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06 Mai 2005

A Boçalidade Nossa de Cada Dia

Escrito por 

Ora, errar é humano e opinar de maneira errônea é demasiado humano. Esse ponto de vista é partilhado por uma pessoa que procura de maneira sincera compreender o mundo a sua volta, desvelar dia após dia as suas nuanças maquinais.


Mais algumas valas comuns foram encontradas no Iraque. Para ser mais preciso, foram encontradas dezoito valas comuns e estima-se que existam lá mais de 1500 ossadas de pessoas que foram fuziladas com tiros de fuzis AK 47. Ossadas essas, em sua maioria, de mulheres, crianças e adolescentes. Esses cadáveres seriam de curdos mortos durante o regime de Sadam Hussein, no correr do ano de 1988.

Segundo o ministro de Direitos Humanos iraquiano, Bakhtiar Amin, “Compaixão não é suficiente. Algo mais tangível precisa ser feito pelas vítimas do regime de Saddam”. Visto que, além desses cadáveres encontrados, fruto de fuzilamentos sumários ao estilo que houve na Alemanha Nacional-socialista, na extinta URSS, na China e tutti quanti, muitas vidas de curdos foram ceifadas com o uso de armas químicas no final da década de 80 e início da década de 90 do século passado.

Tais fatos deveriam chocar muitos dos pseudopacifistas, não é mesmo? Mas, provavelmente não. É bem possível que se procure encontrar uma boa desculpa para se dissimularem diante dessas notícias, justificando suas opiniões das maneiras mais estapafúrdias imagináveis. Inclusive e, porque não, afirmando que tais ossadas teriam sido lá plantadas pelos soldados estadunidenses para assim acobertar os seus crimes de guerra.

Mas o por que de tal postura? Por que tanta esquiva em reconhecer um erro frente a uma interpretação da realidade? Ora, errar é humano e opinar de maneira errônea é demasiado humano. Esse ponto de vista é partilhado por uma pessoa que procura de maneira sincera compreender o mundo a sua volta, desvelar dia após dia as suas nuanças maquinais. Para indivíduos assim, tal gesto não é difícil, pois esse sabe que a existência humana em sociedade é complexa e em hipótese alguma pode-se querer resumir as relações de poder que a compõe fazendo uso de chavões simplistas do tipo imperialismo X terceiro-mundo.

Porém, para nosso pseudopacifista anti-americanos fica um pouco complicado rever os seus conceitos sobre o “monstro” pelo simples fato de que esse indivíduo procura nortear o seu tatear cognitivo pelo mundo mais por uma ânsia de velo transformado, de transmuta-lo aos moldes de sua parva utopia do que conhecer a sociedade como ela é em sua teia de relações.

Esse tipo humano não consegue realizar uma reflexão tão só a partir de sua consciência moral, visto que essa só age quando em sintonia com um grupo social, com uma “consciência coletiva” imbecilizada. Não importa que a sua tribo tenha uma visão distorcida e simplista da vida. Que se dane a vida e os fatos da vida. O importante é que o indivíduo não se sinta só em sua “compreensão” do mundo, se não ele é capaz de sentir-se perecendo, em um processo de desintegração, como bem nos aponta Eric Fromm em sua obra O medo à Liberdade.

Segundo Fromm (p. 173), muitos indivíduos acabam somando um montante de frustração social e convertendo-o em um importante fator para aderir a uma ideologia totalitária e assim sentir-se integrado no “mundo real”. Esses elementos consideram a sua sorte (ou má sorte) como sendo a mesma de um grande grupo social como uma nação, uma classe social, um grupo de nações, etc. Ao mesmo tempo, tal percepção da realidade tem que ter em vistas determinados símbolos que sinalizem a realidade desse fato como sendo uma frustração real.

No contexto que estávamos volvendo nossos olhares, o símbolo que canalizaria toda a frustração social é claro: o Imperialismo Ianque. E mesmo que o mundo aponte que nem tudo é culpa deles e que haveria mais coisas entre o seu e a terra que sua vã boçalidade, o indivíduo se nega a renunciar aos seus oculares destorcidos, pois, fazendo isso, estaria negando a realidade de seu grupo e assim, a sua própria.

Você, por um acaso, não é um desses? Bem, se for, a essa altura já deve estar com sua alma em fúria e me jogando para os cachorros. Mas não adianta de nada babar de raiva, o fato de você continuar a olhar o mundo através do fantástico mundo da imaginação não vai fazer com que eu deixe de existir e, muito menos o mundo que você se recusa a enxergar e que, por ironia, tanto quer transformar.
Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:16
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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