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25 Mai 2020

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA - Parte I

Escrito por 

Shakespeare havia comparado o mundo com um grande palco e as pessoas com meros atores.

 

Para fazermos um prato, seja um delicioso quitute ou uma sopa de quiabo, é necessário que tenhamos bons ingredientes. Não apenas isso. É imprescindível que tenhamos mãos habilidosas para decodificar as instruções que se fazem presentes nos caderninhos de receitas e combinar apropriadamente os ingredientes para transformar aqueles produtos heterogêneos em algo comestível e, ainda por cima, saboroso.

Há uma devida proporção que deve ser encontrada e respeitada para que o prato possa ser feito e servido com maestria. Se a combinação dos ingredientes não for adequada, não preciso nem dizer, o trem desanda de vez. E não apenas isso. Se o prato for servido de qualquer jeito, com desleixo, o encanto que poderia ser obtido simplesmente desaparece no ar.

Assim também o é com a realização de qualquer coisa em nossa vida. Shakespeare havia comparado o mundo com um grande palco e as pessoas com meros atores. Aliás, essa é uma belíssima comparação. Belíssima e profícua, diga-se de passagem. Bem, mas como sou apenas um bebedor de café, bem do simprão, recorrerei a uma outra comparação: a de que a vida seria similar a uma grande cozinha e que nós seriamos apenas cozinheiros de nossos dias e noites vividos.

Numa cozinha encontramos sempre uma gama variada de produtos que permite um leque significativo de combinações possíveis. Combinações essas que dependem do nosso conhecimento e, para amealhar esse saber, é imprescindível que tenhamos uma certa dose de ousadia para conhecer e alguma paciência para aprender.

Bem, penso que em nossa vida temos um cenário mais ou menos assim, onde somos brindados, em vários momentos, com uma e outra circunstância que deverá receber o devido trato de nossa parte para que produzamos algo que receba a singular impressão do toque de nossa alma.

Há aqueles que ao viver uma situação relativamente difícil acabam transubstanciando-a em algo admirável e, outras tantas, vivendo algo similar, acabam terminando por realizar algo, no mínimo, lamentável. Aliás, todos nós, se voltarmos nossos olhos para trás, para nossa biografia pessoal, iremos nos defrontar com momentos vividos que nutrimos um certo orgulho e outros dos quais nos envergonhamos, mesmo que os anos tenham nos distanciado dos acontecimentos.

O mais engraçado nisso tudo, é que muitas vezes os feitos vergonhosos são tão ou mais didáticos para nós que os feitos exitosos. Quer dizer, engraçado não. Na verdade, é algo óbvio.

Quando fazemos algo muito bem feito, corremos o risco de nos envaidecer e, como nos ensina a sabedoria bíblica, a vaidade é uma merda. Agora, quando fazemos algo digno de vergonha, e se realmente temos a dita cuja nas ventas, nos esforçamos para que não mais cometamos o mesmo erro. Não é assim? É. É mais ou menos assim.

Somos, cada um ao seu modo, a reunião de inúmeros ingredientes que vão sendo combinados e experimentados no correr de nossa vida até chegarmos ao produto final que é a personalidade que iremos apresentar diante da história e frente a eternidade.

Há aqueles que se preocupam com o prato que irão servir nas próximas horas de sua vida, como há aqueles que procuram vislumbrar o cardápio dos próximos anos, da próxima década e, inclusive, há alguns que se inquietam com o banquete que irão servir na eternidade e, tais preocupações, acabam por pesar sobre nós, temperando a nossa alma.

Isso mesmo. Nossas preocupações são o tempero de nosso caráter. Diga-me o que te inquieta, o que te preocupa profundamente, que direi que tipo de caboclo você é.

Essa é uma das razões que me leva a apreciar tanto a leitura de biografias. Quando deitamos nossas vistas cansadas, auxiliadas pelas lentes dum óculos cafona, temos a oportunidade de adentrar na cozinha da vida de várias pessoas e, ao fazer isso, temos a oportunidade de conhecer as inúmeras nuanças, os altos e baixos, que formam uma vida bem ou mal vivida.

Já parou pra pensar o que é mergulhar na vida de um homem como Napoleão Bonaparte, cuja vida já foi contada e recontada por milhares de biógrafos e historiadores? Ou na vida de Sir Winston Churchill, ou na biografia de Dom Pedro I?

Sim, ao ouvirmos os nomes desses senhores, mesmo que apenas os conheçamos de vista, sabemos que eles são figuras que colocaram as palmas de suas mãos na calçada das estrelas da história, que eles são imortais; mas, como foi a vida desses senhores? Não, não foram apenas glórias e likes. Suas vidas foram forjadas com algumas vitórias e muitas decepções, fracassos inglórios, intrigas, decisões difíceis e controversas, entre outras coisas, dais quais eles não se orgulhavam de ter feito, mas fizeram.

Aí, diante disso, podemos nos indagar: mas onde então reside a grandeza? No conjunto da obra.

Enquanto estamos aqui, nessa vida, o que temos diante de nós é uma grande peleja que deve ser travada todo santo dia, sejamos um general, um imperador, um líder ou apenas um homem comum que gosta café e chimarrão.

Enfim, a nossa história apenas termina quando as janelas de nossa alma têm suas venezianas fechadas para esse mundo. Até esse dia chegar, devemos seguir em frente, procurando aprender com nossos erros e acertos, e com os acertos e erros de todos, não tendo em vista as pulsões do momento, que mais desnorteiam que orientam, mas sim, a imagem da obra que almejamos realizar em nosso peregrinar por esse vale de lágrimas.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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