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10 Ago 2020

UMA BOA PANELA DE PRESSÃO

Escrito por 

Na vida em sociedade não é diferente não. Se exageramos muito num dos temperos corremos o risco de azedar tudo. Se excluirmos outros, podemos acabar por deixar as coisas meio que insossas.

 

Feijão novo é tudo de bom. Sim, a piazada de prédio faz aquela cara de nojinho porque não sabem o que estão perdendo. Não sabem mesmo. Aliás, Nojinho é o nome duma das gatas do meu irmão que se esconde lá no Mato Grosso do Sul. O vivente tem sete gatos e, cá entre nós, a gatinha faz jus ao seu nominho que tem.

Mas do que estávamos assuntando? Ah! Sim. Feijão. O assunto é ele. Bah! Não sei vocês, mas quando resolvo cozinhar uma panelada aqui em casa, junto os feijões com duas folhas de louro colhidos no quintal dentro duma panela de pressão. E gosto de temperar tudo daquele jeito: frito uns cinco dentes de alho, bem picadinhos, com um tanto de torresmo, um cadinho de banha de porco e sal. Depois que tudo tá bem douradinho apincho dentro da panela dando aquele estalo. Mecho um pouco e deixo mais um tanto de tempo em fogo baixo até o caldo ficar do tipo.

É de lambuzar os bigodes. De dar laçaço.

Gilberto Freyre e Luis da Câmara Cascudo tinham um olhar todo especial para tudo aquilo que vai à mesa e escreveram páginas memoráveis sobre o assunto. Independente do que ambos disseram sobre os mais variados manjares e quitutes, gosto da imagem que a culinária apresenta para pensarmos a vida em sociedade, para matutarmos sobre a forma como encaramos os dias vividos por nós neste vale de lágrimas.

Sim, viver é similar a cozinhar. Para o prato ser bão barbaridade tem que se respeitar um certo equilíbrio que há entre os ingredientes e o paladar para que, ao final, tenhamos algo que seja realmente saboroso, bonito, comestível e, desse modo, seja bom. Bom não, bão.

Na vida em sociedade não é diferente não. Se exageramos muito num dos temperos corremos o risco de azedar tudo. Se excluirmos outros, podemos acabar por deixar as coisas meio que insossas.

É. É isso. Um caboclo que entendeu essa parada duma forma porreta foi o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. Alexis de Tocqueville também entendeu bem o babado, mas fiquemos, hoje, com o velho anarquista brasileiro.

Ferreira dos Santos disse inúmeras vezes que uma sociedade democrática, para poder manter as suas instituições, necessita da presença, e bem como do cultivo, de um sólido espírito aristocrático por parte de um bom número de membros da sociedade e, para que isso seja possível, é imprescindível que tenhamos um forte senso comunitário.

Trocando por sambiquiras (ou por qualquer outro miúdo de sua preferência), o ideal aristocrático se caracterizaria pela disposição ao auto sacrifício para preservar aqueles que amamos e devotamos lealdade. Ou, como diz Chesterton, devemos pelejar movidos não por ódio ao outro, mas por amor àqueles que estão atrás de nós e ao nosso lado.

Numa comunidade temos o estímulo ao cultivo dessa disposição. Não para construir um mundo perfeito, porque não somos capazes disso. Mas para tentarmos ser pessoas mais dignas, prestativas e, quem sabe, boas.

Em uma comunidade conhecemos praticamente cada um dos seus membros e, apesar de muitas vezes nos azedarmos uns com os outros – o que faz parte da vida - não queremos que ninguém se lasque, nem mesmo as janeleiras e os fofoqueiros de plantão. Quer dizer, até torcemos para que eles se lasquem um pouquinho, mas não se cogita o cancelado dos infelizes.

É importante lembrarmos que comunidade não seriam tão só e simplesmente as pessoinhas que nos aturam no dia a dia. O senso comunitário é edificado em torno de um conjunto de valores que é comungado por todos os seus membros, o que inclui os finados, por isso eles são reverenciados, por esse motivo rememora-se os seus erros e acertos.

Numa comunidade inclui-se também, como seus integrantes, as gerações que estão por vir, nossos futuros netos, bisnetos, tataranetos e caquinhos.

Podemos dizer que por meio da aliança do espírito aristocrático com o senso comunitário teríamos a formação de uma sociedade espiritual, um “contrato social” dos vivos com os mortos e com os que estão por nascer.

Ora, recebemos algo das gerações que nos antecederam, algo muitas vezes com muitos defeitos, mas que é uma preciosidade tal que não seríamos capazes de inventar algo melhor para substituí-lo e, por isso mesmo, temos o dever de entregar esse tesouro para as gerações que estão por vir e, se for possível e necessário, com alguma correção aqui e acolá.

Nesse sentido, o cidadão seria aquele indivíduo que abnegadamente se sacrifica pelo futuro das tenras gerações, pelo bem dos mais idosos, para proteger os mais frágeis e, faria tudo isso, honrando a memória dos seus antepassados, pouco importando quem sejam eles.

Infelizmente, na atualidade, e através dos mais variados caminhos, vemos a corrosão do espírito aristocrático e a erosão do senso comunitário que já não era lá essas coisas.

Abre parêntese. É. Não podemos nos esquecer que o espírito aristocrático desvencilhado do senso comunitário se reduz a um reles esnobismo umbigolátrico e, o senso comunitário, sem o primeiro, acaba se convertendo num impiedoso círculo de fofoqueiros. Fecha parêntese.

Doravante, no mundo moderno, ao seu modo e de mãos dadas com inúmeras ideologias, temos a consolidação de um espírito de legião e a formação de um senso totalitário e, no lugar do auto sacrifício, temos a celebração do atendimento de todos os caprichos do momento, dos mais rasteiros, como se eles fossem necessários à todos e, tudo isso, com cultivo de atitudes ranhetas como se essas fossem o alicerce da democracia, fazendo-se pouco caso do futuro, demolindo soberbamente o passado em nome dos mesmos caprichos que estão sendo elevados à categoria de “virtudes” [depre]cívicas.

Há um detalhe que é curioso nessa parada toda. Vejam: na vida atomizante das cidades e bem como no vagar fragmentário das redes sociais, nós não somos obrigados a conviver com aqueles que não gostamos, tendo em vista que podemos optar por viver em nossas bolhinhas o que, por sua deixa, pode nos tornar mais arredios a tudo e todos que destoam de nossa panelinha de pressão, desumanizando-os na mesma medida em que nos desumanizamos.

Já na vida em comunidade não. Somos poucos e, por isso, praticamente nos vemos todos os dias. Temos que conviver com quem a gente não gosta, com aqueles que pensam de modo avesso ao nosso e, inclusive, muitas vezes tomamos um café, ou uma cerveja, ou participamos de alguma atividade comunitária com essas pessoas, o que, por sua vez, pode estimular a valorização da humanidade do outro, humanizando-nos, apesar dos achaques existentes.

Talvez, por essas e outras razões, que a galerinha que não tira a palavra tolerância da boca fica pau da vida com qualquer um que não reza a sua cartilha. Por essas e outras que o tiozão do zap insiste tanto em mandar piadinhas das antigas para seus sobrinhos e afilhados engajados.

Os primeiros toleram tudo, menos que discordem deles. Os segundos acham tudo esquisito, por isso toleram, na medida em que isso é possível.

Os primeiros se acham despidos de todo e qualquer defeito, por isso acreditam que devem dar pito em todo mundo. Os segundos sabem que são o que são e, por isso mesmo, com uma humildade sarcástica, dizem para os seus procurarem evitar os erros que eles mesmos cometeram (e que muitas vezes continuam cometendo).

Curiosamente, se voltarmos nossos olhos para os manjares da mesa, fazendo pose de Gilberto Freyre, e analisarmos a culinária com os olhos dum Câmara Cascudo, constataremos como essas visões de mundo moldam os hábitos alimentares.

Vislumbraremos num canto da mesa veganos radicais – junto com radicais vestidos de moderados – dando pitacos na vida de todos para, adivinhem, construir o tal mundo “mais melhor de bão”, dizendo rispidamente o que podemos e não podemos comer. Num outro canto, daremos de cara com aquelas receitas das antigas que, só de pensar, já começo a salivar. Melhor parar. Parei.

De mais a mais, tá na hora de temperar o feijão e limpar a bagunça que fiz na cozinha. Isso mesmo! Para que tenhamos gostosuras à mesa comum temos de contribuir com a nossa cota de sacrifício, por pequena que parece aos olhos envaidecidos do mundo.

E tem outra: se eu lavo e se eu cozinho, ninguém tem nada com isso.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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