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21 Jun 2020

MUITO ALÉM DA LÍNGUA MORTA

Escrito por 

Stálin, por exemplo, quando estava de rusga com Trotsky, proclamava aos quatro ventos que o homem que gostava de cachorros era fascista.

 

Em várias ocasiões, por meio de mal traçadas linhas, similares a essas que agora escrevinho, tentei chamar a atenção para o perigo que há em usarmos conceitos descritivos como um mero porrete para bater nos outros, reduzindo toda a sua amplitude, complexidade e profundidade desses a um mero insulto infame. Infelizmente, esse fenômeno é algo que deitou raízes profundas em nossa sociedade e, consequentemente, na nossa alma.

 O exemplo mais gritante desse vício é o uso indiscriminado que se faz da palavra fascista. Com o perdão da palavra, há pessoas que usam esse termo como se fosse vírgula, ponto e travessão; e, fazem isso, simplesmente para estigmatizar com um rótulo vil todos aqueles que não concordam com sua visão de mundo, ao mesmo tempo que chamam a si mesmos de “democráticos”, ou qualquer coisa que o valha, pra dizer para si e para todos o quão bons e fofos eles são.

 E essa brincadeira sem graça é bem velhinha, diga-se de passagem. Tão velha quanto andar pra frente.

Stálin, por exemplo, quando estava de rusga com Trotsky, proclamava aos quatro ventos que o homem que gostava de cachorros era fascista. Aliás, qualquer um que discordasse dele era rapidamente carimbado como um. Mais adiante na história do século XX, nos idos da guerra Fria, o terrível muro de Berlim, conhecido no Ocidente como “o muro da Vergonha”, era chamada na Alemanha Oriental pelos “Comissários do povo”, e bem como em todo mundo Soviético, de “muro de proteção antifascista”.

Bem, e o que isso quer dizer? Nada além do fato de que quando alguém está chamando outrem de fascista é porque simplesmente ele está querendo colar nas paletas do infeliz um rótulo abjeto para desqualifica-lo. No fundo, o que tais pessoas desejam dizer é que elas acham fulano e sicrano uns trogloditas, feios e bobos, mas isso pareceria muito infantil; porém, se os chamarem de fascistas, isso dará a impressão de que elas são pessoas criticamente esclarecidas. Ao menos para elas mesmas.

George Orwell, em seu livro “O que é o fascismo? e outros ensaios” lembra-nos que até meados da década de quarenta todo mundo já havia chamado todo mundo de fascista e o fizeram com a mesma intenção torta: depreciar a imagem do seu oponente político.

E o pior que esse artifício malicioso funciona. Porém, há um problema: se tudo e todos são rotulados de fascistas, logo não mais saberemos identificar um.

Ora, por analogia podemos rotular qualquer um como fascista, mas não conseguimos com a mesma facilidade caracterizar alguém como tal e com precisão.

Sim, a primeira atitude é tão fácil quanto leviana e, por isso mesmo, se dissemina com tanta facilidade. Ou, como nos diz o próprio Orwell, o modo como a palavra fascismo é empregada dá a impressão de que ela se tornou totalmente desprovida de significado e, por isso, acabou ficando tão fácil utilizá-la como instrumento de estigmatização.

Em seu livro “Cinco escritos morais”, Umberto Eco nos chama a atenção para aquilo que ele chamou de “ur fascismo”, o fascismo eterno. Nesse capítulo do referido livro ele nos aponta vários traços que caracterizariam o bichão. Sim, é claro que os mais imprudentes que lerem essas páginas concluirão que todos os seus desafetos políticos são fascistas desde a concepção, porque tais figuras já estão convencidas disso. Agora, se formos refletir seriamente sobre cada um dos pontos indicados por Eco veremos que todo o mundo contemporâneo carrega em suas veias, artérias e nervos alguma craca totalitária. E é aí que reside toda a encrenca.

Sim, há em todas as sociedades, e no coração de cada um de nós, uma sementinha sombria de totalitarismo loquinha da vida para germinar, e isso é inegável, como bem nos esclarece Friedrich Hayek em seu livro “O caminho da servidão”.

Por essas e outras que o preço da liberdade é a constante vigilância. A eterna vigilância e não o estado de permanente histeria. Por favor, não confundamos alhos com bugalhos.

Enfim, creio que já tomei tempo demais do amigo leitor, por isso, antes de findar gostaria de lembrar apenas a advertência que nos é feita pelo próprio Orwell, que nos diz que “é impossível definir satisfatoriamente fascismo sem admitir coisas que nem os próprios fascistas, nem os conservadores, nem os socialistas de nenhum matiz querem admitir. Tudo o que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão”. Ou seja: sejamos menos levianos e mais comedidos.

Ah! E se estiver com vontade de xingar alguém, usemos um dos três mil palavrões que integram o vernáculo da nossa amada língua portuguesa. Pode ter certeza que fazer isso será algo mais decente que sair rotulando os outros de fascista.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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