Qua08122020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

26 Jun 2020

LIBERDADE ! ??? - Parte X - (Republicação)

Escrito por 

Constatou-se que estímulos falsos e/ou referências inadequadas, adotadas erroneamente, levariam a decisões discrepantes daquelas que teriam sido tomadas caso as referidas distorções não tivessem ocorrido.

Publicado inicialmente em 09 de junho de 2011

VER LIBERDADE ! ??? - Parte IX

Quando se confronta a concepção estratégica do processo revolucionário proposto por Antonio Gramsci, explicitada no artigo anterior, com as considerações feitas nos artigos antecedentes, tendo como referência o Ciclo da Tomada de Decisão de Joel Lawson, fica inquestionavelmente evidente a intenção subjacente na concepção de Gramsci de manipulação da sociedade para que os propósitos do projeto possam ser alcançados com êxito.

Basicamente, o que Gramsci propõe?

Que a ocupação do poder, dentro do contexto de normalidade democrática, seja precedida da construção, no seio da sociedade, de um consenso, definido por ele como sendo “a conformação coletiva do grupo social (concordância e adesão ativas), espontânea e livre, que favoreça o direcionamento político e cultural dessa sociedade para o atingimento dos fins que (veja-se o cinismo) a própria sociedade pretende” (Vide obra de Sergio Coutinho, identificada no artigo anterior).

Observe-se que o atingimento dos fins historicamente perseguidos pela sociedade, de acordo com Gramsci, passa pela “necessidade de uma conformação espontânea e livre, que se manifesta por uma concordância e adesão ativas”. Isso é de um cinismo inacreditável.

“Livremente”, “espontaneamente”, a sociedade deverá se conformar (vale dizer, ajustar a sua forma), ou seja, ajustar seus valores, suas referências, suas verdades historicamente construídas, seus princípios, de modo a concordar e a aderir ativamente à prática de novos princípios, novos valores, novas referências, novas verdades, que contribuam para que sejam mais facilmente atingidos os fins desejados pela própria sociedade (naturalmente, fins esses que ela, sociedade, não sabia que perseguia, porque, se soubesse, não precisaria da “ajudinha” dos revolucionários).

Dizendo de outra forma: porque a sociedade é integrada por um sem número de idiotas, que jamais seriam capazes de identificar e perseguir o atingimento de seus objetivos por conta própria, é imperioso que uma meia dúzia de iluminados, motivados pelo “único” propósito de auxiliar aqueles energúmenos a achar o seu caminho, promovam a redefinição de suas referências, de modo que, em sendo reaculturados, possam se constituir em agentes ativos da transformação que levará a coletividade a experimentar o nirvana proporcionado pelo comunismo.

Com isso, segundo Gramsci, seria desnecessário a tomada do poder pela força.

Ora, da análise do Ciclo de Lawson se aprendeu que a decisão humana de como reagir aos estímulos que lhe são oferecidos pelo ambiente passa pela necessidade de identificar adequadamente esses estímulos e analisá-los corretamente, com base nas referências que assumiu ao longo de sua vida pregressa.

Constatou-se que estímulos falsos e/ou referências inadequadas, adotadas erroneamente, levariam a decisões discrepantes daquelas que teriam sido tomadas caso as referidas distorções não tivessem ocorrido.

Pior. Viu-se que a assunção de referências induzidas tenderia a gerar uma mudança de postura e a reedição de decisões na mesma direção, tendendo a criar um caminho sem volta.

Verificou-se que o embate das individualidades numa coletividade, fonte congênita de conflitos, pode produzir, caso um grupo se organize de forma mais adequada, uma realidade em que, a necessidade de sobrevivência nessa coletividade imponha comportamentos, procedimentos não necessariamente desejados em parcela minoritária e/ou menos organizada daquela coletividade.

Concluiu-se, finalmente, que nesses casos, a despeito de poder se sentir aparentemente livre, aquele que foi manipulado, seja por ter sido submetido a estímulos falsos, seja porque foi induzido a aceitar referências inadequadas, seja porque, por pressão do ambiente, se viu na contingência de se comportar como esperado pelo grupo, na verdade, deveria ser considerado “escravizado”.

Buscou-se conduzir tais reflexões na expectativa de defender a tese de que, para o ser humano, a verdadeira liberdade só se manifesta quando se é livre para assumir referências que balizem reflexões e decisões livremente assumidas e realizadas.

E o que propõe Gramsci?

Exatamente o oposto. Que se utilize os organismos sociais voluntários (aparelhos privados portadores materiais da hegemonia), ou seja, clubes, sindicatos, corporações, partidos, igrejas, órgãos de comunicação de massa, editoras, expressões artísticas, movimentos populares, para conformar (dar nova forma) a sociedade, vendendo-lhe novas referências, para isso valendo-se de estímulos mentirosos, falsos, tudo com o propósito de, manipulando a sociedade, obter sua concordância e adesão ativa.

Obtida essa pasteurização cultural, seria fácil conquistar sem luta armada o poder, porque o partido que representasse aquelas novas referências receberia apoio inconteste da massa, agora escravizada.

Os quadros apresentados a seguir pretendem pictoricamente favorecer a visualização do que se buscou definir como o resultado pretendido por Gramsci.

À esquerda do leitor, a sociedade originalmente constituída com a multiplicidade que a caracteriza, mercê do exercício pleno e livre das individualidades que a integram.

Na direita, a sociedade manipulada, despersonalizada, acordeirada, “conformada”, pasteurizada, pronta para “ativamente aderir” a qualquer proposta apresentada e, com sua “concordância”, viabilizar a adoção de qualquer encaminhamento que se dê a vida da coletividade.

O quadro da direita procura mostrar que, ainda que se possa observar algumas nuanças diferentes entre os integrantes da coletividade, há um matiz comum que aproxima a sua imensa maioria. Nesse contexto, os que discrepam ficam marginalizados, acuados, sem possibilidade de defender suas possíveis posições discrepantes.

          
      

No próximo artigo, buscar-se-á analisar a realidade político-social brasileira nas últimas décadas, tomando por base toda essa sequência de considerações que compuseram esses dez artigos.

Última modificação em Sexta, 26 Junho 2020 20:15
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

Website.: www.rplib.com.br/
  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.