Está gagá! Ou: Velho neurastênico! Ou: Calma vovô!

Agora, quando essas manifestações de agressividade, falta de equilíbrio, de tolerância, de sensatez, isenção no juízo de valores, se origina em autoridades idosas, aí tendem a ser enxergadas como manifestação de autoritarismo, de despreparo e, até, por vezes, de má fé.

Nossos atuais ministros de STF são, quase todos, legalmente idosos (têm mais de 60 anos), o que significa admitir que, a par de aspectos meramente profissionais, deveriam ser vistos como dotados daqueles atributos elencados antes como, previsivelmente, inerentes aos que, calejados pela vida, foram absorvendo tais qualidades.

Particularmente, de cidadãos que puderam experimentar condições especiais de formação acadêmica, pertencimento a extrato social privilegiado, qualidade de vida inquestionavelmente superior aos seus concidadãos, certamente, se espera, terão tido condições bem mais favoráveis para se tornarem melhores cidadãos, melhores seres humanos.

No entanto, decisões mais recentes de seus membros agridem o senso comum, chocam por sugerir parcialidade, falta de equilíbrio, insensatez, descompromisso com os interesses maiores da coletividade, aparentando atendimento a motivações outras que o absoluto respeito ao estatuído na Lei maior do Estado a qual lhes cabe dar estrito cumprimento.

Particularmente, o mais idoso de todos, às vésperas de encerrar suas atividades, exatamente pelo avançar da idade, tem tido comportamento público censurável, ao demonstrar em suas decisões características de emocionalidades próprias de um jovem imaturo e passional que, sendo detentor de poder capaz de interferir na vida de seus concidadãos, o utiliza para espezinhar, tentar humilhar aqueles que enxerga com adversários.

Parece estar querendo deixar público como é poderoso e capaz de obrigar aqueles pelos quais não tem consideração, respeito, a ter que fazer o que ele quer, utilizando ginástica intelectiva e os meandros da lei, para justificar suas decisões, ainda que ao arrepio da coerência com o que ocorreu no passado sob o chapéu da mesma legislação.

Que final melancólico!

Todos passamos. Todos iremos morrer. Os mais velhos, normalmente, mas cedo.

Toda suposta glória que possamos pensar ter alcançado se desvanece no tempo, ficando o registro, apenas do que se possa ter feito de bom ou de mal.

O que a história daquela instituição registrará da passagem desse indivíduo pela casa?

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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