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04 Jul 2020

LIBERDADE ! ??? - Parte XI

Escrito por 

Este espaço estará permanentemente aberto a todos quantos desejem se juntar aos que não admitem imaginar seus filhos e netos submetidos a uma sociedade subjugada, acovardada, escravizada.

VER LIBERDADE ! ??? - Parte X

 

O prezado leitor que acompanhou esta longa peregrinação reflexiva provavelmente, em mais de uma oportunidade, deverá ter se perguntado qual o seu propósito. O que se buscaria propor com essa sequência extensa de raciocínios, que, assim se pretendeu, deveria guardar coerência e lógica?

Inicialmente, cabe que se renove a ideia central que justificou todo esse processo: deve-se ter, particularmente no Brasil de hoje, muito mais dúvidas a respeito do que seja “liberdade”, do que certezas (daí, no Título, três pontos de interrogação, sucedendo um único ponto de exclamação).

O que se pretende propor, finalmente, a você, caro leitor, é a afirmação de que o Brasil vive, nos dias atuais, sob uma ditadura, uma ditadura cultural. A pior, a mais nojenta, asquerosa, repugnante forma de subjugação de uma coletividade. Aquela que reduz, anestesia, inviabiliza a possibilidade de reversão, de libertação do processo escravizante, na medida em que, nesse ambiente, o escravizado, não se apercebendo subjugado, não se rebelará.
Não. Não se está tomado pelo germe da teoria da conspiração, não.

A verdade é que, a despeito do prezado leitor poder não reconhecer na esquerda brasileira (quando analisados os seus integrantes coletivamente) qualificação, competência, para conduzir um processo organizado, orquestrado, com um propósito definido anteriormente, ela soube, ou conseguiu, implementar a proposta Gramisciniana de forma eficaz no Brasil, nas últimas quatro décadas. Houve perseverança, obstinação, há que se reconhecer.

O leitor, certamente, estará pensando que terá havido manifestações de inúmeros outros atributos menos nobres. Claro, é próprio dos processos revolucionários.

Fracassados na tresloucada experiência fratricida de 1935 e, posteriormente, na açodada tentativa encabeçada(?) por João Goulart, a esquerda brasileira parece ter decidido ressuscitar Antonio Gramsci.

Sugere-se ao prezado leitor que se questione quanto às provocações a seguir, revendo as considerações apresentadas nos artigos anteriores, se entender como pertinente.

Nas últimas quatro décadas, no Brasil:

- terá surgido um partido político (como proposto por Gramsci) “orgânico das classes subalternas”? Um partido “da classe” e não “de classe”, como insistia Gramsci?
- terá ocorrido infiltração da esquerda nos “aparelhos privados portadores materiais da hegemonia” na sociedade brasileira (sindicatos, partidos políticos, igrejas, órgãos de comunicação de massa, meios editoriais, movimentos populares, áreas de manifestação artísticas, entre tantas)?
- terá se materializado, como proposto por Gramsci, a construção de uma hegemonia (condição ou capacidade de influência e de direção política e cultural que um grupo social exerce sobre a Sociedade Civil, por intermédio de organismos sociais voluntários, para que esta exerça a mesma influência sobre a Sociedade Política, possibilitando que o partido exerça sobre todo o processo revolucionário, sobre a Sociedade Civil e sobre a Sociedade Política)?
- terá se construído, no Brasil de hoje, um “consenso” (conformação coletiva do grupo social - concordância e adesão ativas- espontânea e livre, com as iniciativas do estado que as propõe para alcançar os fins que a sociedade pretende)? Por que a sociedade brasileira está, hoje, subjugada aos conceitos enquadrados sob o rótulo do “politicamente correto”?
- esteve o grupo político que vestiu, nessa última década e meia, o governo brasileiro (e, diga-se de passagem, como vestiu) buscando, como proposto por Gramsci, se valer do poder inerente aos governos, implantar e implementar medidas “legais”, que inviabilizassem a reversão do processo em fase final de consolidação, com o propósito de, ainda que por algum tempo dentro de uma “normalidade democrática”, se manter indefinidamente no poder?
- havia perspectiva, em curto prazo, da saudável alternância no poder de partidos políticos adversários, característica própria das verdadeiras democracias?
- a despeito da vitória nas urnas de um representante de posição política contrária à ideologia da esquerda, pode-se afirmara que haja oposição política, no Brasil de hoje, organizada, consciente da necessidade de se constituir em representante do universo da população, ainda não subjugada ao consenso, ou os partidos de “oposição” estão acachapados, porque igualmente amesquinhados, constrangidos de se contraporem ao consenso e porque integrados por profissionais mais preocupados em sobreviverem politicamente, para que possam sobreviver financeiramente?
- reeditando os quadros esquemáticos apresentados em artigo anterior, a sociedade brasileira, hoje, deveria ser representada pelo quadro à esquerda (sociedade plural, em que todas as posições encontram espaço para o exercício pleno da sua cidadania), ou se assemelha à representação do quadro da direita (sociedade pasteurizada pelo politicamente correto, acordeirada, tendo seus integrantes dissonantes isolados, sem espaço de manifestação e sem qualquer expectativa de serem ouvidos e de poderem interferir no processo social)?

    

- ainda que tendo sido, episodicamente, possível afastar do governo o partido criado para ser o representante do pensamento gramscista, há expectativa de que essa alternância tenha garantia de sobreviver no tempo?
- existe no Brasil, hoje, um conluio de diversos segmentos da sociedade empenhados em reverter o processo democrático que afastou do poder, aqueles que se empenharam obstinadamente em destruir os valores da sociedade, construídos durante toda a formação da nacionalidade brasileira?
- você identifica que nesse esforço conjugado, não só os políticos representantes dos partidos de esquerda, mas a mídia e o que é mais chocante, altos escalões do judiciário estão partícipes desse esforço, ainda que não demonstrando pejo em aviltar a lei, a ética, o bom senso e a própria justiça, para alcançar seus propósitos?

A partir das respostas que o prezado leitor terá dado às questões sugeridas, cabe que se reflita, novamente apoiados no Ciclo da Tomada de Decisão de Joel Lawson, já exaustivamente discutido anteriormente, sobre a real situação do cidadão brasileiro, hoje e o que isso tem a ver com liberdade.

Essa realidade a que está submetida a sociedade brasileira interfere na liberdade do cidadão? Claro que aqui se está falando na única e real liberdade que se deve desejar ao ser humano: a de pensar e decidir livremente. Livremente fazer as suas escolhas, tomar suas decisões e poder livremente manifestá-las?

Para tal, cabe questionar:
- as informações que são feitas chegar aos cidadãos são corretas, verdadeiras ou são divulgadas de forma a induzir comportamentos esperados, padronizados?
- no meio acadêmico, as discussões são livres, abertas, orientadas exclusivamente à busca do conhecimento, da verdade, ou o universo de jovens que, nas últimas décadas e particularmente nos dias atuais, frequenta o ambiente acadêmico sofre um verdadeiro processo de lavagem cerebral, conduzido com a intenção de torná-los inocentes úteis no futuro (ultimamente tenho visto a referência ao conceito de idiota útil que, apesar de ser agressivo, parece identificar melhor a ideia original da expressão)?
- no meio artístico, é admissível um artista ter espaço profissional assegurado e proporcional ao seu nível de competência, ou é indispensável que, ao menos aparentemente, ele se veja obrigado a aderir a um discurso coerente com o “politicamente correto”.
- no meio editorial, é possível encontrar a mesma facilidade para publicar uma obra que enfrente, questione, ataque o “status quo”, que haveria para publicar aquela que contribui para o fortalecimento do “consenso”?
- na mídia, em qualquer de suas expressões (ressalvada a internet, pelo menos por enquanto), é dado o mesmo espaço para a veiculação de informações que desnudem as maracutaias, as desonestidades, as iniciativas que pretendem completar o processo de consolidação da “hegemonia”, que é dado a tudo que contribua para a sedimentação das “verdades” desejadas de serem inculcadas na população?

Ora, se isso não acontece, se a informação que chega ao cidadão comum é “filtrada”, censurada, ainda que veladamente, como se viu a partir do Ciclo de Lawson, as decisões, as escolhas do cidadão são adotadas com base em estímulos falsos, em referências que não foram construídas livremente e em ambiente que restringe a possibilidade de manifestação livre de posição, de opiniões, sem risco iminente de sanções de alguma espécie.

Some-se a isso a covardia dos políticos brasileiros que não integram a “cesta” de apaniguados do poder, que por interesse e/ou necessidade de sobrevivência financeira, optam por sobreviver politicamente ao arrepio da ética, da moralidade, do respeito às normas primárias de cidadania.

Acrescente-se, por fim, a ganância do empresariado brasileiro, que, na sua grande maioria, particularmente no seio das grandes empresas, prefere aderir à prática da busca de sobrevivência conjuntural, admitindo para isso sustentar financeiramente os encastelados no poder em troca de benesses e contrapartidas que lhes assegure resultados imediatos.

Pronto. Está construído o ambiente perfeito para a escravização cultural de toda uma geração. E assim se fez.

Caro leitor.

Novamente apoiado na obra de Sergio Coutinho, já citada em artigos anteriores, é com tristeza que se constata que o processo revolucionário de inspiração Gramsciniana implementado no Brasil atingiu sua terceira e última fase, a fase estatal, aquela na qual o partido representativo das “classes subalternas” conquista e se consolida no poder e impõe, progressivamente, uma nova ordem à sociedade.

Implantara-se uma ditadura, uma ditadura cultural.

Seriam necessárias algumas outras tantas décadas para que se revertesse o processo agora vitorioso. Só que, para isso, seria imprescindível:
- primeiro, o despertar da consciência da realidade que, nessa série de artigos, se buscou descrever;
- segundo, o surgimento de um movimento organizado que tivesse a vontade, a determinação, a coragem de iniciar um processo de convencimento, alicerçado na verdade, que pudesse, progressivamente, agregar cidadãos para uma cruzada de libertação.

Desnecessário registrar que isso só teria perspectiva de sucesso se houvesse, antes de tudo, desambição pessoal e se políticos, empresários e intelectuais aderentes ao novo processo estivessem dispostos a abrir mão de facilidades, vantagens e lucros conjunturais, em nome de uma causa maior: a construção da verdadeira liberdade para a nação brasileira.

Não se acredita que isso seja viável.

Pelo menos, dentro da realidade atual.

Há esperança?

Há. É que, felizmente, em razão da imensidão desse país, os executores do processo revolucionário de esquerda necessitaram ser arrebanhados em quantidades tão grandes, que entre eles havia um universo considerável de indivíduos tão desonestos, tão despreparados, tão egoístas, tão limitados e tão culturalmente condicionados (viva Pavlov), que acabaram por se constituir em fonte permanente de corrosão intestina do processo, promovendo escândalos desmoralizantes, fracassos administrativos indefensáveis, falcatruas as mais diversas, facilmente detectáveis e tornadas públicas, que promoveu uma quadro de indignação tamanha que findou por gerar a mais incrível manifestação popular de mudança política que se tem notícia no mundo atual.
Eles se destruíram a si próprios e à sua causa.

Talvez se deva ter esperança de que essas circunstâncias possam tirar a sociedade da condição letárgica em que havia sido imersa.

No entanto, não se pode ser inocente em não ter consciência de que aqueles que perderam, praticamente, todos os espaços que conquistaram e que se constituíam em fontes ilimitadas de benefícios pessoais de toda a sorte, não serão capazes, como têm mostrado, de qualquer tipo de ação, honesta ou não, ética ou não, legais ou não, para reverter as circunstâncias que lhes proporcionaram tamanhas perdas pessoais e grupais.

Este espaço estará permanentemente aberto a todos quantos desejem se juntar aos que não admitem imaginar seus filhos e netos submetidos a uma sociedade subjugada, acovardada, escravizada.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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