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11 Ago 2020

A DOMÉSTICA E O MANDELA

Escrito por 

"Cada um é um individual". "Só sou eu, porque você é você e você só é você, porque eu sou eu".

 

Meus amigos

Há muitos anos, uma senhora que havia sido empregada doméstica na casa de parentes se encontrou com minha sogra na reunião dos turistas que estavam embarcando para uma viagem à Buenos Aires.

Essa senhora que, rebatizo agora de Genésia, uma vez que não tenho o direito de expô-la, casara anos antes, com um jovem pedreiro. Competente, o rapaz, de auxiliar de um mestre de obras, passou a trabalhar por conta própria, conquistou a condição de mestre de obras com alguns auxiliares, em um primeiro momento e, anos depois, criou sua firma, passando a assumir construções de maior vulto.

Resumindo, a Genésia, talvez no prazo de pouco mais de uma década, partindo da condição de empregada doméstica, galgou a posição de “senhora”, desfrutando da admiração e respeito de todos quantos conheciam o casal, lá na cidade do interior em que viviam.

Pois bem. Quando encontrou com minha sogra, na reunião de início da excursão, explicou que estava muito agitada e feliz, porque estava realizando um sonho de viajar pela primeira vez ao exterior, naquela  oportunidade, em companhia de algumas novas amigas que pertenciam à sociedade da sua cidade.

Minha sogra, que ia a Buenos Aires já pela terceira vez, parabenizando a Genésia pelas vitórias que conquistara, se colocou ao seu inteiro dispor para, em Buenos Aires, assessorá-la, nos passeios que realizariam.

Assim, lá chegando, no primeiro dia, ao se buscar definir o que seria visitado e, tendo a Genésia e suas amigas manifestado intenção de ir ao comércio para compras, minha sogra convenceu-a de que ela não poderia perder a oportunidade de se ilustrar, visitando locais mais nobres, mais cultos da cidade e a levou a um dos museus que, no entender dela, minha sogra, era extremamente importante ser visitado por quem vai à capital portenha.

Ao retornarem no fim da jornada, minha sogra assistiu a Genésia um pouco frustrada ao, encontrando as amigas, tomar conhecimento de tudo que elas haviam comprado.

No dia seguinte cedo, após o café, ao se reunirem para os novos passeios, ao perceber que a Genésia pretendia ir às compras com as amigas, minha sogra se apressou em informá-la que havia planejado levá-la a um outro museu muito importante que ela já conhecia, mas que teria o maior prazer em rever.

A Genésia, então, com todo o cuidado que, talvez, a circunstância de ter sido, no passado, doméstica na casa de uma sua aparentada sugeria, disse à minha sogra:
- “ D. Maria, me desculpe, mas cada um é um individual. A senhora pode ir para os seus museus, mas eu vou fazer compras, porque preciso voltar levando presentes para os meus filhos, meu marido e alguns parentes”.

Anos depois, no contexto de uma grande quantidade de reportagens realizadas por ocasião da morte de Nelson Mandela, assisti uma entrevista com uma senhora que convivera muito proximamente dele e que ressaltando sua sabedoria, se referiu ao fato de que, em determinada oportunidade, quando discutiam a vida em coletividade, ele lhe teria dito alguma coisa que, hoje, muito tempo depois, preocupado em não ser traído pela memória, identifico como tendo sido algo muito próximo de:
- “A senhora só é a senhora, porque eu sou eu. Eu só sou eu, porque a senhora é a senhora”.

Perceba meu prezado leitor que coisa incrível. Apesar da incrível distância social, intelectual e física da Genésia com o Mandela, a sabedoria, a sensibilidade de ambos, os levou a, dentro dos limites de seus conhecimentos, de suas culturas, exaltar de forma magnífica a importância transcendental da individualidade.

Cada um de nós é um indivíduo, uno, específico, manifestação única do universo absoluto. Não há dois seres humanos iguais.

Essa é uma verdade fundamental, básica, incontestável, imutável. Tentar ignorá-la é absurdo, demonstração inconteste de alienação. O grande desafio da humanidade é buscar tirar proveito das desigualdades, gerando sinergia na interação dos desiguais.

Muito bem. O prezado leitor pode estar se perguntando. Tudo bem. E daí? Onde se quer chegar?

Eu prossigo.

Qual é a diferença intrínseca entre o que se poderia identificar como proposta, ideologia do que se convencionou batizar de direita e esquerda.

De forma talvez simplista, mas buscando ser compreendido por um universo maior de leitores, os que se posicionam a direita do espectro político-ideológico defendem que o ser humano precede o Estado, é a sua razão de existir. Há que se ser livre para definir o que se entende o que seja o melhor para si, ainda que esse melhor, possa não ser visto por seus semelhantes da mesma forma.

Consideram que o Estado surge como instrumento da busca permanente da construção das circunstâncias que viabilizarão, a cada um, segundo seus critérios, a satisfação das suas necessidades, a realização de seus sonhos.

Os que se posicionam à esquerda do mesmo espectro, entendem que o Estado é o senhor dos processos e a ele cabe decidir o que é o melhor para todos. O coletivo se impõe ao indivíduo. Cabe aos que assumem o poder em nome dos seus semelhantes decidir o que deve ser o bom para todos.

A história nos ensina que isso nunca deu certo, porque não há como igualar os desiguais, a desconsiderar as individualidades.

Além disso, cabe que não se esqueça que o Estado é algo imaterial e como tem que ser “vestido” por humanos, acaba por ser contagiado por suas fraquezas.

O Brasil vive, hoje, um embate entre essas duas visões de como deve ser organizada sua sociedade.

Durante pouco mais de três décadas foi governado por aqueles que tiveram a pretensão de, ungidos pelos deuses, serem capazes de decidir pela coletividade, afrontando a concessão que lhe havia sido concedida, para, como seus empregados, atuarem em seu favor, numa busca obstinada do atendimento de suas necessidades.

Nesse período a população assistiu, estupefata, ser assaltada descaradamente, por aqueles aos quais concedera a responsabilidade de trabalharem a seu favor.

Concomitantemente, se apercebeu do propósito desses maus brasileiros, movidos pela intenção de pasteurizar a sociedade, de impor o que deveria ser aceito como bom para si, sociedade, num contexto maior de redefinição dos seus valores, valores estes gerados durante toda a formação de sua nacionalidade e que foram desrespeitados, afrontados, desfigurados.

Foi nessa circunstância que a maioria dos brasileiros decidiu, legal e legitimamente, alterar o rumo da sua história, entregando àqueles que se propõem a respeitá-la o destino da nação, abrindo oportunidade para que cada qual, construa livremente seu futuro, segundo seus sonhos, seus interesses, suas capacidades.

Inconformados com a mudança decidida pela sociedade, angustiados pelas perdas materiais que foram decorrentes, por perderem os espaços que lhes permitiam se locupletar dos bens públicos, todos quantos foram apeados desses espaços, hoje, estão unidos tentando voltar a subjugar a vontade da maioria da população, usando de todos os meios vis, para lograr algum sucesso.

Nesse contexto, é triste assistir como o ser humano pode ser baixo, pode ser desonesto, pode ser egoísta, pode ser capaz de desprezar seus semelhantes. Políticos, juízes, profissionais de veículos de informação mentem desavergonhadamente, acumpliciados na esperança de conseguir voltar a enganar a população, de forma a desacreditar aqueles aos quais cabe, hoje, conduzir os destinos da nação e que já dão mostras inequívocas dos benefícios decorrentes da mudança.

Comportam-se de forma cínica, debochada, demonstrando absoluta falta de escrúpulos, porque acreditam que toda a sociedade, todos os brasileiros devem aceitar suas “verdades”.

Pena que não se pode ter mais Genésias e Mandelas para lhes explicar que “cada um é um individual” ou que “só sou eu, porque meu semelhante é ele e meu semelhante só é ele porque eu sou eu”.

Última modificação em Terça, 11 Agosto 2020 20:09
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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