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29 Ago 2020

POR QUE É BOM QUE EXISTAM CADA VEZ MAIS BILIONÁRIOS

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Quem não sabe como a economia real funciona, pode facilmente ser levado a invejar os bem-sucedidos

 

Ele tem 49 anos, nasceu em Pretória, tem tripla nacionalidade (sul-africana, canadense e norte-americana) e, desde 17 de agosto, é a quarta pessoa mais rica do mundo, com patrimônio estimado, de acordo com a Bloomberg, em US$ 95,2 bilhões. É Elon Musk, fundador, CEO e CTO da SpaceX, CEO da Tesla Motors, vice-presidente da OpenAI, fundador e CEO da Neuralink e cofundador e presidente da SolarCity, e sua fortuna agora só é inferior às de Jeff Bezos, da Amazon (US$ 194 bi), Bill Gates, da Microsoft (US$ 122 bi), e Mark Zuckerberg, do Facebook (US$ 102 bi).

Notícias assim costumam provocar coices, como o desferido em janeiro deste ano pelos “progressistas” da Oxfam, antes da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos: “O 1% mais rico do mundo tem mais do que o dobro da riqueza do resto da humanidade combinada”. Daí segue-se o conhecido clamor para que os governos adotem políticas contra as “desigualdades”.

O relatório da Oxfam decreta ainda — monocraticamente, para seguir uma expressão em moda — que os impostos cobrados de pessoas ricas e empresas com altos lucros estão muito abaixo do desejável. E prossegue seu esperneio enchendo o peito e buscando socorro na velhíssima recorrência de que ínfimos 2.153 bilionários possuíam, em 2019, patrimônio maior do que a soma das riquezas de 4,6 bilhões de pessoas. Para arrematar, Amitabh Behar, presidente da Oxfam indiana, produziu esta pérola, extraída da profundidade das águas turvas que banham o litoral progressista: “Nossas economias estão enchendo os bolsos de bilionários e grandes empresas à custa de homens e mulheres comuns. Não é de admirar que as pessoas comecem a questionar se os bilionários deveriam existir”.

Quem não sabe como a economia real funciona

pode facilmente ser levado a invejar os bem-sucedidos

É curioso que instituições e pessoas com ideias desse tipo se digam “caridosas”, porque a caridade, quando deixa de ser espontânea para ser compulsória, já não é mais caridade, é extorsão. Acontece que a esquerda sabe muito bem que precisa atacar sem cessar os ricos. Assim, sobrevive e continua a explorar os pobres. Por isso seus pregadores enfiam na cabeça de pessoas pouco afeitas a pensar que a existência de bilionários é ruim e que o mundo precisa, preventivamente, livrar-se deles. São comuns afirmativas como a de que US$ 1 bilhão (ou algum outro montante tirado de um lápis sacado da orelha) é muito mais do que alguém necessita, mesmo que pratique os maiores excessos na vida, e, portanto, ninguém deve ter “direito” a tanto, não importa quanto tenha se esforçado ou contribuído para a sociedade.

Tal postura é pretensiosa e potencialmente tirânica e resulta da combinação nefanda entre a ausência de conhecimentos econômicos e a inveja. Quem não sabe como a economia real funciona pode facilmente ser levado a invejar os bem-sucedidos e quem é malsucedido costuma ser tentado a atribuir as causas de seu fracasso à “injustiça social” e às “desigualdades econômicas” e, portanto, mergulhar de cabeça na inveja. É um bate e volta, em que a sede aumenta a vontade de beber e a vontade de beber alimenta a sede.

É alarmante que membros dessa e de outras organizações que, em nome de uma pretensa caridade, incentivam o “olho grande” não levem em conta que a inveja, por definição, é um pecado contra a própria caridade, um ressentimento contra a boa sorte do próximo, uma ilusão tosca de que outros só têm êxito porque nos roubam e um vício que não se resume a desejar o que os outros têm — algo até tolerável, desde que não deságue em cobiça —, mas a sentir tristeza ou revolta pelo fato de outros estarem em situação melhor e até mesmo ao extremo de sofrer com o sucesso dos outros. O “invejoso de raiz” não se satisfaz apenas em desejar o que os outros têm, ele quer mais, ele aspira a que os outros não tenham.

A ignorância econômica começa pelo

Teorema Fundamental do Subdesenvolvimento

Essa engrenagem mental progressista — a do já que eu não tenho e não posso ter, pelo menos que os outros também passem pelo mesmo —  leva tais pessoas a não fazer nem deixar os outros fazerem, atitude que enfeixa um coquetel de ódio, calúnia, difamação, ressentimento e outros vícios. Não à toa, o economista Ludwig von Mises (1881-1973) escreveu que o homem-massa não gosta de quem o supera e nutre inveja e ódio pelos diferentes. Para Mises, o que empurra esse homem-massa para o campo progressista, mais do que a ilusão de que o socialismo o abençoará com a riqueza, é a expectativa de que vai infernizar a vida dos melhores do que ele.

Quanto à ignorância econômica, começa pelo que costumo chamar de Teorema Fundamental do Subdesenvolvimento, segundo o qual a única explicação para a pobreza de multidões de indivíduos é a riqueza de meia dúzia de gatos-pingados exploradores. Eis uma falácia gigantesca e fatal que converte incontáveis ignorantes e ingênuos em marionetes de exploradores espertos, sempre à cata de votos.

Argumentos não faltam para explicar por que é bom que existam cada vez mais bilionários. O primeiro — óbvio desde o período rococó de Adam Smith — é que a interação dos mais talentosos, capazes, diligentes, sortudos ou que puderam estudar com os sem talento, incapazes, preguiçosos, azarados ou que não tiveram acesso ao ensino resulta em benefício para todos. Os ganhos da divisão de trabalho, sempre e em qualquer lugar, são indiscutivelmente mútuos.

Lucros (e perdas) não têm nada a ver

com explorar (ou ser explorado)

Em segundo lugar, quem garante que os empreendedores, ao conseguir sucesso, causam pobreza para os outros? Ora bolas, é o contrário! Seu êxito é precisamente consequência do fato de que conseguem fazer com que os consumidores de seus produtos estejam mais bem abastecidos e atendidos do que estariam na ausência de seu esforço e dos riscos incorridos!

Terceiro, a quantidade de empregos diretos e indiretos gerados por esses “ricaços” é diretamente proporcional ao seu êxito nos negócios — justamente o que lhes possibilita acumular seus bilhões. Por exemplo, no quarto trimestre de 2019, antes dos estragos da pandemia, a Tesla apresentou lucro líquido de US$ 105 milhões e empregava 48.016 funcionários, o que significa, admitindo média familiar de quatro membros, que 192.064 pessoas eram beneficiadas diretamente pelo sucesso de Musk, sem contar fornecedores e milhões de consumidores.

Adicionalmente, é bom lembrar que a única maneira que empreendedores têm de garantir lucros em uma economia de mercado é esforçar-se continuamente para servir aos consumidores de modo mais eficiente do que seus competidores, caso contrário os infalíveis procedimentos de descoberta que caracterizam os processos de mercado os condenam ao fracasso. Lucros (e perdas) não têm nada a ver com explorar (ou ser explorado), pois são inteiramente determinados pelo sucesso (ou falha) do empresário em ajustar a produção à demanda dos consumidores.

Os empregos de hoje dependem dos investimentos de ontem, ao decorrerem necessariamente de ações passadas de empreendedores que, antevendo oportunidades de lucro em dado mercado e utilizando capital próprio ou tomando empréstimos de terceiros, direcionaram recursos para lá. O que atrai investimentos, acima de tudo, é a perspectiva de lucro. É fácil “desenhar” a conclusão: o que seria, por exemplo, dos empregos de porteiros, pilotos de aviões, pianistas, escritores e balconistas, se algumas pessoas “ricas” não tivessem transformado em realidade seus projetos de edifícios, fábricas de aeronaves e companhias aéreas, produção de pianos, editoras e lojas?

Para combater a pobreza, não é necessário brigar com a riqueza. Proibir qualquer indivíduo de acumular patrimônio maior do que x ou de ganhar mais do que y por mês desestimula, precisamente, as atividades dos que atendem melhor aos desejos dos consumidores. O soberano não é o Estado, é o consumidor. E o que merece preocupação não é o fato de existirem, segundo o levantamento deste ano da Forbes, quase 3.000 bilionários no mundo, ou que tenha crescido o número de ricos. O que sempre é uma péssima notícia é quando aumenta o número de pobres.

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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