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01 Mai 2005

A Revolta do Traseiro

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Ao invés dos risos e aplausos costumeiros, desta vez o presidente Luiz Inácio provocou o que se pode chamar da “revolta do traseiro”. Choveram críticas em jornais e na Internet todos pareciam se sentir chutados nessa parte de sua anatomia.

O presidente Luiz Inácio, eleito por quase 53 milhões de brasileiros, desfrutou no seu primeiro ano de mandato de grande popularidade. Falar no despreparo do ídolo que se apresentava como salvador dos pobres e oprimidos soava como preconceito dos mais censuráveis, e seus pedidos de paciência, suas graçolas de cunho popularesco eram aceitos com a tolerância que, sem dúvida, é um traço forte de nossa alma coletiva, que na imaginação do presidente deve se assemelhar a um grande e gordo traseiro pregado em cadeira de bar.

O tempo foi se encarregando de desfazer ilusões (em que pese a constante sustentação da figura presidencial pela propaganda intensiva). Não decolaram os projetos sociais, sobre os quais incidiam as esperanças de milhões de brasileiros. Promessas não foram cumpridas. As aparições do presidente começaram a se dar em auditórios fechados, com público selecionado e, quando ele se apresenta ambientes abertos, não raro surgem manifestações adversas, apesar da estratégia de desvinculá-lo de qualquer responsabilidade relativa ao governo do qual ele é, em última instância, o responsável.

Parece, também, que já não se acha mais tanta graça nos improvisos do presidente Luiz Inácio. Quando se afrouxam as rédeas dos discursos prontos e se solta sua verdadeira maneira de ser, perpassa pelos brasileiros mais atilados uma incômoda sensação. A percepção é a de que é necessário mais compostura, mais conhecimento da realidade nacional e internacional, mais domínio de assuntos importantes da parte do presidente da República e isso gera a constatação de que mereceríamos, enquanto nação, mais respeito, mais competência, mais preparo daquele que é o nosso mais alto governante. Começa a cansar “a prosa de botequim”, a conversa mole, a retórica vazia, o ufanismo barato, as brincadeiras de mau gosto que tantas vezes precisam ser desmentidas pelo sonolento porta-voz da presidência.

Recentemente, não apenas alguns, mas uma enorme quantidade de pessoas, ficou chocada e revoltada quando num evento – daqueles cuidadosamente preparados para o presidente da República fazer sua campanha à reeleição – ele desferiu entusiasmado consigo mesmo:

 “Ás vezes o cara está num bar, com um grupo de amigos tomando um chope, o que é um direito dele, todo filho de Deus tem direito de tomar um chopinho de vez em quando, de preferência na sexta-feira, está lá xingando o banco, xingando os juros, xingando o cartão de crédito, mas no dia seguinte é incapaz de levantar o traseiro de uma cadeira e ir no banco mudar”.

Ao invés dos risos e aplausos costumeiros, desta vez o presidente Luiz Inácio provocou o que se pode chamar da “revolta do traseiro”. Choveram críticas em jornais e na Internet todos pareciam se sentir chutados nessa parte de sua anatomia.

De todo modo, o presidente foi injusto. Nem todos os brasileiros estão com os traseiros pregados nas cadeiras dos bares. Por causa da nefasta MP 232, 111 entidades levantaram o traseiro e impediram mais uma derrama. E de traseiros levantados, profissionais da mídia impediram a criação de órgãos censores como os conselhos de jornalismo e audiovisual. Com traseiros fora das cadeiras dos bares, tem gente segurando o projeto de controle da universidade proposto pelo ministro da Educação, Tarso Genro. E é evidente que as mulheres dos militares têm levantado os traseiros e ido à luta pelo aumento que o governo do senhor Luiz Inácio prometeu e não cumpriu.

Mas é possível que o presidente tenha alguma razão. Temos que levantar os traseiros e exigir do seu governo o cumprimento de suas obrigações com relação à segurança para todos os cidadãos, à Saúde e à educação de qualidade para os mais necessitados. E é preciso levantar nossos traseiros e nos manifestarmos contra os impostos e taxas abusivos, que originados no governo são causadores do aumento da inflação combatida inutilmente com os juros mais altos do mundo.

O senhor presidente da República criticou nossa inércia, nosso comodismo que nos mantém de traseiros pregados nas cadeiras dos bares, especialmente, às sextas-feiras. Na Venezuela, grande parte da população levantou o traseiro contra os desmandos de Hugo Chávez e só não conseguiu apeá-lo do poder porque o companheiro Lula e seu governo acudiram o falso democrata da boina vermelha. Mas no Equador, deu no que deu. O presidente devia, pois, tomar mais cuidado ao mandar os brasileiros levantarem os traseiros. Vai que nossa paciência acabe.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:18
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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