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08 Mai 2005

Se a Terra Fosse Um Útero

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Se a Terra fosse um útero, certamente excretaria os aborteiros porque se dedicam a discriminar quais dentre seus filhos podem nascer. E se a frase doeu, saibam que é dor bem menor do que a sentida pelo feto retirado aos pedaços do ventre materno.

Se a Terra fosse um útero, certamente excretaria os aborteiros porque se dedicam a discriminar quais dentre seus filhos podem nascer. E se a frase doeu, saibam que é dor bem menor do que a sentida pelo feto retirado aos pedaços do ventre materno. Quase toda defesa do aborto nasce num discurso deliberadamente meloso, em cujas camadas de merengue e afeto emerge, qual morango da torta, a figura angelical do bebê saudável e desejado pelos pais. Bercinho pronto, nome escolhido antes mesmo da ansiada concepção, dinheiro na conta bancária para as despesas médicas, chá de fraldas, faceirice dos avós e charutos reservados pelo pai para as cerimônias de celebração de sua viril fertilidade.

Esse é o bebê visto como titular do direito de nascer que se recusa aos frutos da negligência, da imprudência e da imperícia. Os concebidos da aventura, da violência, do acaso, do fracasso da pílula, da pobreza e dos furos na camisinha do destino pertenceriam a uma categoria subumana, quais terneiros de frigorífico, sobre cuja eliminação qualquer um pode decidir.

Estranho humanismo, tão falsamente romântico quanto desumano e irracional! A partir do momento em que o bebê abriu o berreiro na sala de parto, tudo muda. E os mesmos que na véspera pediam sua execução convertem-se em defensores de legítimos e inalienáveis direitos daquele ser perante o Estado e a sociedade. O superior "direito de ser desejado", sobre o qual a natureza não interroga no ato da concepção, mas tido como tão fundamental que podia ser invocado sobre o próprio direito à vida, vai para o lixo da sala de parto junto com as gazes e as luvas ensangüentadas da equipe médica.

Como escreveu em recente artigo um defensor do aborto, pelo qual tenho apreço malgrado nossas profundas divergências nesta e noutras matérias, referindo-se à negativa médica em fazer o aborto na menina de Bagé: "olha que é preciso ter coragem"! Pois olha que é preciso ter coragem para não perceber que os motivos - e não raro os muitos motivos que se podem arrolar para justificar um aborto - são apenas isto: motivos. Mas não são razões da Razão nem do Direito e implicam profundas contradições com ambos.

Quantos filhos não desejados na concepção foram acolhidos com resignação e amados ao longo de suas vidas? Quantos rejeitados antes, durante e depois de nascer convivem conosco no comando de seus destinos e se tornaram eles mesmos pais e mães de outros filhos? Quantos enfermos de tristes síndromes são objeto do carinho dos seus ou dos atendentes das instituições para onde foram levados? E por que não se matam os abandonados de tudo e de todos, entregues à sorte das ruas? Porque a vida não faz essas perguntas melodramáticas. Elas povoam apenas a sensibilidade de intelectuais e magistrados que se erguem à condição de mediadores perante duas coisas que não lhes pertencem: o feto e seu direito de nascer.

O mais curioso de tudo, no edulcorado discurso que fundamenta tal direito apenas ao risonho e franco cenário da família amorosa e bem estruturada, é que os mesmos lábios que o proferem, jamais se abrem para defender a estabilidade da família formada por marido, mulher e filhos. Defendem, isto sim e com igual vigor, a liberalidade sexual, a volatilidade dos laços conjugais e qualquer arranjo de convivência afetiva como se família fosse.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:16
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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