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14 Jun 2020

JERÔNIMO, O HERÓI DO SERTÃO

Escrito por 

A televisão no Brasil ainda engatinhava. Assim, minhas fontes de informação se concentravam nos livros que eu consumia com voracidade, no cinema e episodicamente no rádio.

 

Meus amigos.

Voltemos aos anos 1959-1960.

Eu tinha 14-15 anos e estudava no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, nas 3ª – 4ª séries do ginásio.
O Colégio Pedro II era referência nacional. Subordinava-se diretamente ao, então, Ministério da Educação e Cultura.
Nele, lecionavam os professores que eram autores dos livros adotados em todo o país e ser aluno daquele estabelecimento de ensino era motivo de grande orgulho.
O acesso ao Colégio se fazia mediante exame de seleção nos moldes dos atuais vestibulares para acesso às universidades.

Como aluno do Pedro II, eu me sentia um jovem especial, formador de opinião, porque selecionado em concurso dificílimo e orientado por mestres respeitados nacionalmente. Um futuro líder? Precisava me preparar para atuar em um mundo que se avizinhava, a cada instante, mais novo.

A televisão no Brasil ainda engatinhava. Assim, minhas fontes de informação se concentravam nos livros que eu consumia com voracidade, no cinema e episodicamente no rádio.

No início da adolescência, me deliciara com As Mil e uma Noites; As Aventuras de Simbad, o Marujo; com os clássicos de Júlio Verne (Viagem ao Centro da Terra, 20 Mil Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, entre outros); as estórias emocionantes de Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros; O Visconde de Bragelonne).

Aos 14 anos já havia lido tudo sobre a literatura brasileira indicada no Colégio. Desde o Guarani, passando pelas Memórias de um Sargento de Milícia, e todos os outros clássicos que me eram sugeridos.
Da mesma forma, a literatura portuguesa me havia sido apresentada e O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro, entre tantos, tinham sido “engolidos’.

No contexto dessa avidez típica da adolescência, o que justifica este artigo é o fato de que, na época, a Rádio Nacional (que talvez seja pertinente admitir que teria o papel da TV Globo de hoje), ficara famosa pelas radionovelas que apresentava diariamente e que
concentrava a atenção de uma infinidade de ouvintes ansiosos por acompanhar as tramas das estórias nelas desenvolvidas.

No rol dessas novelas diárias, havia uma que tendia, particularmente, a se destinar aos jovens. Era chamada “Jerônimo, o herói do sertão”.

Jerônimo, o personagem que dava nome ao seriado e que se tornou, na época, ídolo dos jovens da minha geração no Rio de Janeiro, era o Robin Hood, o Zorro brasileiro.

Encarnando o defensor obstinado da justiça, estava permanentemente empenhado em se contrapor a todos os que cometiam crimes, explorando seus semelhantes.

Para um adolescente intransigentemente defensor do que se devia entender como justo, propenso a se indignar com qualquer tipo de abuso dos direitos de um ser humano por outro, o Jerônimo era a encarnação perfeita de tudo que se podia desejar de um herói.

Inebriado com os feitos daquele personagem e com a falta de vivência própria da idade (apesar de me entender como o mais sabido e preparado dos homens diante dos desafios do mundo, o que também é próprio daquela idade), não enxerguei alguns detalhes que estavam subjacentes nas estórias vividas pelo herói. Detalhes que, hoje, passados mais de sessenta anos, enxergo com uma clareza cristalina.

Naqueles tempos, não percebi que todos os malvados, desonestos, desumanos, corruptos, capazes das piores atrocidades, em todas as estórias, eram os proprietários de terras, os ricos, os contratantes de mão de obra, os que exploravam seus empregados das mais diversas e inaceitáveis formas.

Tais personagens não possuíam qualquer atributo positivo digno de registro.

Por outro lado, fixei, naquela época, que todos os pobres, os empregados, os explorados, os necessitados eram nobres, bons, capazes dos gestos mais elogiáveis de desprendimento, de contribuição, cooperação com seus pares.

Nenhum possuía qualquer falha de caráter.

Passados sessenta anos, é claro que não fixei detalhes de cada estória que pudesse reeditar, agora, mas, o que é claramente pior, guardei a mensagem que me foi passada.

Por circunstâncias do destino, a vida me encaminhou em direções que me permitiram perceber as ciladas que haviam sido armadas, mas fico imaginando como aquelas mensagens subliminares terão influenciado a construção das referências dos milhares de jovens que, como eu, saiam das escolas correndo para chegar em casa antes das 18:00 horas, quando se iniciavam os capítulos de Jerônimo, nosso herói de então.

Vivíamos os primeiros momentos dos anos sessenta.

Já se trataria das primeiras tentativas de, seguindo Gramsci, começar o esforço de “pasteurizar” as mentes das futuras gerações? Esforço que ficou escancarado no ambiente universitário, na mídia, nos meios editoriais, no ambiente político, nos “sertões” desse país, nos anos subsequentes?

Anos depois, tentaram levar para as novelas televisivas as estórias do Jerônimo, o herói do sertão. Não deu muito certo. A necessidade de muitas cenas externas deve ter encarecido a produção.

No entanto, o prezado leitor terá se apercebido que a estratégia de “pasteurização” da população inundou a mídia (a televisão em particular), extrapolou dos espaços das novelas e, hoje, se estende, particularmente, à área de jornalismo, debochadamente, sob a justificativa de oportunizar ao expectador (leitor, ouvinte) a construção de suas convicções.

A diferença é de que, se naquele tempo teria havido a intenção de camuflar a mensagem no contexto de estórias cativantes, hoje, se perdeu totalmente o escrúpulo e tudo é feito às claras, a partir da visão de que o povo é inocente/idiota, incapaz de se aperceber de que se busca manipulá-lo.

A pergunta que naturalmente vem à tona neste instante: prezado leitor, como você se sente, hoje, no contexto que a sociedade brasileira experimenta? Já foi cooptado? Como você construiu as referências que alicerçam as suas posições e as suas decisões? Você é o ator principal da sua vida, ou é um mero coadjuvante?

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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