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21 Ago 2020

MUITO PELO CONTRÁRIO

Escrito por 

Bem, poderíamos dar inúmeros nomes para isso, porém, a meu ver, o nome mais apropriado que se pode dar para esse trem é manipulação.

 

Nos momentos em que a sociedade se encontra imersa em uma grande confusão de sentimentos, penso que seja interessante refletirmos sobre a forma como reagimos frente às imagens e notícias que nos são atiradas nas ventas pela grande mídia e através das redes sociais.

Levanto essa questão não para apontarmos nosso dedinho condenador. Nada disso. O que proponho por meio dessas minguadas linhas é uma reflexão, um exame de consciência, se possível for, sobre a forma como reagimos diante de algumas informações que, de um jeito ou de outro, são apresentadas para nós.

Para evitar as fogueiras do momento, que ainda estão com suas chamas ardendo noite e dia no pátio das vaidades, vamos recorrer a dois acontecimentos que ganharam significativa repercussão noutro período da história recente do nosso triste país.

Dito isso, vamos lá. Lembremos do caso do trans que foi abraçado pelo médico Dráuzio Varella numa reportagem que foi exibida em rede nacional, trans esse que havia sido condenado por ter violentado, assassinado, ocultado o cadáver e despejado o corpo do garoto, depois de algum tempo, num lote baldio próximo à casa da família do menino. Lembram-se disso? Então, na ocasião muitas pessoas criticaram o gesto do senhor Dráuzio, de ter abraçado o autor do crime que não mais recebia abraços de ninguém, ao mesmo tempo que outros louvaram o gesto.

Aqueles que desaprovaram, de um modo geral, o fizeram tendo em vista que a pessoa apresentada como uma pobre vítima do sistema carcerário era, na verdade, um pedófilo e assassino cruel. Informação essa que não apareceu na reportagem. Veio a público algum tempo depois através das redes sociais.

Doutra parte, houveram aqueles que disseram que isso não seria o ponto mais importante, mas sim, que o que importava realmente era gesto feito pelo referido senhor ao trans que a muito não recebia nenhuma visita, que havia sido esquecido na prisão.

Segundo caso: o da ministra Damares Alves. No começo do governo Bolsonaro circulou pelas redes sociais e em alguns veículos de impressa uma fala da referida ministra onde a mesma havia dito que teria visto Jesus numa goiabeira num dado momento da sua infância. Lembram-se disso? Bem. Muitos foram os gracejos sobre o caso. Muitos. Porém, passado um breve momento, veio a público que o momento da sua infância em que, numa goiabeira, ela havia visto o Cristo, era um momento em que ela pretendia pôr um fim na sua vida. Damares, em sua infância, foi vítima de violência sexual.

Após essa informação ter vindo à tona, na época muitas pessoas se compadeceram com a ministra, tendo em vista o pouco caso que estava sendo feito com o sofrimento vivido por ela. Alguns se envergonharam por terem achado graça, tendo em vista que conheciam apenas um cadinho da história. No caso, só a parte da aparição de Cristo na goiabeira. E haviam aqueles que, mesmo depois de terem ficado sabendo do contexto vivido pela menina Damares, não manifestaram nenhum arrependimento pelos gracejos, nem procuraram externar compaixão para com a senhora Damares Alves.

Reavivada essas imagens em nossa memória, podemos perguntar a nós mesmos como reagimos frente a esses fatos na época em que eles eram o centro da atenção midiática. Como, no calor das emoções, midiaticamente fomentadas, nós reagimos? Não apenas isso. Como nós vemos hoje a nossa reação, naquela época, frente aos referidos fatos?

Pergunto isso por uma razão muito simples: os meios de comunicação de massa têm a capacidade de amplificar emoções pré-fabricadas a partir da distorção de fatos reais mal contados que, por sua deixa, nos são entregues a toque de caixa por ela própria. Ou, trocando em miúdos: muitas vezes algo é noticiado não pensando na verdade dos fatos, mas calculando-se a reação que pode ser fomentada frente a forma que isso ou aquilo é comunicado.

Nos dois casos citados, tínhamos um recorte prévio, com uma ordenação formatada para que tivéssemos uma determinada reação em cada um deles para que tivéssemos uma determinada primeira impressão. Entretanto, nos dois casos, informações faltantes chegaram até nós através de canais alternativos, quebrando com a narrativa original e aí, uns sentiram-se indignados e, ao mesmo tempo, envergonhados; e isso, penso eu, é bom, porque quando percebemos as contradições que estão presentes em algo, em nós, e na forma como reagimos, é sinal de que nossa consciência moral está nos aporrinhando, trabalhando para abrir os nossos olhos. É sinal de que ela não congelou diante do escândalo.

Noutros casos, a reação foi diversa. Após receber as informações faltantes, ao invés de escandalizar-se com a forma como a emoção pré-fabricada foi-lhe entregue, e como reagiu a ela, algumas pessoas acabaram preferindo assumir para si essas emoções como se elas fossem genuinamente suas e isso, penso eu, não é nada bom. Não é porque seria um sinal de que nossa consciência moral está amortecida, levando-nos a preferir a unicidade de uma emoção pré-fabricada do que a verdade com suas contradições que nos foi revelada.

Essas pessoas congelaram frente ao escândalo e, por isso, precisavam de algo que lhes desse segurança. No caso, a primeira impressão midiaticamente calculada será esse elemento de estabilidade interna provisória.

Bem, poderíamos dar inúmeros nomes para isso, porém, a meu ver, o nome mais apropriado que se pode dar para esse trem é manipulação.

E reparem como, em nossa sociedade, muitas vezes, um ato de manipulação é chamado de “conscientização”, ou de “tomada de consciência”.

Bah! Quantas e quantas vezes nos sentimos envergonhados frente a situações similares a essas, em que nos vemos condicionados a emitir opiniões superficiais, carregadas de emoções pré-formatadas, sobre acontecimentos recortados cinicamente para gerar determinadas reações condicionantes. Não são poucas, infelizmente.

Quantas e quantas vezes sentimos que estamos sendo feitos de bobo. Pior. Como é difícil admitirmos que podemos estar sendo manipulados. Como é difícil. Mas não reconhecermos essa possibilidade não nos torna imunes às inúmeras artimanhas globalistas que são maquinadas diariamente contra nós e contra todos. Muito pelo contrário.

Enfim, seja como for, cada um sabe o que faz. Quer dizer, ao menos imaginamos saber.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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