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07 Jun 2020

ENTRE UTOPIAS E DEVANEIOS

Escrito por 

Diante duma inquietação dessa monta temos uma gama significativa de respostas possíveis. Bem significativa, diga-se de passagem.

 

Certa feita um amigo, que estava bebericando um cafezinho comigo no final duma tarde vadia qualquer, perguntou-me porque tantas pessoas de bom coração depositam suas esperanças numa ideologia política totalitária como o socialismo, sabendo que todas as vezes em que partidários dela tomaram o poder o resultado ficou muito aquém do prometido e muito próximo do irreversível. Pois é. Eis aí uma pergunta pra lá de macanuda.

Bem, há um livro do filósofo Mário Ferreira dos Santos – Análise de temas sociais/Tomo II - onde o mesmo aborda essa questão duma forma muito clara e direta. Mas, podemos aqui compartilhar algumas ponderações a partir da referida indagação e com base na obra indicada.

Se perguntarmos a uma pessoa qualquer, se indagarmos a nós mesmos, se o mundo é perfeito, por certo e por óbvio que responderemos que não, tendo em vista que qualquer pessoa com o juízo no seu devido lugar reconhecerá rapidamente que existem inúmeras injustiças nesse vale de lágrimas e, diante dessa tela de pinceladas nada sutis, vem a pergunta que, provavelmente, todos nós já fizemos a nos mesmos em algum momento da vida, ou em várias ocasiões da mesma: o que eu posso fazer diante disso tudo? O que meu Deus do Céu?

Diante duma inquietação dessa monta temos uma gama significativa de respostas possíveis. Bem significativa, diga-se de passagem.

Alguns procuram realizar pequenas obras de caridade - dentro de suas limitações, ou indo além delas – para, se Deus permitir, tentar aliviar o sofrimento de algumas pessoas. Tais indivíduos reconhecem, com uma tristonha clareza, que eles não têm como mudar o mundo, mas acreditam piamente que podem fazer algo minimamente bom e descente por alguém. E esse pouco geralmente frutifica de maneira esplendorosa.

Há também aqueles que, com boa vontade, querem ao menos corrigir algumas das imperfeições, não do mundo, mas de sua cidade e, por isso, passam a atuar na arena política para, quem sabe, fazer algo que elas consideram bom para o maior número possível de cidadãos. Bem, nem sempre as intenções dessas almas se realizam do jeito que elas queriam.

Além dessas duas atitudes podemos incluir uma terceira, que seria a manifesta por algumas pessoas que, diante dos sofrimentos do mundo, inflam seus corações com uma imensurável indignação devido a grande sensação de impotência que tais almas sentem frente a realidade e, por isso, manifestam um desejo, confessável ou não, de mudar o mundo, de corrigi-lo. Para tanto, seria imprescindível obter o máximo de controle sobre a sociedade, sobre a vida de todos para que, no seu entender, nada fugisse aos parâmetros de sua visão utópica de mundo.

Claro que isso tem tudo para não dar certo. Não que todas as pessoas que fiem suas esperanças nesse tipo de concepção política desejem o caos totalitário. Nada disso. Mas me parece que essa é a consequência lógica inevitável e que, feliz ou infelizmente, é demonstrada pela história.

Uma das grandes tragédias da humanidade é que muitas vezes começamos a fazer algo bom, com boa intenção, mas que, com o tempo, nossa obra acaba se tornando o contrário do que havíamos sonhado. Quando isso acontece, temos apenas a possibilidade de corrigirmos nossos tropeços se nos dispusermos a um imprescindível, profundo e sincero exame de consciência e, após isso, reconhecermos que estávamos profundamente enganados em tudo, praticamente tudo que acreditávamos e defendíamos. Pois é. E isso não é uma tarefa nem um pouco fácil. Não mesmo.

Tal tarefa é assim, hercúlea, porque nós nos comprometemos profundamente com essas crenças políticas, investimos muito do nosso tempo e de nossas energias, tornando-as o centro de nova existência e, desse modo, elas acabam dando um certo sentido escatológico [secular] para a nossa vida. Ela se torna praticamente uma religião secular.

Pedir para que uma pessoa reconheça que suas convicções políticas são um equívoco seria o mesmo que ela reconhecer que, até ali, sua vida foi um grande engano e isso não é uma empreitada nem um pouco simples.

Enfim, por essas e outras que é muito mais fácil o indivíduo encontrar justificativas para os erros inerentes a sua visão de mundo, e para os frutos pútridos dela, do que despir-se de seus andrajos ideológicos diante da sarça ardente da realidade.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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