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28 Jul 2020

UMA VIDA PELUDA

Escrito por 

Claro, claro, fiquei sabendo que inúmeros prefeitos e governadores estão querendo portar-se, diante das telinhas e telões, com andrajos – de grife – de modernosos salvadores da pátria, digo, de suas plagas, todavia, o tiro, ao que parece, saiu pela culatra e acertou o pé de suas pessoas cheiinhas de boa vontade sanitária.

 

Estava descalço, de pé no chão, caminhando sem rumo pelo gramado do rancho, de zóio na copa do arvoredo vendo a passarinhada fervendo, cedo do dia, enquanto tomava aquela xícara de café. A primeira das muitas que irei tomar até que o sol se punha no horizonte.

Meu cachorro me vê e, de pronto, coloca-se a abanar o rabo, a dar uns pinotes e, é claro, a latir festivamente. Fiasquento velho.

Mas não é da boniteza do pomar da minha grota, nem da faceirice do meu velho amigo canino que quero assuntar nessas linhas. Não. Infelizmente não é esse o causo.

Na verdade, estava matutando, enquanto olhava essas belezuras da vida cotidiana, a respeito do profundo estrago que todo esse pânico, pandêmico e midiático, causou e está causando na vida de cada um de nós.

Não me refiro, aqui, nessas linhas cafeinadas, ao desastre que esse pavor, fomentado por autoridades “responsáveis”, com suas consciências “cientificamente” imaculadas, gerou na fonte do pão de cada dia de milhões de pessoas em nosso país, e de bilhões de pessoas pelo mundo afora. Não é a isso também.

É. O pessoal do fique em casa a qualquer preço não parou pra pensar no custo que isso tudo teria na vida das pessoas e que continuará a amargar a vida de muitíssimas nos anos que estão por vir. Agora é tarde, mas antes tarde do que nunca.

Sim, eu sei, vidas são mais importantes que a economia, porém, até onde sei, as pessoas ainda não fazem fotossíntese e, desde os idos do antigo testamento que o Pai do Céu não derrama sobre nossas cabeças nem um punhadinho de maná.

Posso estar enganado, posso até ser um homem de pouca fé, porém, até o momento, não vi nada que seja próximo disso acontecer.

Claro, claro, fiquei sabendo que inúmeros prefeitos e governadores estão querendo portar-se, diante das telinhas e telões, com andrajos – de grife – de modernosos salvadores da pátria, digo, de suas plagas, todavia, o tiro, ao que parece, saiu pela culatra e acertou o pé de suas pessoas cheiinhas de boa vontade sanitária.

Bem, como eu disse, não é sobre esse babado que quero falar, apesar de ter parlado tanto sobre isso. O que tenho em mente é o seguinte: além do estrago material que essa estrovenga acabou gerando, e que afeta diretamente a vida de muitíssimas pessoas, temos o estrago causado no cocuruto de cada um de nós. E, nesse quesito, a ruína foi feia pra caramba.

Lembro-me sempre, e repito para os meus pequenos, que já não são mais tão miúdos assim, que o medo é mau conselheiro, péssimo, e, com o tempo, esse trem acaba se transformando em raiva e ela, por sua deixa, também não é boa nisso – em dar conselhos.

Pois é. E o sentimento majoritário em nossa sociedade, em nossos corações, atualmente, é um misto de medo e raiva devidamente ajuntados com um bom tanto de ansiedade. É. E uma mistura sulfurosa como essa pode acabar levando as pessoas a enxergar perigo onde ele inexiste e a não ver nada de mais onde o mal está à nossa espreita, cafungado o nosso cangote.

Sem nos darmos conta, mascarados e meio que asfixiados pelas notícias escandalosas - e tremendamente inventivas – corremos o risco de acabar dando muito mais atenção aos nossos medos imaginários, que são nutridos pela nossa ansiedade, do que para as lides reais; e, lá pelas tantas, pelos motivos mais bestas, isso tudo pode rapidamente transformar-se em uma senhora raiva doida para se alastrar para todos os lados feito um rastilho de pólvora.

Talvez seja bem provável que o amigo leitor já deve ter sentido nesses dias o roçar sutil das garras da fúria, impelida por cenas e acontecimentos banais não é mesmo? Mas, ainda bem que nós somos capazes de nos controlar e colocá-la no seu devido cantinho.

O problema é sabermos para qual direção essa cólera sufocada irá dirigir-se, ou será dirigida e quanto isso irá acontecer. Tic. Tac. Tic. Tac...

Enquanto isso, meu cachorro banguela ladra, abana o rabo e dá seus pinotes, faceiro da vida, tendo em vista que essa meleca toda em que nos metemos nada tem que ver com sua peluda vida canina. Nós, porém, não podemos e não devemos dizer o mesmo.

Fazer isso seria uma tremenda cachorrada de nossa parte.

Última modificação em Quarta, 29 Julho 2020 20:15
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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