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23 Abr 2005

Teologia da Libertação: Atraso ou Progresso?

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Desde o momento em que cardeal Joseph Ratzinger se tornou o Papa Bento XVI pela escolha quase unânime de seus pares, opiniões elogiosas a seu respeito não cessaram de serem emitidas em todo mundo.

Desde o momento em que cardeal Joseph Ratzinger se tornou o Papa Bento XVI pela escolha quase unânime de seus pares, opiniões elogiosas a seu respeito não cessaram de serem emitidas em todo mundo. No Brasil, porém, não tem faltado criticas ao sucessor de João Paulo II, especialmente da parte de teólogos da Libertação ou “comunistas místicos” (usando uma expressão de Umberto Eco), e também de setores da mídia, notadamente de alguns âncoras que na TV insistem em chamar o novo pontífice de conservador num acento extremamente negativo.

Essas atitudes fazem lembrar a última campanha presidencial nos Estados Unidos quando entre nós, em ritmo de Copa do Mundo, torceu-se pelo candidato Kerry que encarnou o bem, contra o presidente Bush, personificação do mal. Parecia que a votação seria aqui, competindo aos brasileiros eleger o presidente norte-americano. Ao final a frustração quando Bush foi reeleito. Agora a decepção pode ter sido maior, pois se acentuou o elemento nacionalista/petista. Torceu-se por um companheiro cardeal, amigo do presidente Luiz Inácio e apontado, naturalmente de forma equivocada, como um dos mais fortes candidatos ao trono papal.  Em ambos os episódios foi óbvia a manipulação da opinião pública, sendo que a eleição de Bento XVI se configurou em nova derrota no plano internacional para o governo petista. Se D. Cláudio Hummes tivesse ganho, quem sabe dona Mariza Letícia mandaria apagar aquela velharia de Michelangelo do teto da Capela Sistina e no mesmo lugar mandaria pintar, juntamente com o símbolo do Coríntias, uma grande e rutilante estrela vermelha do PT. Ficaria assim quebrado o estilo conservador da Capela.

Sobre as críticas ao novo Papa, impressiona a má fé ou a ignorância. Primeiro a mídia enalteceu João Paulo II e concentrou por dias a fio os noticiários em sua doença, morte e funeral. Mas, Bento XVI, que sempre se identificou com as idéias do papa polonês, o grande combatente do comunismo na Polônia, está sendo apontado como o conservador e linha-dura, o que soa tão pejorativamente quanto, por exemplo, neoliberal, uma espécie de xingamento que a esquerda costuma usar para designar aqueles que não rezam pelo seu credo e que, portanto, seriam atrasados e reacionários. Acontece, porém, que a Igreja sempre foi conservadora no sentido de defender valores morais e, assim, se torna incoerente a ênfase no “conservadorismo” do papa Bento XVI.

Por outro lado, o irmão leigo frei Betto, expoente de comunista místico, referindo-se à “Igreja brasileira” disse temer que Bento XVI atrapalhe os movimentos sociais no País. Já o ex-frade franciscano, Leonardo Boff, afirmou que lhe vai ser difícil amar o novo papa.

Certamente frei Betto sabe que não existe Igreja brasileira, pois a ecclesia é universal. Com relação a movimentos sociais, se é ao MST que o bom frei se refere, é bom lembrar que essa organização é um embrião adaptado ao Brasil das Farc ou do Sendero Luminoso, sendo que o mentor dos chamados sem-terra, João Pedro Stédile, já anunciou aos quatro ventos que reforma agrária é assunto superado, lhe interessando a implantação no Brasil da utopia comunista ultrapassada que fracassou em todo mundo. Desse modo, será mesmo difícil o apoio do papa ou de qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento e bom senso aos sem-terra ou com-terra.

Quanto a Leonardo Boff, eminente teólogo da libertação, melhor seria se recolher de novo ao silêncio obsequioso que lhe foi presenteado pelo cardeal Joseph Ratzinger, pois se ainda é católico lhe compete menos amar e mais obedecer às doutrinas, preceitos e dogmas exarados pelo Santo pontífice. E mais coerente seria para clérigos e católicos insatisfeitos com a manutenção de certas normas de conduta ditadas pela Igreja, deixar a religião com a qual não concordam ao invés de simular seguí-la.

Ainda sobre “comunistas místicos” da libertação (ou da liberalidade) convém indagar se não seriam eles os conservadores. Afinal, depois de sincretizar numa estranha mistura Jesus e Marx, ainda defendem ditaduras de esquerda que podem ser tão ou mais terríveis do que as de direita, nas quais houve - e ainda há nas que restam, como a cubana - o terror, o baixo nível de vida, a ausência de liberdade, a negação dos direitos humanos e da democracia.

Em suma, é importante indagar se a “Ecclesia Pauperum” é realmente voltada para o progresso ou para o atraso, se trará a salvação para os pobres ou os manterá na pobreza. Seria bom se os católicos refletissem sobre esses aspectos diante das críticas que se fazem no Brasil ao papa Bento XVI. Mesmo porque, O “reino de Deus” na terra, proposto pelos comunistas místicos, até agora não conseguiu se converter no paraíso perdido. Muito pelo contrário.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:21
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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