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13 Jul 2020

O QUE VAI CONSTAR NA NOSSA CAIXA-ARQUIVO

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Poder-se-ia, também, quem sabe, armazenar recortes de jornais e revistas sérias, e/ou matérias jornalísticas de emissoras de rádio e televisão (também sérias, responsáveis), que dessem visibilidade aos comportamentos, atitudes, procedimentos dessas autoridades na contramão do interesse do povo, seu empregador, e focados única e exclusivamente nos seus interesses particulares e/ou dos grupos com os quais se aquadrilharam. O que é que você acha prezado leitor?

 

Meus amigos

Anos atrás, eu perdi uma tia, solteira, irmã do meu pai, já com muita idade.
Faleceu no interior do Ceará, para onde decidiu ir, quando percebeu que seu fim era inevitável.

Como meus avós, meu pai e meu irmão eram falecidos, por ser o parente mais próximo vivo, me coube assumir todas aquelas providências legais próprias nessas circunstâncias.

Não sei se o prezado leitor já se viu com esse compromisso, mas posso assegurar que é algo extremamente sofrido.

Depois de alguns dias, fui ao apartamento dela em Copacabana, no Rio de Janeiro. Não fiquei mais que quinze minutos nele. A sensação, profundamente desagradável, de estar invadindo a intimidade de outro ser humano me causou mal-estar tal que, em seguida, deixei o apartamento.

Nos dias subsequentes, com minha esposa, planejei o que fazer. O apartamento precisava ser esvaziado, para que pudesse ser, com autorização lega, alugado, para que se pudesse fazer face às despesas que perduravam.

Fiquei encarregado de dar destino ao mobiliário e eletrodomésticos (mesas, cadeiras, televisão, geladeira, fogão, etc). As pessoas humildes com as quais ela se relacionava mais de perto (porteiro do edifício, faxineira ,..) seriam as beneficiadas.
À minha esposa caberia lidar com os pertences pessoais (roupas, sapatos, pequenas bugigangas...), identificando a quem destiná-las.

No entanto, nos deparamos com alguns pertences que não poderiam ser distribuídos e que não poderíamos, simplesmente, nos desfazer deles. Eram diversos diplomas, certificados, manifestações de cumprimentos de chefes de repartição, escolas, nas quais trabalhara, agradecimentos emocionados de ex-alunos, entre outros.

Com graduação inicial em educação física, ela fizera, posteriormente, diversos outros cursos e concentrou-se, a partir de um determinado momento, na atividade de ginástica rítmica para surdo-mudos.

Assisti algumas demonstrações de seus alunos e era inacreditável ver adolescentes surdos, dançando ao ritmo de uma música que eles não escutavam, porque haviam aprendido a reagir à trepidação que o som provocava no ambiente.

A dedicação dela aos seus alunos e à sua profissão gerara um sem número de documentos de agradecimento e/ou cumprimentos, que ela guardara, com certeza com muita alegria e orgulho.

Como jogar fora esses tipos de pertences que contavam a história da sua vida de uma forma bonita, absolutamente concreta, mas de significado claramente abstrato, intangível.

Decidi me valer de uma caixa-arquivo, dessas que se tem nos escritórios para armazenar documentos e, nela, reuni todos aqueles registros da beleza que tinha matizado a vida dela.

Tudo feito e pouco tempo depois, fui assaltado pela pergunta: caso meus filhos, netas, decidam organizar uma caixa-arquivo que eternize minha existência, o que haveria para ser posto nela. Afinal, carros, casas, apartamentos, geladeiras, sons, TVs, roupas, nada disso caberia na caixa.

Em diversas palestras que fiz ao longo do tempo, quando o tema se prestava a essas reflexões, lancei a pergunta para os presentes: o que haverá de ser guardado na sua caixa? Em mais de uma oportunidade pude observar o constrangimento e, em alguns casos, clara emoção entre alguns dos ouvintes.

Em apresentações em inúmeras faculdades exortei os jovens universitários a imaginarem se as vidas que sonhavam experimentar proporcionariam, no futuro, aos seus descendentes dispor de material suficiente para organizarem suas caixas. Em praticamente todas as oportunidades, pude perceber os jovens se entreolhando com aquele semblante constrangido de dúvida.

O prezado leitor deverá estar se perguntando: e daí?

Sem querer ser ofensivo, em hipótese alguma, eu lhe pergunto: o que haverá de ser guardado na sua caixa arquivo?

Dia desses eu estava arrumando meus armários e me deparei com a caixa-arquivo da Tia Nylce (esse era seu nome) e, diante do quadro triste de crise na saúde, que o país está enfrentando, quadro este que tem sido agravado nojentamente pelo comportamento irresponsável, leviano, talvez se possa dizer criminoso de uma parcela que lamentavelmente é significativa das autoridades no país, não houve como não me ocorrer a questão:
- Esses pobres coitados terão caixas?
- Seus descendentes terão esse tipo de preocupação, ou, em razão do que aprenderam no dia-a-dia com eles, estarão motivados a seguirem seus passos, focados exclusivamente em continuar acumulando bens materiais, honrarias, poder?
- E se tiverem, o que haveria para ser guardado?

Pensei, não sei se o prezado leitor concordaria comigo, que poder-se-ia, por exemplo, imaginar que nessas caixas poderiam ser guardadas cópias dos inúmeros processos judiciais que os envolveram no tempo e que não geraram consequências, porque seus advogados, regiamente pagos, com o acumpliciamento da estruturação injusta do judiciário, os levaram à prescrição. Que tal?

Poder-se-ia, também, quem sabe, armazenar recortes de jornais e revistas sérias, e/ou matérias jornalísticas de emissoras de rádio e televisão (também sérias, responsáveis), que dessem visibilidade aos comportamentos, atitudes, procedimentos dessas autoridades na contramão do interesse do povo, seu empregador, e focados única e exclusivamente nos seus interesses particulares e/ou dos grupos com os quais se aquadrilharam. O que é que você acha prezado leitor?

Vou encerrar nos lembrando, a mim e a você, que daqui há alguns anos, dez/quinze, para os mais velhos, um pouco mais para os demais, eles estarão todos mortos. É a lei da vida.
Não há alternativas.

Quem sabe, aí então, às vésperas da despedida, eles se deem conta de que “gastaram vela com defunto podre”, como diz o povo. Vão embora sem fazer falta, sem deixar saudades. Serão esquecidos, ou talvez lembrados apenas pelo mal que fizeram aos seus concidadãos. Já irão tarde.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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