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27 Mai 2020

LIBERDADE - Parte III - (Republicação)

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A, por vezes angustiante, experiência dicotômica vivenciada pelo homem ao longo de sua história (concreto x abstrato; realidade x intangibilidade; horizontal x vertical), segundo o filósofo catarinense Huberto Rhoden, tende a, no dia-a-dia, se materializar no conflito “querer” versus “dever”.

Publicado inicialmente em 28 de março de 2011

 Ver LIBERDADE - Parte II

A, por vezes angustiante, experiência dicotômica vivenciada pelo homem ao longo de sua história (concreto x abstrato; realidade x intangibilidade; horizontal x vertical), segundo o filósofo catarinense Huberto Rhoden, tende a, no dia-a-dia, se materializar no conflito “querer” versus “dever”.

A despeito de se poder admitir que o “querer” pode ter motivações intangíveis, há que se aceitar que tende a manter estreito vínculo com a dimensão instintiva, material, do ser humano, enquanto o “dever” diz respeito ao caráter intangível da sua realidade, vinculado à sua dimensão intelectiva (ou, para alguns poucos, intelectiva-intuitiva), mesmo que se materialize por intermédio de ações concretas.

Enquanto instintivo, o homem, em tese, não experimentava conflito, uma vez que não dispondo de intelectividade, não poderia dever. Instintivamente se inclinava na busca de satisfação de suas “necessidades”.

A evolução para a condição de instintivo-intelectivo lhe trouxe a capacidade de lidar com o intangível e, por via de consequência, a compreensão de que sua realidade poderia envolver circunstâncias que não permitissem o puro e simples atendimento de seus interesses, a satisfação de suas necessidades. O entender a existência e o significado dessas circunstâncias gera o dever.

Assim sendo, parece fácil compreender que essa tensão permanente entre o querer e o dever afeta diferentemente cada ser humano em função do grau de evolução que ele experimenta, e é matizada claramente pela sua individualidade.

Ora, a sensação de experimentar “liberdade” está intimamente relacionada, em cada situação, à satisfação do que seria a “vontade” a ser satisfeita, ao “querer”. Ao não ter sua vontade satisfeita, não ter o seu querer atendido, a sensação decorrente é de cerceamento de liberdade.

Objetivamente, praticamente, o satisfazer a vontade, se materializa em se poder ir para onde se imagina querer ir; ou no se poder reunir com determinado grupo com o qual se pensa querer reunir; ou no se poder assumir esse ou aquele credo que se acredita ser o que atende aos reclamos do espírito; ou no se poder viver da forma como se imagina se desejar viver; ou ainda em se poder expressar dessa ou daquela maneira que se acredita ser a adequada, utilizando esse ou aquele meio, essa ou aquela linguagem, que se deseja utilizar.

O impedimento de se ter a “vontade” atendida, gera inconformidade, insatisfação, o que poderia ser visto como “perda ou cerceamento de liberdade”.

Nesse contexto, parece pertinente que se identifique e discuta as causas que impedem ou dificultam, ou inviabilizam que a vontade seja satisfeita, o querer seja atendido, compreendendo, de pronto, que esse impedimento pode ser imposto ou assumido. Talvez se pudesse identificá-lo como externo (imposto) ou interno (assumido).

Nos homens nos quais a carga atávica instintiva ainda se manifesta de forma ponderável (lamentavelmente, ainda nos dias de hoje, um universo significativo da humanidade), as suas vontades tendem a se circunscrever, marcantemente, à dimensão material da sua realidade. Estão, preponderantemente, vinculadas às suas necessidades básicas de sobrevivência: segurança, alimentação, procriação. Os impedimentos à satisfação dessas necessidades tendem a ser externos.

Para esse universo, a liberdade tende a ser vista sob uma ótica quase animal. O acesso ao alimento, ao sexo, ao abrigo, é essencial. A liberdade de locomoção, assim, poderia ser identificada como imprescindível e seu cerceamento tenderia, normalmente, a ser externo, como, por exemplo, o encarceramento de um criminoso.

Já o contingente humano composto daqueles que foram aculturados na direção de fazer uso da sua faculdade intelectiva compreende e aceita a necessidade de viver segundo normas de convivência, as quais tendem a lhes impor restrições à satisfação de suas vontades. Nesse caso, os impedimentos ao seu querer se deve a um misto de fatores externos, impostos por aquelas normas e a fatores internos decorrentes de limites que são auto assumidos, por serem entendidos e aceitos como pertinentes.

Para esse contingente, a compreensão do que seja liberdade assume dimensão muito mais complexa, o que se pretende começar a discutir no artigo seguinte.

Última modificação em Quinta, 28 Maio 2020 18:15
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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