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05 Mai 2005

Notas Sobre Jean-Paul Sartre

Escrito por 

É incrível como a obra, digo, a imagem da obra de Jean-Paul Sartre ainda hoje seduz jovens de almas desarmadas. Eu mesmo quando iniciei minha formação acadêmica deixei-me seduzir pelas suas confusas e obscuras páginas.



É incrível como a obra, digo, a imagem da obra de Jean-Paul Sartre ainda hoje seduz jovens de almas desarmadas. Eu mesmo quando iniciei minha formação acadêmica deixei-me seduzir pelas suas confusas e obscuras páginas. Fazer o que? São coisas da vida, já que viver nada mais seria do que desenhar se borracha como em certa feita disse Millôr Fernandes.

E, como na vida nada se perde, esse meu contato precoce com a obra sartriana para uma coisa me serviu: para nunca mais nessa vida declarar-me sartriano. Mas, por quê?

Simples. Parto do princípio de que devemos estudar e pensar um sistema filosófico não de maneira isolada do seu autor, mas sim, procurando compreender a construção desse através da vida do filósofo que o propõe, visto que, ser filósofo, antes de qualquer coisa, é viver o que se pensa e não esconder-se com o que se fala e escreve, correto? Por exemplo: como você pode defender que o mundo seja de uma determinada forma sendo que você, uma fração do mundo, é incapaz de portar-se de tal modo?

Pois bem, Sartre vivia o que pensava e, ao mesmo tempo se escondia atrás de seus pronunciamentos e escritos que, em muitas ocasiões, acabavam por deixar alguma brecha que desvelava a sua sombria alma existencialista, mesmo que negada por ele. Dessas declarações, elencamos duas em particular.

A primeira que lembramos aqui foi publicada no L’Express em 19 de novembro de 1956, quando da publicação do Relatório Kruschev, que tornava público os crimes brutais cometidos durante o governo de Joseph Stalin onde Jean-Paul qualificou esse ato como uma grande tolice, como um erro enorme.

Disse ele que: “[...] era preciso saber o que se queria, até que ponto se pretendia ir, empreender reformas sem anuncia-las antes, mas realiza-las progressivamente. [...] em minha opinião, a denúncia pública e solene, a exposição detalhada de todos os crimes de um personagem sagrado (Stalin) que por tanto tempo representou o regime, é uma tolice, quando tal franqueza não se tornou possível pelo aumento anterior, e considerável, do nível de vida da população... Mas o resultado foi revelar a verdade às massas que não estavam preparadas para recebê-las. Quando vemos até que ponto em nosso país, na França, o relatório sacudiu os intelectuais e os operários comunistas, nos damos conta de quantos húngaros, por exemplo, estavam pouco preparados para compreender esta terrível relação de crimes e erros, dada sem explicação, sem análise, sem aviso”.

O nosso “sincero” humanista aqui revela o seu brutal maquiavelismo marxista, procurando apontar que se deveria fazer uso de todos os meios possíveis para se alcançar os fins que julgam serem os melhores, ou seja: a revolução comunista acima de tudo. Até mesmo dos escrúpulos. Diga-me, como avisar, analisar e explicar crimes brutais sem chocar pessoas que juravam que tudo isso era uma farsa? Bem, para Sartre, maquiar a verdade, torna-la palatável seria o mais correto, pois, em nome da revolução tudo seria válido, reafirmando assim os conselhos de Lênin em sua obra O que fazer?.

E, o mais engraçado é um ateu militantes referir-se a um facínora como Stalin como uma “figura sagrada”. Bem, se isso lhe é sacrossanto...

Bem, essa é uma pequena amostra de como os “humanistas” do século XX, em especial os revolucionários, são capazes de serem cínicos e o quanto esse humanistas existencialista o era. Mas, a encrenca não para por aqui não. Mais tarde, sem o menor reconhecimento de seus erros cometidos ao defender o Stalinismo, ao negar a existência dos campos de concentração soviéticos (Gulags), dos expurgos, da ausência de Liberdade a qual, ele se dizia ser um ardoroso defensor, ele, Jean-Paul, desdiz tudo o que havia declarado como se não tivesse sido ele quem tivesse dito.

Em seu prefácio intitulado O SOCIALISMO QUE VINHA DO FRIO, ao livro de Roger Garaudy, em janeiro de 1970, Sartre faz uma das mais duras críticas já vistas ao socialismo. Afirmava ele que o Partido Comunista Soviético tornou-se “ [...] um organismo que é por natureza incapaz de se adaptar e de progredir uma vez que cada mínima mudança pode rompê-lo”. Ora, que mudança em? Para que o marxismo era a filosofia insuperável se chegar a uma conclusão dessa sem ao menos retificar a sua obra completa e dizer: eu errei ou, eu menti, é de se admirar.

Mas ele continuava dizendo no texto que: “[...] O sistema conserva e se conserva, não tem outro objetivo a não ser perseverar em seu ser: por essa razão tende a produzir uma gerontocracia, porque os velhos costumanm ser conservadores. [...] O pensamento mineralizado pode buscar o descanso. Ele se instala como uma pedra sepulcral numa cabeça atormentada, e ali permanece, pesada, inerte, capaz de amassar todas as dúvidas e de reduzir os movimentos espontâneos da vida em um formiguejar inexpressivo de insetos”. Bem, se ele afirma isso na década de 70, porque não pede perdão aos seus leitores por ter ficado tanto tempo acobertado isso, inclusive pelas inúmeras declarações similares a que foi tecida sobre o Relatório Kruschev?

Fora isso, O SOCIALISMO QUE VINHA DO FRIO era um bom texto, mas apenas repetia o que muita gente havia dito a muito sobre o socialismo e que, Sartre, dizia que era mentira, equívoco, tolice e/ou erro. Isso, muita gente na França da época já a muito afirmava, como Raymond Aron. O que Sartre esqueceu de colocar eu seu texto era que ele pensava deste modo e que havia se arrependido disso e que, publicamente, reconhecia seu erro. Mas será que havia se arrependido, ou apenas encenado mais uma dissimulação de sua personalidade? Será que ele em nenhum momento teve uma crise de consciência, uma “crise existencial”? Em nenhum momento bateu-lhe uma vontade louca de confessar a todos que ele estava enganado, que ele foi um canalha, antes de escrever essas críticas que deveriam ser mais uma autocrítica? Será que não desejou nunca escrever uma obra ao estilo de AS CONFISSÕES de Sto. Agostinho?

Provavelmente não. Ele não era filósofo o bastante para isso.
Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:16
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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