Seg09282020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

01 Set 2020

ALÉM DO OLHAR DO CÁGADO TRANQUILO

Escrito por 

É que o santo em questão, como todos os santos, escrevia com palavras vertidas do âmago da sua alma e com seu coração na mão e isso é algo que essa gente não entende e, é claro, não perdoa.

 

Há uma historieta sobre São Cura D’Ars que, bem provavelmente, o amigo leitor deve conhecer. São João Maria Vianney estava rumando para Ars, no interior da França, para assumir a sua paróquia. Caminhando pela estrada ele vê ao longe um garotinho pastoreando ovelhas. Ele o chama e pergunta: “menino, como faço para chegar a Ars”? “É por ali padre. É por ali”. O vigário agradeceu, sorriu e, apontando o dedo para o alto, disse ao garotinho: “você me mostrou o caminho para Ars, agora eu vou te mostrar o caminho para o céu”.

Tão belo quanto esse acontecimento na vida do Cura D’Ars são os seus escritos. Todos eles sapientes e profundos em cada uma das suas linhas. Porém, esse homem sábio era visto, pelos diplomados de voz empolada da época, como sendo um sujeito dotado de poucas luzes e de limitado entendimento.

É que o santo em questão, como todos os santos, escrevia com palavras vertidas do âmago da sua alma e com seu coração na mão e isso é algo que essa gente não entende e, é claro, não perdoa.

Além disso, o Cura D'Ars era um grande confessor, um diretor espiritual singular. Ele não apenas converteu toda a população de Ars. Não. Milhares de pessoas de todos os cantos iam pra lá para se confessar com ele. E o que era mais assombroso era que o bom padre, inspirado pelo Espírito Santo, quando via que um indivíduo estava relutante no confessionário para confessar os seu pecados, ele, do seu jeitão, dizia algo mais ou menos assim: os seus pecados, meu filho, são esse, este e aquele outro que você fez assim e assado. Se você quiser ser perdoado, e não ser condenado à danação eterna, confesse-os ou vaze daqui.

Não é por acaso que acorriam para Ars aproximadamente cem mil pessoas por ano para se confessar com esse homem franzino. É mole ou quer mais?

Quer mais? Tudo bem. O papa São João XXIII, em 01 de agosto de 1959, publicou a Carta Encíclica SACERDOTII NOSTRI PRIMORDIA, sobre o centenário da morte de São João Maria Vianney. A segunda do seu pontificado. Quer dizer, praticamente publicada junto com a primeira, que dada de 29 de julho de 1959.

Detalhe: isso não é uma curiosidade vã. De jeito maneira. Nessa encíclica São João XXIII expressa o que seria uma vida sacerdotal ideal para servir de inspiração para todos os padres. E tem outra: sendo essa uma das primeiras encíclicas do seu pontificado, podemos dizer que seriam frutos com essa feição que Sua Santidade esperava colher após o término dos trabalhos do Concílio Vaticano II. Pois é. Infelizmente, como todos nós muito bem sabemos, não foi isso o que aconteceu.

Bem, tanto São Cura D’Ars como São João XXIII são santos de corpos incorruptos. É. Isso mesmo. Morreram, faz muito, e quando foram exumar seus cadáveres lá estavam eles, intactos, como se tivessem batido com as doze na véspera. Resumindo: um milagre. Outro milagre entre inúmeros outros.

Casos como esse existem aos borbotões na história da Igreja e, muitíssimos deles, analisados por cientistas que, por sua deixa, não conseguiram apresentar uma explicação razoável para esse fenômeno que ocorre com os corpos de pessoas que, em vida, procuraram viver de acordo com o Santo Evangelho, da mesma forma que não conseguem explicar qualquer outro milagre.

Sim, podemos dizer para nós mesmos que tudo isso é pura coincidência e, discretamente, varrer sua existência para debaixo do tapete da história, juntamente com um montão de outras coisinhas que nós não conseguimos explicar, para seguirmos nossa vida com uma consciência tranquila, feito um cágado desavisado. Sim, nada nos impede de fazer isso. Nada.

Porém, podemos adotar outra postura se assim desejarmos. Ao invés ignorarmos a presença dos corpos incorruptos de inúmeros santos, e de fazer pouco caso frente a infinidade de milagres que ocorreram e ocorrem, e que são testemunhados por milhões de pessoas, nós podemos humildemente colocá-los em seu devido lugar, como parte integrante da realidade e que, por essa razão, merecem toda a nossa atenção.

Provavelmente não conseguiremos encontrar uma explicação laboratorial para esses fenômenos e, mesmo que encontrássemos, não conseguiríamos estabelecer um nexo causal entre o fenômeno miraculoso ocorrido e a prece feita pela pessoa que o pediu. Ou seja: uma aura de mistério necessariamente permanecerá. Não dum mistério de sombras, mas sim, um mistério que pode alumiar nossa vida.

Um bom exemplo disso, a meu ver, é a vida e o trabalho do doutor Ricardo Castañón. No princípio era um cientista ateu que procurou, com honestidade intelectual, investigar inúmeros fenômenos miraculosos e, fazendo isso, não precisaria nem dizer, mas o farei: ele se converteu. A realidade dos fatos falou mais alto nos átrios do seu coração.

Um dos casos estudados por ele foi esse: numa paróquia da Bolívia houve um milagre eucarístico. O Santíssimo Sacramento transformou-se em carne (isso ocorreu e ocorre em vários cantos do mundo).

O padre colocou a eucaristia transubstanciada em carne num copo d’água.

Ricardo Castañón, ao saber do ocorrido, foi ao local, conversou com o padre, explicou o seu trabalho e encaminhou uma amostra para ser analisada num laboratório sem dizer o que era.

Pouco tempo depois o responsável pelo laboratório entrou em contato com o doutor Castañón para saber de onde ele tinha obtido aquela amostra de tecido muscular. O homem estava muito nervoso e, por isso, o bom doutor perguntou o porquê de sua aflição e, este disse-lhe que aquela amostra de tecido era de um coração humano e, pelo estado em que se encontrava, era de uma pessoa que sofreu muito antes de espiar. Provavelmente duma pessoa que teria sido torturada antes de morrer.

Ao ouvir isso, ele mostrou a procedência da amostragem.

Caramba! Sem mais delongas e, como havíamos dito anteriormente, não temos como explicar um milagre da mesma forma que explicamos a reprodução de bactérias, porém, penso que seja difícil de entender o sentido da vida se virarmos nossas costas para a presença dos fenômenos miraculosos na tessitura da realidade porque, admitamos ou não, há muito, muito mais coisas entre o céu e a terra do que presume a vã galerinha diplomada.
 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.