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30 Jul 2020

UM PEQUENO PASSO PARA CADA UM DE NÓS

Escrito por 

É aquela velha prática de varrer a sujeira para debaixo do tapete limpando apenas o caminho por onde o padre passa.

 

Infância que a muito se foi. Tempo que não volta e que, a cada dia que passa, mais distante fica. Tantas molecagens, tantas travessuras fizeram parte daqueles idos que, francamente, se fosse contá-las não saberia por onde começar. Na verdade, não começaria de jeito maneira porque há certas coisas que dão uma vergonha danada ainda hoje na gente. Então, calcule o tamanho das encrencas. Calcule.

De todas elas, uma agora me ocorre e desavergonhadamente vou contar. Lembro-me que lá por volta de mil novecentos e oitenta e não me pergunte mais, estava eu no alto do morro da Igrejinha de Faxinal do Céu. É. Morei lá.

Estava com minha bicicleta. Lá do alto acelerava a bicha velha como se fosse uma moto e me despinguelava ladeira abaixo, de ponta cabeça, para no sopé do morro derrapar nos cascalhos que ali estavam.

Era um trem bonito de se ver e louco de bão de fazer. Cada nova subida era seguida dum despinguelamento mais veloz que era coroado com uma “manobra” mais radical que a outra (no meu entendimento, é claro).

Porém, próximo do horário do ângelus, antes de ir pra casa, resolvi fazer uma “saideira”. Subi o morro. Fiquei lá no alto, solito, me achando o fera com o vento nas melenas. Cerrei meus olhos, mordi os lábios e me larguei e, quando dei a freada para derrapar, algo de errado aconteceu. Capotei. Me estropiei. Fiquei todo ralado. Não apenas isso! O polegar da minha mão direita praticamente grudou junto ao meu pulso. Bah! Que cagada. Que cagaço.

Num primeiro instante chorei. Chorei de dor e de raiva; e, vendo que nada disso iria me ajudar, com raiva e chorando, catei a magrela e fui, meio que mancando, para a casa dos meus pais que ficava quase no fim da rua rio das Antas (putz grila! Que nome lazarento para uma rua).

Enquanto rastejava pra casa, só em meio àquela linda e fria paisagem, pensava junto com meu kichute todo empoeirado que isso é o que acontece quando a gente quer dar um passo maior que os gambitos. É o que dá quando imaginamos que realmente somos a fantasia que vivenciamos. Que cagada. Que cagaço. Pois bem, lição aprendida, lição esquecida.

Em nosso triste país, ao que parece, essa é a regra. Esquecer as lições aprendidas. Todas elas. Inclusive essa que me ralou todo. Sim. Aqui nessa terra de botocudos ama-se de paixão ostentar uma imagem linda, fofa e formosa para tentar, do jeito que dá, encobrir a nossa jocosa miséria humana. Quem nunca fez isso que se apinche de bicicleta primeiro.

Fugimos da tensão que há entre a criatura imperfectível que somos e o dever moral que nos chama para nos esforçarmos para tentarmos ser alguém minimamente melhorzinho e, essa fuga, caracteriza-se pelo apego insano a uma imagem, a uma ideia de bondade que vestimos da cabeça até os pés para parecermos bem na fita na vã esperança de não mais nos incomodarmos com essa tensão.

É aquela velha prática de varrer a sujeira para debaixo do tapete limpando apenas o caminho por onde o padre passa. Bem, isso não dá muito certo na arrumação da casa e muito menos na ordenação da alma. Mas, mesmo assim, seguimos em frente fazendo isso - hipocritamente - quase que diariamente.

E o pior é que tal prática, a de varrer a craca para debaixo do tapete da personalidade, acaba por levar o seu praticante a projetar sua consciência na imagem coletivista que ele faz de si, alienando-se, suprimindo a capacidade de se colocar no lugar dos outros e substituindo-a pela habilidade de medir o valor da vida alheia pelos contornos de nossas cracas ideológicas que dão forma a uma imagem de bom-moço que deforma o caráter.

Detalhe: quando se cai numa arapuca dessas, imagina-se que apenas aqueles que se escondem de tudo com a mesmíssima imagem seriam pessoas boas.

Gente assim não reconhece indivíduos; apenas identificam-se com coletivos e rotulam com coletivismo.

Se pararmos pra matutar um pouco veremos que os piores escroques que mostram sua pinta nas páginas amareladas da história acreditavam que estavam lutando por um mundo melhor, que estavam defendendo os “frascos” e “comprimidos”, que lavoravam em favor da justiça, da igualdade, da fraternidade, pela liberdade, pelo código de Thundera, enfim, que estavam cumprindo uma missão que lhes foi confiada sabe lá por quem.

Por essas e outras que Thomas Sowell dá o nome de “ungidos” aos caboclos desse naipe. Tais indivíduos, sem querer querendo, lá no fundo de suas consciências entorpecidas, não têm dúvida alguma quando a nobreza de suas ideias, valores, intenções e ações.

Tal certeza, ideologicamente carcomida, dá aos seus praticantes a sensação de que eles são bons e, quanto aos demais, serão bons ou maus segundo a vontade deles. Que coisa hein.

Por isso é interessantíssimo compararmos os discursos cheios de boa intenção dos tiranos modernos, juntamente com os bons sentimentos dos seus seguidores e da galerinha politicamente correta, com a vida e as palavras de um santo. Se fizermos isso iremos constatar que os primeiros se consideravam e se consideram pessoas profundamente perfeitas, impolutas, sem que necessariamente tenham feito algum bom. Quanto aos segundos, veremos que eles se consideravam e se reconhecem como míseros pecadores indignos, apesar dos seus atos demonstrarem o contrário.

Sim, imagino que nenhum de nós seja um Hitler, um Fidel, um Stálin, um Pol Pot, um Che ou algo que o valha, como também penso que estamos a léguas de distância dos pés fatigados dum Santo Agostinho, de um São Francisco ou de uma Santa Madre Dulce dos Pobres.

Somos o que somos: apenas pessoas comuns tentando fazer o que dá, procurando, na medida de nossas limitações e na superficialidade de nossas convicções, não cometer mais erros do que já cometemos, pois, se o justo peca sete vezes por dia, imagine só o que pessoas como eu e você são capazes de fazer num dia, não é mesmo?

Resumindo o entrevero, penso que poderíamos dizer junto com o esquecido escritor Humberto de Campos, que devemos nos esforçar para sermos senhores de nossa vontade e escravos de nossa consciência. É mais do que certo que fazer isso é uma tarefa difícil barbaridade e, por isso mesmo, creio que seria interessante trilharmos por essa estrada.

Sim, mais fácil seria ficarmos fazendo pose de criaturinhas acima do bem e do mal. É bem mais cômodo. Mas isso, até onde sei, não nos ajuda muito a nos tornarmos pessoas melhores, tendo em vista que, todos aqueles que assim se portam, já se consideram sumamente bons sem, necessariamente, serem capazes de reconhecer o bem.

Enfim, entre os tombos de bicicleta que levamos junto aos cascalhos caídos na estrada da vida e a porta da casa do Pai, temos um longo caminho a percorrer. Eu, você, todos nós. Ralados e humilhados, temos um caminho longo para trilhar. Caminho esse que começa com o reconhecimento de nossos pecados que não podem ser extirpados do nosso coração pela mera propagação, discreta ou não, de uma ideologia, pouco importando qual seja ela.

Somente a Verdade com seu amargor liberta. O resto é mentira e vaidade, mesmo que defendida e pregada de forma bem intencionada.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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