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09 Mai 2004

De Novo Sem Lua

Escrito por 

A estória e os ensinamentos de Steinbeck tem me assaltado ultimamente, com grande insistência, a cada oportunidade em que tomo conhecimento do que vem ocorrendo no Iraque.

Em plena segunda grande guerra, 1942, John Steinbeck, que vinte anos depois viria a receber o Prêmio Nobel de Literatura, lançou um dos seus mais de trinta livros publicados. Chamava-se Uma Longa Noite Sem Lua (The Moon is Down, no original em inglês).
Tive acesso a essa obra há bem uns quinze anos e me lembro o quanto me sensibilizei pela competência do autor em nos transmitir, em toda plenitude, os sentimentos que impregnavam seus diversos personagens.

A estória se passa numa cidadezinha do interior de um país em guerra e em vias de ser tomada pelo exército invasor. Rica em carvão, a cidade se apresentava como alvo estratégico para o adversário e suas forças marchavam celeremente para conquistá-la. Diria aos que ainda não tiveram a oportunidade de ler esse livro que tenho em mente que se poderia dividir a estória em duas partes bem claramente distintas.

No seu início, Steinbeck nos diz dos sentimentos que perpassavam os moradores daquela cidade, diante da perspectiva de virem a ser subjugados pelo invasor. Suas forças eram precedidas de boatos que davam conta das maldades, dos desmandos, das atrocidades mesmo a que as populações de outros vilarejos já ocupados teriam experimentado.

Assim, nessa primeira parte da estória somos convidados a compartilhar toda a ansiedade, angústia, temor, desespero, daquela gente que se via diante da inevitável circunstância de, em breve, se ver submetida àquela realidade. Pais de moças casadoiras, lindas, na flor da idade, apavorados ante a expectativa de que viessem a ser desrespeitadas, violadas, violentadas. Seus pretendentes, jovens apaixonados, futuro promissor, cheios de sonhos, antecipadamente indignados com a possibilidade de verem desmoronar suas aspirações.
Cidadãos de respeito da comunidade, detentores de posses razoáveis, fruto do trabalho, do esforço, da dedicação, de várias de suas gerações predecessoras, injuriados em face de possibilidade de verem seus bens ocupados, mobilizados, roubados, pelos invasores.

Imóveis teriam seus ocupantes desalojados, para darem lugar a postos de comando, obras de arte seriam surrupiadas, sob pretextos os mais descabidos. A vida daquela gente, até então, pacata, ordeira, feliz, se transformaria num inferno.
Os invasores chegam, os temores se confirmam, as atrocidades são cometidas, os crimes são perpetrados e tudo se dá em medida inimaginada. A população é levada a experimentar humilhações, descalabros indescritíveis, insuportáveis.
Nesse ponto, se chega ao que identificaria como a segunda fase da estória, na qual o autor nos propõe o grande ensinamento.
Humilhados, explorados, espezinhados, roubados, desrespeitados em tudo a que emprestavam significado, violados, violentados, expulsos de suas propriedades, expropriados de seus bens, tendo visto seus sonhos, suas esperanças, expectativas, esfumaçarem-se, tendo seus entes queridos, em grande número assassinados, aquela pobre gente descobre que o único bem que lhes resta é a vida, uma vida sem perspectivas, uma vida que talvez não valha a pena viver, da qual estão dispostos a abrir mão, se isso, de alguma forma, puder se transformar em arma contra aqueles que, sem pedir licença, lhes tiraram tudo, até a dignidade.

Do outro lado, os invasores, de repente, se dão conta de que, não lhes tendo restado mais nada a expropriar, a partir daquele momento, passam a só poder perder. Steinbeck, então, nos revela toda a sua genialidade, nos convidando, com maestria a compartilhar o desespero daqueles que, até pouco tempo se regozijavam da sua força, do seu poder, da sua capacidade de fazer valer sua vontade, seus interesses e que agora se viam diante da certeza de que, de alguma forma, em algum instante, estariam vivenciando uma derrota, uma perda. Emboscadas, ações escamoteadas dos habitantes (terrorismo?), agora impregnados da coragem, do destemor, próprios dos que atingiram os estágios mais baixos da vida humana, revertem o quadro da relação de forças.

Os antigos moradores assumem a condição de caçadores. Os invasores se transformam em caça.

A estória e os ensinamentos de Steinbeck tem me assaltado ultimamente, com grande insistência, a cada oportunidade em que tomo conhecimento do que vem ocorrendo no Iraque.
Apoiados em justificativas torpes, elencadas em absoluto desrespeito à nossa inteligência, à revelia da orientação da ONU, em clara manifestação de que a opinião pública mundial não possui qualquer peso específico, para a definição dos atos e decisões que irão assegurar a satisfação das necessidades e a conquista dos objetivos e interesses do governo americano (faço questão de não me referir ao povo americano e sim ao governo americano) e ao arrepio da legislação que rege as relações internacionais, assentada em valores como autodeterminação dos povos, não intervenção e coisas que tais, forças norte-americanas, apoiadas por aliados servis, invadiram o território de outra nação e se arvoraram no direito de lhes definir novas regras de convivência.

Mataram, se apropriaram, humilharam, torturaram (agora se sabe), levaram aquela gente a conviver com o caos. Agora, são pais sem filhos, filhos sem pais, esposas sem marido, todo um povo sem vislumbre de futuro. Foram levados pelos conterrâneos de Steinbeck (que ironia) às profundezas da indignidade. E ao que assistimos agora?

Tal qual nos conta o laureado autor de Uma Longa Noite Sem Lua, tendo-se vivido mais uma página escura da vida da humanidade, na qual a intolerância, a covardia, a insensatez, a ganância, obscureceu a racionalidade, chegou-se ao ponto em que os nativos, nada mais tendo a perder, passam a infringir sucessivas e constrangedoras derrotas aos invasores. Quando me refiro a derrotas, não me cinjo àquelas militares, que nos mostram que as forças americanas, de forma alguma, podem se dizer com o controle do território iraquiano. Tão pouco me limito às que se materializam nas centenas de mortes de soldados americanos (é bom que se tenha em mente que não são os militares que decidem pelas guerras, são os políticos que o fazem – os militares morrem nelas), na realidade, cidadãos que, convocados a dar a mais inquestionável demonstração de dedicação à coletividade a que pertencem, acreditam estar cumprindo seu dever.

Quando falo de derrota, estendo sua abrangência, particularmente à exposição pública, internacional, do despudor, da pobreza de caráter, da amoralidade, que matiza as decisões daqueles que, hoje, são responsáveis pelos destinos da nação americana, e, lamentavelmente, em razão da unipolaridade que caracteriza o mundo atual, potencialmente capazes de interferir na vida da humanidade.

Essa corja está, agora, na defensiva, se vendo na contingência de vir a público se justificar, pedir desculpas aos que pensavam ter derrotado, na esperança de contar com a compreensão, a tolerância, a complacência daqueles (toda a humanidade) aos quais, até aqui, devotaram desrespeito e intolerância.
Resta-nos, se não a convicção, ao menos a esperança de que a mais essa longa noite sem lua, sem luz, na triste história do homem, seguir-se-ão dias claros, de luz intensa.

Essa esperança se estriba na visão de essa gente desprezível se comporta, no contexto da história da humanidade como germes, vírus, bactérias causadoras das moléstias sociais e, por isso mesmo, acabam por deflagrar, no tecido social, o processo (que se inicia com a indignação) gerador de anticorpos capazes de imunizar esse tecido, processo que finda por erradicá-los, extirpá-los. Que assim seja!

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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