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08 Mai 2004

Incompetência e Crise

Escrito por 

A derrota do governo na votação da Medida Provisória, que proibia o funcionamento dos bingos, é uma boa e uma má notícia.

A derrota do governo na votação da Medida Provisória, que proibia o funcionamento dos bingos, é uma boa e uma má notícia. Má porque mostra o quão grotesco tem sido o governo Lula na condução da relação parlamentar, usando como única ferramenta o mandamento do “é dando que se recebe”. Não tem liderança moral e nem intelectual, essencial para se obter a adesão dos parlamentares sem que seja contra pagamento. Expedientes desse tipo são frágeis e torna o governo, a cada votação, refém dos famosos “picaretas” denunciados pelo próprio Lula, que se tornou agora o chefe de todos eles. Poderíamos até dizer, tem tom de galhofa, que é ele mesmo o picareta-mor.
A boa notícia fica por conta da fragilidade revelada pelo Executivo, o que aumenta a tranqüilidade daqueles que, como eu, sabe que o pior poderia vir se a concentração de poder em Lula e no seu partido fosse maior. Felizmente revelou-se o contrário. O poder Legislativo mostrou autonomia e capacidade de se impor ao Executivo como não víamos desde o governo Collor.

É bom que se diga que a indigitada Medida Provisória, a pretexto de impor uma moralidade que não é própria do Estado, cometeu uma enorme violência jurídica, prejudicando empresários, empregados, consumidores e os interessados na atividade. Sou contra jogos de azar, mas entendo que jogar, ou não, é decisão de foro íntimo de cada um e ninguém pode querer ditar regras a pessoas adultas. Seria infantilizá-las. Nunca devemos esquecer que esse arroubo de pseudovirtuosidade deveu-se à tentativa de retirar da mídia o escabroso caso Waldomiro Diniz. É a sujeira tentando encobrir a imundície.

O relevante é que a derrota governista trouxe uma grande dose de intranqüilidade para o mercado. Na verdade, os desequilíbrios já estavam expostos, faltando apenas o estopim para que a explosão acontecesse. A esquizofrenia governamental, com uma ala tentando subverte a boa administração econômica do ministro Palocci, tem tardado em gerar fatos para alimentar a especulação contra a moeda nacional. A alta do petróleo também contribuiu. Desconfio que é chegado o tempo das turbulências, que deverá permanecer por um longo período. É a “normalidade” destes tristes trópicos.

A principal questão no horizonte é a votação da Medida Provisória que trata do Salário Mínimo. Qualquer novidade ou aventura no campo legislativo relativamente à questão precipitará o Brasil em gravíssima crise de confiança. Será a demonstração pronta e acabada da chamada ingovernabilidade. Será o fim do governo Lula.

Mais uma vez o discurso do passado irá cobrar a sua conta. O PT levou a vida a denunciar o baixo valor do Mínimo e agora se vê diante da contingência de ter que se pautar pela ética da responsabilidade, isso a poucos meses do importante pleito eleitoral para as prefeituras. Lula retirou assim um dos mais importantes mantras eleitorais dos seus correligionários, que poderão se rebelar no Parlamento. A situação pode ficar muito complicada se o Executivo não tiver competência na tramitação da MP. Será um divisor de águas.

É aguardar. O mercado especulativo, como as hienas, sabe que está diante de uma vítima moribunda e está à espera da hora do banquete macabro.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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