Qua08122020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

29 Jul 2020

POPULISMOS EM CHEQUE

Escrito por 

Políticos que pensam na próxima eleição, ao invés da próxima geração, estão longe da postura de estadistas que precisamos em tempos sombrios como este que vivemos.

 

A covid-19 vem causando uma verdadeira devastação nos sistemas de saúde, mas também nas economias do mundo inteiro. Os reflexos na política são inevitáveis, uma vez que a agenda de muitos governantes se tornou refém do vírus, colocando em risco seus projetos políticos e de poder.

As dores da economia são sentidas na política de forma aguda, algo que já foi ensinado várias vezes por diversos analistas. “É a economia, estúpido”, já dizia James Carville, estrategista político de Bill Clinton. A economia, no final das contas, baliza o voto, e injeções de ânimo em suas oscilações podem ajudar um governante a se reeleger.

Em tempos de pandemia, entretanto, quando o problema é mais vertical, as saídas precisam ser mais trabalhadas, e o risco de troca dos eleitos se torna cada vez mais real. Isso significa que sem soluções mágicas, governantes reféns da distração política como forma de governar, populistas clássicos, tendem a sentir mais os golpes da pandemia nos números da economia em seus países.

Isso explica por que muitos optam pela reabertura de comércio e serviços mesmo ao custo de vidas e controle da pandemia. Políticos que pensam na próxima eleição, ao invés da próxima geração, estão longe da postura de estadistas que precisamos em tempos sombrios como este que vivemos.

Do outro lado, governantes ponderados e hábeis tem usado seu capital político para liderar suas nações e passar medidas reais de enfrentamento ao coronavírus. Essa liderança ficou clara diante dos excelentes resultados no combate ao vírus em seus países. Nova Zelândia, Alemanha, Uruguai e Grécia integram esse grupo.

Diferentemente disso, o mundo vive uma guinada populista à direta nos últimos tempos. Longe do liberalismo conservador tradicional da centro direita europeia ou mesmo da visão tradicional dos republicanos nos Estados Unidos, esse populismo pode começar a sucumbir diante da crise econômica gerada pela pandemia. As urnas farão esse processo de limpeza.

O primeiro grande desafio ocorre nos Estados Unidos, que viverá um ciclo eleitoral polarizado, mas que tem chances de realinhar seu sistema político. Se as chances dos democratas eram pequenas um ano atrás, o cenário apresenta-se hoje realinhado diante da ineficiência no combate ao vírus e no desgaste econômico advindo da pandemia.

Os republicanos tradicionais enxergaram nos tropeços do atual governo uma chance de reconquistar o controle do partido, que em caso de derrota precisará ser reconstruído sob uma nova liderança. Diante disso, nascem movimentos espontâneos nas hostes republicanas que se levantam contra a administração Donald Trump e buscam um retorno do partido aos seus ideias tradicionais e mais consistentes. Argumentam que o partido de Lincoln jamais poderia ter se tornado o partido de Trump.

Está ficando claro que a polarização política ao redor do mundo não entregou resultados palpáveis especialmente diante da pandemia e que governos centristas democráticos têm conseguido entregar melhor a gestão da crise, além de resultados mais consistentes, preservando vidas, que serão essenciais na retomada da economia. Na Alemanha esta tem sido a tônica, assim como no Reino Unido, que mudou de postura após uma fase negacionista.

Ficou evidente que os ponderados colheram melhores resultados do que os populistas ao redor do mundo. Basta olhar para Nova Zelândia, Finlândia, Taiwan, Noruega, Islândia e Dinamarca, todos países com excelentes resultados no combate ao vírus e não coincidentemente governados por mulheres que souberam lidar de forma hábil com a crise.

É preciso escolher exercer liderança, ao invés de distração política, para colher resultados diante desta grave crise como tem feito essa safra feminina de líderes internacionais. Governos populistas são incapazes de entregar esse resultado. Diante disso, talvez um dos principais resultados políticos deste período seja o realinhamento de forças por meio do voto, resgatando governos de caráter mais técnico e centristas, tanto na direita como na esquerda.

Como ao final de uma guerra, quando emergem grande alianças, ao fim desta pandemia, governos de concertação nacional podem substituir populismos e polarizações que tornaram a política um triste palco de divergências e ódios vazios.

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

Mais nesta categoria: « O "DEBATE" ACONTECEU! »
  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.