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12 Ago 2020

O QUE A DEBANDADA LIBERAL SIGNIFICA?

Escrito por 

O problema é que o "gado tucano" apela para estereótipos e acha que “bolsonaristas” vão ficar horrorizados ao “descobrir” que Bolsonaro não é Thatcher nem Reagan.

 

Recebi com tristeza e preocupação a notícia de que tanto Salim Mattar, secretário de Desestatização, como Paulo Uebel, secretário de Desburocratização, entregaram seus pedidos de demissão nesta terça. Dois grandes liberais, que conheço de longa data, estão fora do governo.

Não é uma notícia ruim para Bolsonaro, e sim para o Brasil. Sei da competência de ambos e de seu espírito público. Poderiam estar em qualquer lugar, mas estavam lá, em Brasília, engolindo sapos e aturando desaforos, para tentar contribuir com o avanço de nosso país. E por isso sou muito grato a eles.

Já falam em debandada da equipe econômica, e o próprio ministro Paulo Guedes admitiu que, ontem, houve mesmo uma debandada. Um parêntese: já vi gente, como a deputada Joice Hasselmann, colocando até o Marcos Cintra na lista da debandada na equipe de Guedes, só para inflar o número. Ele saiu por defender a CPMF, que essa turma rejeita. Menos...

O que ficou claro, transparente, cristalino é que há toda uma legião com enorme espírito de porco que torce contra o país. Estão apenas num jogo de poder e querem derrubar o governo, o presidente, enquanto outros, patriotas, querem o progresso e por isso lamentaram as perdas de liberais importantes.

Liberais como Salim e Uebel aguentaram até onde conseguiram, e não é nada fácil. Apanham de todo lado e não precisam disso; é puro espírito público, como disse (e sei do que falo). Enfrentam esquerda, militares estatizantes, sindicatos, establishment corrupto. Agora, duro mesmo deve ser ver “liberais” torcendo contra! Que decepção...

O problema é que o "gado tucano" apela para estereótipos e acha que “bolsonaristas” vão ficar horrorizados ao “descobrir” que Bolsonaro não é Thatcher nem Reagan. Política não é para românticos utópicos; é um concurso de feiúra. Bolsonaro era o que tinha para o jantar. Mas querem derruba-lo para colocar o que no lugar? O PSDB?!

O que essa turma não percebe é que ficou exposto seu jogo sujo, sua hipocrisia. Os radicais de centro chamam de "gado" e "passapanista" todo aquele que não virou um antibolsonarista histérico, fanático e golpista, como eles próprios. Se você não passar pano para os abusos bizarros do STF em sua perseguição ao governo, então você é "robô bolsonarista". Se você não está disposto a se unir até ao PSOL para derrubar o "pior presidente do mundo", então você é "vendido". Se você não faz demagogia em cima de cem mil cadáveres para acusar Bolsonaro de "sociopata" ou "genocida", então você é "gado". Patético! Esse pessoal, vejam só, nem se importa mais com esse tipo de declaração temerária:


Mas voltemos à debandada. É ruim sim, claro! E mostra ao menos duas coisas: 1. às vezes um perfil técnico demais, bom demais, enfrenta até mais resistência na política, pois é preciso jogo de cintura e conhecimento dos meandros da política, além de muito estômago; 2. a luta liberal é acima de tudo no campo das ideias, pois a política é uma caixa de ressonância, e para avançar com essas pautas reformistas é necessário ter um Congresso melhorado pelo voto.

Bolsonaro poderia ter sido mais firme na defesa da agenda, sem dúvida. Ele é liberal de última hora, foi corporativista a vida toda, militar estatizante. Faltou apoio dele sim. Mas não basta responsabilizar somente o presidente, tampouco é justo. É a política mesmo, o establishment, o Congresso, o STF, a patota toda, como o próprio Salim confessou.

Tanto Salim como Uebel fizeram bastante nesse mais de ano e meio de governo. Houve digitalização de vários processos, o legado do saudoso Hélio Beltrão esteve presente no esforço para desburocratizar esse país maluco. Mas Uebel viu como gota d'água o adiamento, uma vez mais, do envio da reforma administrativa do estado pelo governo, para 2021.

Ironicamente, ontem mesmo eu publiquei um texto sobre isso com base num estudo do Instituto Millennium, que eu fundei com Paulo Guedes e outros, e que foi dirigido pelo Paulo Uebel. Eu concluí:

Bolsonaro não tem mais como fugir dessa realidade. Governante algum pode se dar a esse luxo! A conta se torna cada vez maior e o governo vira uma espécie de departamento de RH controlando apenas pagamento de salários e aposentadorias. Algo deve ser feito imediatamente. O Brasil não tem como postergar uma reforma administrativa do estado.

Não será nada trivial mudar o Brasil. As forças do pântano são poderosas demais. Será aos poucos, com reformas graduais e imperfeitas, aos trancos e barrancos. Salim Mattar e Paulo Uebel deram ótimas doses de contribuição, e agora passam o bastão para outros. E Paulo Guedes segue firme, um herói nacional, ciente de sua missão de longo prazo e com uma resiliência impressionante para alguém que poderia estar em Mônaco curtindo a vida, mas que escolheu mexer nesse vespeiro que é Brasília. Novamente, gostaria de externar toda a minha gratidão!"

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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