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08 Mai 2005

Verticalmente Prejudicado

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Quando os Estados Unidos lançaram a moda conservadora do “politicamente correto”, há vários anos, ninguém poderia imaginar que aqui em Pindorama alguém fosse suplantar os norte-americanos na matéria. (colaboração de Ariane Holzbach)

Quando os Estados Unidos lançaram a moda conservadora do “politicamente correto”, há vários anos, ninguém poderia imaginar que aqui em Pindorama alguém fosse suplantar os norte-americanos na matéria.

Mas o secretário dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, conseguiu o impossível. Com a tal cartilha “Politicamente Correto & Direitos Humanos” o Brasil está, agora, anos-luz à frente dos EUA. Macunaíma, do alto da sua sapiência extravagante, deve ter resolvido dar uma ajudinha e influenciou o inconsciente coletivo pindoresco. Mário de Andrade deve estar rindo à toa.

Foram listadas 96 palavras e expressões neste manual de esquisitices que já custou R$ 30 mil ao Governo, ou melhor, a mim e a você, contribuintes, apenas com a primeira edição de 5 mil exemplares. Inacreditavelmente, o autor desta obra prima orwelliana é um jornalista, vice-presidente do sindicato da classe.

Segundo as “normas” da cartilha, não mais se poderia chamar um servidor público de “funcionário”, “comunista” virou palavrão, “barbeiro” não poderia mais ser utilizado para alguém se referir a um mau motorista. A “coisa ficou preta” seria racismo e “farinha do mesmo saco” deveria ser evitado (Por quê? Bem, deve ser para aumentar a credibilidade da farinha brasileira...).

Se ainda estivesse vivo, o velho (perdão, idoso) Vinicius de Morais estaria preso por dizer em sua música, Samba da Benção, que era o “branco mais preto do Brasil”. A poesia teria que mudar para algo como “o alvo mais afrodescendente do Brasil. Que beleza! Como Vinícius não pensou nessa rima antes?

Seguindo a lógica da cartilha, como se chamaria a filha de um cantor a quem todos se referem carinhosamente como Preta? E aquele chocolate que chama o diamante de negro? E um dos mais famosos livros de Agatha Christie: “O caso dos dez negrinhos”?

Obrigar que o brasileiro evite expressões há séculos enraizadas na linguagem popular é, além de uma completa falta de nexo, uma forma de censurar o livre direito de expressão. Até parece que os autores de tal medida não conhecem uma figura de linguagem muito comum nos livros de português: a metáfora. Trata-se, temos que explicar, de uma comparação implícita que serve para enfatizar características. Ninguém, hoje em dia, fala em judiação pensando nos seis milhões de judeus mortos durante o nazismo, por exemplo.

Mas, antes que os dicionários brasileiros fossem acusados de serem preconceituosos, Lula teve o bom-senso de suspender a distribuição do infame livreto. E ainda se mostrou injuriado com a má repercussão da sandice, como se o autor da idéia não fizesse parte de sua equipe. Contudo, como o presidente pode mudar de idéia (ele não fez o mesmo com a Lei de Responsabilidade Social, com a importância do FMI e com tantas outras matérias?), convém dar uma mãozinha ao genial jornalista-autor da preciosidade literária complementando sua obra com mais alguns termos politicamente corretos.

Chamar o outro de baixinho não pode, seria ofensivo, o correto seria “verticalmente prejudicado”. Gordo certamente seria um adjetivo ofensivo, adote-se, então, a expressão cinta-larga (com a devida permissão da tribo indígena de mesmo nome). Já que agora é feio dizer “palhaço” (o nome certo deveria ser “profissional do riso”), “portuga” não deverá mais ser utilizado para se referir ao cidadão de nacionalidade portuguesa, deve-se chamá-lo preferencialmente de lusitano.

Indo mais adiante, além de banir expressões de altíssimo teor ofensivo e discriminatório como “cabeça-chata”, “comunista”, xiita etc., vamos pleitear que se faça justiça aos carecas, aos quais cai bem melhor chamar de “pilosamente escassos”. Deixemos para lá as referências chulas como “magrão”, “magricela” e “magrela”, substituindo-as pelo elegante termo “gordurosamente escassos”. Mudaremos o tratamento dado a açougueiros, que podem ser confundidos com assassinos, para “profissionais da carne”, e, importantíssimo, os analfabetos – termo muito pejorativo! – deverão ser chamados de “desletrados”.

Pensando bem, não adianta arranjar substitutos para as expressões que estão querendo assassinar. Afinal, quem garante que os novos termos não serão, no futuro, considerados tão pejorativos quanto os de hoje? Tudo vai depender de quem estiver no poder.

E assim vamos nós, cidadãos submetidos a um governo ideologicamente prejudicado; operacionalmente deficitário.

_________________________________________________________________ Obs: Artigo escrito pelo Prof. Luiz Leitão com a colaboração da jornalista Ariane Holzbach, à quem a Ratio Pro Libertas, de público, oferta seus agradecimentos.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:16
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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