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20 Jul 2020

ENTRE O RISO E O CHORO

Escrito por 

O que digo é que essa chusma de almas inflamadas pelo politicamente correto, de tanto instrumentalizar ideologicamente o sofrimento humano, acabaram por banalizar o real valor de um coração apertado pela dor.

 

Não dou muito valor para nenhum tipo de vitimismos, não importa de onde venha o choro.  Não dou trela nem mesmo para o meu próprio chororô que, uma vez ou outra, tenta assaltar minha alma e levar algo de mim. Digo isso não por maldade, nem pra fazer pose de durão, longe disso, tendo em vista que sou louco de chorão.

Falo sobre esse espinhoso tema porque no mundo atual grande parte dos lamentos tem uma certa aura de teatralidade. Isso mesmo. Teatralidade. Já repararam nisso? Todo mundo, que não vive imerso no cálice das ideologias, e que não é possuído pelos cacoetes mentais politicamente corretíssimo, reconhece com relativa facilidade a diferença que há entre uma dor sentida e uma encenação midiática dolorosa.

Aprendi isso, faz tempo, com Dona Yolanda e com a Dona Tomazina e, frequentemente, tenho matutado muito sobre isso nos faxinais silentes de minha alma, com meus alfarrábios, junto ao chão bruto do meu rancho.

Por isso prefiro os memes. Explico-me: o riso, como nos ensina Carlos Heitor Cony, na maioria das vezes é espontâneo e fala muito mais daquilo que há no coração humano do que as lágrimas do mundo contemporâneo. Aliás, quem está com raiva e rancor no coração dificilmente consegue encontrar graça num gracejo, tendo em vista que é muito mais difícil dissimilar uma gargalhada gostosa que encenar um pranto fingido.

E tem outra. Essas pobres almas acabam, inevitavelmente, projetando seu amargor sobre humor e aí, o que acabemos por ter, é somente aquele azedume politicamente correto que todos nós conhecemos muito bem.

E o trem fica pior ainda quando tentam fazer uma anedota porque, quanto fazem, acaba saindo aqueles troços que são maquinados simplesmente para chocar, não para fazer rir.

Não estou dizendo que as lágrimas não tem valor e que a dor sofrida deveria ser menosprezada. Nada disso.

O que digo é que essa chusma de almas inflamadas pelo politicamente correto, de tanto instrumentalizar ideologicamente o sofrimento humano, acabaram por banalizar o real valor de um coração apertado pela dor.

De mais a mais, penso que seja importante lembrarmos que todas as hostes totalitárias que flagelaram o século XX, começaram sua, como direi, “carreira”, com aquela choradeira artificiosa de vítimas da história, do mundo, de tudo e de todos, bradando aos quatro ventos que eram perseguidos e assim por diante e, quando os tempos estavam maduros, as lágrimas cênicas davam lugar para agressões verbais, morais, psíquicas, físicas e, tudo isso era feito e devidamente justificado por sua midiática condição de vítima e, catapimba, tínhamos todos os caminhos abertos para a implantação dum regime totalitário.

É. Quando voltamos nossos olhos para os passos iniciais do fascismo, do nacional-socialismo (nazismo) e dos mais variados matizes socialistas, encontramos invariavelmente pinceladas similares, com variados tons, da mesma triste gravura.

Não há dúvida alguma que todos aqueles que sofrem devem ser consolados, como também, penso eu, que não há nenhuma dúvida de que a instrumentalização política do sofrimento não conforta o coração da alma sofredora, principalmente quando o grito de dor acaba sendo sufocado pelos ecos midiáticos de um projeto totalitário de poder.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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