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22 Jun 2020

LIBERDADE ! ??? - Parte IX - (Republicação)

Escrito por 

Aquele que não se apercebe manipulado (“escravizado”), jamais lutará por libertar-se.

Publicado inicialmente em 06 de junho de 2011

VER LIBERDADE ! ??? - Parte XIII


A sequência de artigos em que tem se constituído essa série de reflexões pode ser resumida na seguinte cadeia de ideias:

- a verdadeira liberdade a ser perseguida deve ser a liberdade de decidir, a partir de referências, princípios, critérios, “verdades”, valores, livremente assumidos;

- para o homem em seu atual estágio de evolução em que, na sua esmagadora maioria, pode ser identificado como instintivo-intelectivo, definir-se liberdade a partir das manifestações de liberdade de locomoção, liberdade de credo, liberdade de reunião, ou mesmo liberdade de expressão, tende a gerar uma visão distorcida, amesquinhada, do que deve ser liberdade;

- com o apoio do modelo proposto por Joel Lawson do Ciclo da Tomada de Decisão, constata-se que decisões e escolhas, aparentemente adotadas “livremente”, na verdade, poderão ter ocorrido com base em estímulos falsamente apresentados ao tomador da decisão e/ou como decorrência de terem se dado com base em referências assumidas, assimiladas, de forma inconsciente, em razão de circunstâncias externas do ambiente em que o tomador de decisão está inserido.

É importante que se compreenda (e foi exatamente isso que se buscou propor nessa série de artigos) que, nesse caso, se experimenta a mais torpe circunstância de escravização do ser humano, na medida em que, ao imaginar estar experimentando liberdade, não se sentirá, em hipótese alguma, motivado a reverter o quadro em que se encontra.

Os grilhões atados aos pés dos escravos na antiguidade se constituam no seu primeiro e maior estímulo para a busca da liberdade.

Aquele que não se apercebe manipulado (“escravizado”), jamais lutará por libertar-se.

No último artigo, buscou-se, com uma expansão do modelo de Lawson, a seguir reapresentada, deixar absolutamente claro que aquelas fontes de distorção identificadas parágrafos antes tendem a estar naturalmente presentes na vida das coletividades, uma vez que a convivência das individualidades é uma das características congênitas de qualquer sociedade, o que se constituirá, sempre, em fonte de conflitos.

 


O que se pretende registrar no presente artigo é que há que se admitir, por tudo o que já se discutiu nos artigos anteriores, que as distorções que tendem a se manifestar no seio de uma coletividade podem ser intencionalmente trabalhadas com o propósito de “acordeirar” a coletividade, “pasteurizando” referências, verdades, valores, princípios, (politicamente correto) tudo conduzido desonestamente com a intenção de capacitar aqueles responsáveis pela iniciativa a obter daquela coletividade as reações que lhes favoreçam pessoal e/ou grupalmente.

Para que se compreenda de forma mais profunda o que aqui se coloca, cabe que se resgate conteúdo da obra de Sergio Augusto de Avellar Coutinho, “A REVOLUÇÃO Gramscista NO OCIDENTE – A Concepção Revolucionária de Antonio Gramsci em os Cadernos do Cárcere” (Estandarte Editora – 2002).

De forma extremamente clara e particularmente didática, o autor nos traz a lógica proposta por Gramsci para a tomada do poder em nações no ocidente, identificadas por ele como constituída por sociedades em estágio evolutivo mais avançado.
Segundo Gramsci, as sociedades ocidentais, mais adequadamente organizadas, disporiam de mecanismos de defesa que as tornariam menos sujeita a mudanças políticas bruscas de regime, de sistema. Assim sendo, o emprego de processos revolucionários apoiados no uso da força tenderia a não produzir resultados eficazes, diferentemente do que se experimentava nos países no oriente, nos quais suas populações acostumadas a se subordinarem “feudalmente” a um “senhor”, enxergavam o processo revolucionário como, simplesmente, uma troca de “senhor”.

Como decorrência lógica, Gramsci propunha que, nos países ocidentais, o processo revolucionário marxista deveria ser construído de forma diversa, sendo precedido por fases de anestesiamento daqueles mecanismos identificados como potenciais obstáculos ao êxito do processo, devendo, para isso, se valer das “franquias próprias do regime democrático vigente nessas sociedades”

Assim, como esclarece Sergio Coutinho (Cap II – Concepção Estratégica de Gramsci - pag 34), no Conceito Estratégico de Gramsci, o processo de transição para o socialismo marxista deveria ser conduzido em três fases:

- na primeira fase, nominada econômico-corporativa, se buscaria organizar o “partido das classes subalternas”, lutar-se-ia pela valorização do estado democrático e pela ampliação das franquias que o caracterizam. Desnecessário ressaltar que o propósito dessa fase seria o de se valer dessa liberdade própria da democracia, para uma atuação o menos susceptível possível de embates políticos, de questionamentos e enfrentamentos.

- a segunda fase teria como objetivo “lutar pela hegemonia das classes subalternas sobre a sociedade, tornando-a dirigente e criando condições para a tomada do poder”. Ressalte-se que essa tomada do poder dar-se-ia dentro das normas próprias dos regimes democráticos.

- na terceira fase, chamada “estatal”, tomar-se-ia o poder político, impor-se-ia uma nova ordem e estabelecer-se-ia o socialismo, visto como etapa provisória e anterior para a chegada ao comunismo.

É particularmente importante que se compreenda o significado, para Gramsci, do que seria “hegemonia”.

Como Sergio Coutinho relembra, hegemonia seria a “condição ou capacidade de influência” e de direção política e cultural que, por intermédio de organismos sociais voluntários, um grupo social exerce sobre a sociedade civil, que essa exerce sobre a sociedade política e que o partido da classe exerce sobre todo o processo revolucionário, sobre a sociedade civil e sobre a sociedade política.

Tentando clarificar: Gramsci propunha que, tendo o “partido das classes subalternas” no controle de todo o processo, um grupo social, valendo-se dos organismos sociais voluntários, construiria condição, capacidade, de influir política e culturalmente sobre a sociedade civil, de forma que ela influísse sobre a sociedade política (o estado).

Gramsci estabelecia ainda, que “o exercício da hegemonia pelo grupo social teria por finalidade fundamental obter o consenso e a direção política e cultural”.

Por consenso, Gramsci entendia “a conformação coletiva do grupo social (concordância e adesão ativas), espontânea e livre, com as iniciativas do estado que as propõe como necessárias para alcançar os fins que a sociedade pretende”.

Observe-se bem. A conformação coletiva espontânea e “livre” (livre?), por intermédio de concordância e adesão ativas significa, em outras palavras, o amoldamento (acordeiramento?) da coletividade a uma específica forma desejada pelo partido que teria o controle de todo o processo, de modo a produzir como resultado pressão sobre a sociedade como um todo para que, por seu intermédio, se exercesse pressão sobre a classe política visando que tudo fluísse na direção da consolidação da tomada do poder, eufemisticamente identificado como sendo “os fins que a sociedade pretende”.

É necessário que se relembre finalmente, ainda com o suporte da obra de Sergio Coutinho, que, ao citar os organismos sociais voluntários, Gramsci se referia aos “aparelhos privados portadores materiais da hegemonia, entidades relativamente autônomas ante a sociedade política”. Seriam eles os clubes, os sindicatos, as corporações, partidos, igrejas, órgãos de comunicação de massa, editoras, expressões artísticas, movimentos populares, etc.

Novamente, tentando tornar bem clara e objetiva a proposta Gramiscista:

- a utilização inteligente de clubes, sindicatos, editoras, órgãos da mídia, movimentos populares, setores artísticos, igrejas, partidos, etc, produziria a “concordância e adesão ativas do grupo social -conformação coletiva-”, ou seja, o consenso. Em outras palavras, far-se-ia a coletividade ter as mesmas referências, desejar as mesmas coisas, enfraquecendo, ou mesmo anestesiando reações a iniciativas do grupo político/social que estivesse na liderança do processo revolucionário;

- tendo toda a coletividade moldada segundo uma visão que lhe foi “imposta” de forma indolor, imperceptível, na medida em que se instalou como se nascesse do seu seio, fruto de seus anseios, o partido político que representasse esses valores, esses anseios, tenderia a ser guindado ao poder;

- no poder, valendo dos seus meios próprios, institucionais, o grupo político ocupante do governo poderia ir progressivamente promovendo as transformações políticas e sociais que “estariam indo ao encontro da satisfação daqueles anseios”.

Rememorada a proposta de Gramsci, escorados no trabalho admirável de Sergio Coutinho, no próximo artigo, buscar-se-á estabelecer a necessária conexão (que justifica essa série de artigos e sua lógica reflexiva) entre essa proposta, a teoria de Joel Lawson sobre a tomada de decisões pelo ser humano e como tudo isso se inter-relaciona com o exercício de verdadeira liberdade.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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