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27 Ago 2020

ALÉM DAS CERCANIAS UMBILICAIS

Escrito por 

Não são poucas as figuras que acreditam, sinceramente, que o mundo tem uma dívida para com elas.

 

Certa feita, Rubem Braga, em uma de suas crônicas, nos contou que ele estava em seu canto e, lá pelas tantas, alguém bateu em sua porta. Ele foi até a entrada de sua casa e, antes de abrir, como de costume, disse em alto e bom som: “quem é”? E, do outro lado, veio a resposta: “não é ninguém não. É só o padeiro”.

Ele abriu a porta, pegou as encomendas feitas por sua esposa, pagou o rapaz e lhe perguntou: “como assim, ninguém?” E o rapaz, de olhos miúdos e com um largo sorriso no rosto, lhe disse que numa determinada ocasião ele foi levar uma encomenda numa casa. Nessa, uma bela moça atendeu a porta e, lá de dentro, ouviu uma outra voz feminina – provavelmente a mãe da senhorita – perguntando quem era, e aí da moça disse, bem alto: “não é ninguém não. É só o padeiro”.

Rubem Braga ficou congelado após o fim do causo, sem saber o que dizer. Quanto ao rapaz, esse estampou em sua face um aristocrático sorriso, despediu-se e seguiu seu caminho com a alegria típica daqueles que estão cientes de que realizaram com maestria o seu dever, pouco importando se a pessoa que recebeu os seus préstimos sabe ou não quem ele é.

E o rapaz se empirulitou pela rua sem que ele tivesse tempo de perguntar o seu nome.

E o que impressiona na figura desse indivíduo sem nome é que ele não se incomodava nem um pouco com isso. Nem um pouco. Bem diferente de nós, diga-se de passagem. Nos dias atuais, Deus nos livre e guarde de sermos tratados como um ninguém. Que São Jorge nos defenda disso.

Pois é. Frente a um causo como esse nos damos conta do quão frágeis nos tornamos e acredito que uma grande fonte dessa nossa fragilidade diante da vida esteja no excessivo amor próprio que cultivamos em nosso coração. Amor próprio que é muitíssimo estimulado por esse subproduto do marxismo, que é politicamente correto, que anda de mãos dadas com o consumismo bocó que faz muitíssimos olhinhos brilhar só de pensar numa vitrine.

Se havia uma coisa com que o nosso amigo padeiro, de nome desconhecido, não se preocupava era com ele mesmo. Nada disso. Estava interessado no bem do outro. Preocupação que ele expressava não por meio de palavras, mas sim, através da realização de atos. No caso, a entrega dos pães e demais quitutes que eram solicitados. Um pequeno gesto que revelava a sua grandeza; que era feito com tanta bondade que marcou o coração do grande mestre dos cronistas brasileiros.

Noutra ocasião, e a partir doutra pena e tinteiro, fora dito algo similar. Foi mais ou menos na mesma época, a partir da escrivaninha de Gustavo Corção que, por sua deixa, dizia que enquanto escrevia ele observava atentamente as estantes onde estavam seus livros e pensava no carpinteiro que as fez, no seu trabalho; acariciava a escrivaninha e pensava nos operários que a confeccionaram, mirava cada objeto de sua morada, que trazia algum conforto para sua vida, e matutava nas inúmeras pessoas - cujos nomes ele não sabia, cuja feição ele desconhecia - que contribuíram para que ele pudesse estar ali vivendo a sua vida.

Tanto o Braga quanto o Corção nos lembram, cada qual do seu jeitão, que somos muito mais devedores do que somos capazes de admitir. De certa forma, ambos concordam com Leo Bloy que dizia que, no fundo, não passamos de um bando de indigentes ingratos.

É. Se formos sinceros conosco mesmo iremos reconhecer, envergonhados, que recebemos muito mais dessa vastidão de almas, que chamamos de sociedade, do que oferecemos uns aos outros. Não apenas isso. Se nos tornássemos cônscios dessa realidade, francamente, creio que teríamos nossa alma tomada por uma beleza sem par, por um profundo sentimento de gratidão e por um desejo abnegado de servir.

Porém, atualmente, não é bem assim que a banda toca. Não são poucas as figuras que acreditam, sinceramente, que o mundo tem uma dívida para com elas. Muitas das vezes somos essa figura que, ao sentir-se tolhida em algo, acredita que o perrengue sofrido seria um drama cósmico central na história da galáxia, tamanha é nossa fraqueza moral, tão grande é nosso amor próprio, que nos leva a enxergar e reconhecer apenas como real aquilo que está dentro dos limites das cercanias de nosso rancho umbilical.

Enfim, é possível que um e outro leitor, amigo ou não, esteja fevoso da vida, dizendo para si mesmo: quem esse caipora pesteado pensa que é pra dizer um troço desse. Bem, se for o seu caso, caríssimo leitor, lhe digo, na lata e sem pestanejar: apenas mais um ninguém entre tantos outros.

 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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