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28 Mai 2020

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA - Parte II

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Se tomarmos o momento atual isolado, nós teremos uma imagem, fragmentada e limitada do conjunto da ópera da nossa história, porque, como havíamos dito linhas acima, por falta de paciência, acabamos por ver tudo não à luz da procura pelo esclarecimento, mas sim, à sombra dos cinamomos midiáticos.

 

Somente os tolos perdem a capacidade de se surpreender. Nada os impressiona porque, para eles, tudo se encontra devidamente encaixadinho e explicadinho em sua peculiar forma de encarar a realidade e avaliar os fatos.

Tais pobres diabos, geralmente, utilizam-se de três ou quatro caixinhas conceituais onde, forçosamente, procuram classificar tudo o que existe, caindo involuntariamente numa condição absolutamente caricata. Aliás, quem nunca...

Sócrates, Platão e Aristóteles, os três porquinhos da filosofia, cada um do seu jeito, apontava para esse óbvio ululante; de que a sabedoria começa com o espanto. Ora, se acreditamos que tudo já está dado e explicado pela nossa diplomada ignorância o que teremos no lugar do alumiar da procura pelo esclarecimento, será apenas as sombras daquelas frases prontas que dão a impressão de dizer tudo ao mesmo tempo que nada explicam.

Essa indisposição para o espanto, esse medo de ser surpreendido, tem suas raízes profundamente calcadas em nossa preocupação sonsa com a nossa imagem e, também, com a nossa estulta falta de paciência.

Se nos preocupamos demasiadamente com o que os outros irão falar a nosso respeito, nós não estamos, de fato, interessados em compreender o que está acontecendo, ou em fazer algo acontecer, mas sim, em receber a aprovação dos olhos cinicamente curiosos que empesteiam o momento.

Se essa é a real preocupação que habita o âmago do nosso coração, com o perdão da palavra, nós já fomos devorados dos pés à cabeça pela besta da estupidificação, tanto individual quanto coletiva.

De mais a mais, como nos ensina o filósofo colombiano Nicolás Gómez Dávila, o sábio tem medo de ser tonto, já o tonto tem medo de não parecer sábio.

Quanto à falta de paciência, penso que a sabedoria popular é mais do que suficiente para nos puxar as orelhas de todos nós, pois, como o mesmo nos ensina, quem tem pressa acaba comendo cru, queimando os beiços e termina virando o pote.

Estamos muito acostumados, hoje, com a velocidade com que as informações chegam até nós e com a forma rápida que conseguimos nos comunicar e, sem nos darmos conta, acabamos por limitar nossa capacidade de reflexão.

Conhecer algo, por menor que seja, demanda tempo, por isso a paciência é fundamental no processo de compreensão de qualquer coisa e o espanto, de certa forma, estoura o balão de nossa presunçosa ignorância que quer porque quer ter a resposta pra tudo, o mais rápido possível, com seus esquemas mentais tacanhos.

Pois é, mas a pressa nos distancia disso dando-nos a sensação de que sabemos algo criticamente, porque classificamos as manchetes das notícias com nossos cacoetes mentais e, ao fazer isso, acabamos por projetar nossos desejos sobre os fatos, ao invés de permitirmos que eles, os acontecimentos, se apresentem a nós, surpreendendo-nos e mostrando-nos os possíveis desdobramentos que eles podem ter.

Tomemos como exemplo uma figura que marcou a história do século XX. Winston Churchill. A imagem que temos desse homem, hoje, é a visão que foi construída após a conclusão de sua vida, que muitas vezes é resumida à luz dos grandes momentos que marcaram toda sua jornada por esse mundo.

Agora, façamos um exercício imaginativo, bem simples: imaginemos que nós somos contemporâneos de Churchill e procuremos ver apenas alguns momentos de sua vida, isolados do conjunto de suas realizações. Se fizermos isso veremos, com uma clareza cristalina, e com grande surpresa, que o grande líder do mundo livre não foi, exatamente, no correr de toda a sua vida, alguém minimamente próximo da imagem que hoje temos dele.

Após a Segunda Guerra dos Bôeres ele amealhou grande fama, pelo seu heroísmo em combate e por seus livros. Dedicou-se a política e era visto, por muitos dos seus pares, como um deputado de segunda categoria. Em meio a Primeira Guerra Mundial, comandou o 6º Batalhão dos Fuzileiros Reais Escoceses e foi o principal responsável pelo desastre da campanha de Galípoli, uma mancha que ele passou a carregar em sua biografia até o fim dos seus dias e, obviamente, sua imagem, ficou mais depreciada ainda após esse acontecimento trágico. E, mesmo assim, ele, o deputado de segunda categoria de imagem chamuscada, tornou-se o Primeiro Ministro da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial.

Enfim, veremos que ele cometeu inúmeros erros, alguns bem graúdos, outros nem tanto, mas esses, frente ao conjunto de sua vida, não diminuem quem ele foi, nem maculam quem ele é.

Se tomamos, como de costume, esses momentos isolados, alumiados pela imagem póstuma do sujeito, veremos o conjunto dos feitos que formam quem ele se tornou frente a eternidade e perante a história. Perfeito. Nada de errado com isso.

Agora, é interessantíssimo procurarmos refletir sobre os dilemas que ele enfrentou em momentos diferentes de sua vida, sejam eles venturosos ou desventurosos, e encararmos a imagem que ele tinha perante a opinião pública do seu tempo, e entre seus pares em diversos momentos para vermos do que é feito o dia a dia duma figura do seu calibre. Dia a dia esse que, sejamos francos, não era nem um pouco doce.

Se fizermos isso, com paciência, e permitirmos ser surpreendidos pelos fatos, veremos que para se chegar a imagem póstuma do grande herói que ele é, o senhor Winston Churchill teve que viver inúmeros dessabores em sua vida, que era mal visto por uma punhado imenso de pessoas, motivo de chacota para outras mais, enfim, se formos sinceros conosco mesmo, poderemos chegar a conclusão de que se nós, de fato, fôssemos contemporâneos dele, possivelmente seríamos uma das almas sebosas que o enxovalhavam. E tem outra: se estivéssemos no lugar dele, possivelmente não teríamos sido nem um milésimo do que ele se tornou e Hitler teria sambado sobre Londres.

Guardada as devidas proporções, podemos dizer o mesmo com relação aos acontecimentos atuais que estão sendo encenados no teatro político brasileiro. Se tomarmos o momento atual isolado, nós teremos uma imagem, fragmentada e limitada do conjunto da ópera da nossa história, porque, como havíamos dito linhas acima, por falta de paciência, acabamos por ver tudo não à luz da procura pelo esclarecimento, mas sim, à sombra dos cinamomos midiáticos.

Que cada um tire a conclusão que bem quiser sobre os últimos acontecimentos, é um direito que assiste a cada um de nós. De minha parte, digo apenas que tem muita água pra rolar nesse entrevero e, independente do desfecho dos atuais acontecimentos, Sérgio Moro, Jair Bolsonaro e muitos outros, continuam sendo o que são e, principalmente, a história continua seguindo seu rumo feito água de nascente de ribeirão e, por isso, ela poderá nos surpreender, tanto para o bem, quanto para o mal.

Quem viver verá.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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