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14 Jun 2020

COM A ÁGUA DA FONTE

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Ou seja: os sujeitos projetam sobre a realidade suas fantasias subjetivas e passam a tratar as pessoas e a encarar a vida a partir dessas imagens fantasiosas.

 

Muitas pessoas - bem intencionadas, diga-se de passagem – procuram valorizar muito os elementos subjetivos em detrimento dos fatores objetivos e, fazem isso, crendo que com essa atitude elas estariam ampliando de forma significativa a liberdade dos indivíduos. Pois é. Ledo engano.

Não existe nada mais arbitrário do que esse tipo de valoração e, por isso, ela é tão perigosa.

Algo subjetivo tem o seu valor dentro duma perspectiva particular que, por sua deixa, não precisa necessariamente ter uma relação direta com o mundo da vida. Basta que seja agradável aos nossos caprichos.

Perspectiva essa que pode ser nutrida somente por uma alma isolada, com suas angústias, ou partilhada por um grupo de pessoas que frequentemente se banqueteia com seus ressentimentos em comum.

Detalhe importante: a legitimidade de uma visão subjetiva sobre algo não precisa, necessariamente, ser confirmada pela substancialidade da realidade; basta que os indivíduos, juntos com a multidão que comunga do mesmo subjetivismo, digam para si mesmos que o que eles dizem seria algo sumamente real e que todos aqueles que digam o contrário estariam alienados.

Inevitavelmente tal atitude leva as pessoas a mergulharem numa espécie de transe histérico onde elas não mais se esforçam para encarar os fatos da vida como eles são, mas sim, passam a projetar sobre os fatos a imagem que é sugerida por aquilo que eles dizem. Ou seja: os sujeitos projetam sobre a realidade suas fantasias subjetivas e passam a tratar as pessoas e a encarar a vida a partir dessas imagens fantasiosas.

Quando caímos nesse tipo de capricho, estamos permitindo que as porteiras para as aventuras destrutivas e totalitárias sejam abertas de forma escancarada, tendo em vista que as palavras são reduzidas a meras expressões vazias com um forte poder de encantamento, levando as almas distraídas a serem possuídas pelas fantasias subjetivas que são sugestionadas através da evocação e repetição calculada desses mantras ideológicos pavlovianamente maquinados para nos condicionar a sempre darmos as respostas apropriadas aos estímulos certos.

Tal condicionamento, realizado através do uso de palavras de ordem e cacoetes mentais, tão frequente utilizados nos movimentos de massa, é chamado hoje em dia pela formosa alcunha de conscientização. Noutras épocas, processos similares a esse, de condicionamento, recebiam uma alcunha mais precisa: possessão.

Quando voltamos os nossos olhos, desnudos, para inúmeras manifestações que tomam conta de praças, ruas e vielas em vários cantos do mundo, onde violência pouca é bobagem, o termo mais apropriado para descrever o fenômeno não seria “manifestação em prol da democracia”, nem “tomada de consciência do povo”, mas sim, uma manifestação coletiva de possessão, de indivíduos possuídos pela fúria cega de uma multidão que age servilmente de acordo com os comandos promovidos pelo sentido subjetivo e arbitrário de palavras de ordem e de cacoetes mentais que lhe são sussurrados diuturnamente em suas atordoadas consciências.

Reverter um quadro como esse não é uma tarefa fácil, porque para exorcizar as pessoas da ação incansável do íncubo revolucionário seria necessário confrontar os indivíduos possuídos pela multidão com a luz da verdade. E confrontá-los continuamente com ela e, mesmo assim, infelizmente não há garantias de que ao final os indivíduos serão resgatados da tirania da legião ideológica que se apoderou deles.

Mas lhes digo uma outra coisa: cruzar os braços frente ao sofrimento dessas pobres almas não as resgatará e, de quebra, nos condenará a uma das piores pestilências que pode acometer o coração humano: a covardia moral e o indiferentismo fantasiados de prudência e sofisticação.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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