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25 Mai 2020

LIBERDADE ! ??? - Parte II - (Republicação)

Escrito por 

 

"O homem é um ser evolvível. Foi meramente instintivo. Hoje, é instintivo-intelectivo. Amanhã, será instintivo-intelectivo-intuitivo, ou seja, racional"                                            
(Huberto Rhoden – O Pensamento Filosófico da Antiguidade).

 Publicado inicialmente em 23 de março de 2011

 Ver LIBERDADE - Parte I

Talvez seja esse processo evolutivo, ainda inacabado, o responsável pela grande dicotomia angustiante experimentada pelo ser humano – o concreto versus o abstrato; a realidade versus a intangibilidade; o horizontal versus o vertical, sintetizado pela cruz cristã.

 Muito provavelmente, decorre dessa dificuldade de lidar, hoje, com o intangível, a tendência do homem em recorrer a ritos e símbolos, a reduzir ao concreto, palpável, visível, mensurável, crível, aquilo que não consegue ou tem dificuldade de compreender, de enxergar, de visualizar, de acreditar, de aceitar como “verdade”.

 Como lidar com o imaterial? Como expressar sentimentos? Como, na relação com seus semelhantes, estar convicto de que se fez compreender?

 Como assegurar que seu interlocutor compreende seu entendimento a respeito de paz, amor, ética, beleza, bondade, maldade, felicidade, liberdade........?

 Não terá sido por outra razão que Petrônio, logo no início de sua obra “Satiricon”, literalmente, coloca:

 “.......... Não vos ofendais, ó retóricos, mas é de vós que vem a decadência da eloquência! Reduzindo o discurso a uma harmonia pueril, a meros jogos vazios de palavras, vós o tornastes um corpo sem alma, um esqueleto apenas. ”

 Petrônio tentava convencer seus leitores de que o emprego irresponsável de adjetivos e advérbios lhes esvaziava o valor, o significado, empobrecia as linguagens, ferramentas por intermédio das quais o homem se relaciona com o mundo e com seus semelhantes.

 Os artistas talvez sejam as maiores vítimas dessa impotência em lidar com o abstrato. Basta que imaginemos o que terá sido para os imortais do Renascimento pintar Deus.

 Quais terão sido, para a construção, no imaginário coletivo da sociedade ocidental, as consequências da retratação, por aqueles magos da pintura, da escultura, a materialização de Deus, segundos suas visões.

 Teriam nos transmitido Deus a imagem e semelhança do Homem, invertendo a lógica filosófica? Como isso se reflete no comportamento do homem, hoje?

 Essas considerações iniciais têm por objetivo sugerir uma justificativa para o fato de que, quando se discute “liberdade”, haja uma tendência de se fugir da análise do que seja ser livre, efetivamente, para se recair no questionamento do como se “materializa” a circunstância de se ser livre.

 Ora, se sou livre, posso ir para onde quiser. Se sou livre, posso me reunir com quem quiser. Se sou livre, posso crer no que quiser, posso dizer o que quiser, posso sobreviver como quiser e assim por diante....

 Só que parece necessário que, nesse contexto, se registre que resta subjacente nessas considerações, postas dessa forma, as ideias de “vontade” e “livre arbítrio”.

 Porque sou livre, tenho o direito de arbitrar sobre a minha liberdade, fazendo, pensando, agindo, segundo a minha “vontade”.

 Deriva dessa circunstância a necessidade de que se reflita sobre duas dimensões distintas, que interferem decisivamente no esforço de compreensão do que seja liberdade e do como se a usufrui.

 A primeira delas envolve a compreensão de que o convívio do homem em sociedade gera, naturalmente, “conflito das vontades”. O direito de um se encerra quando se inicia o direito do outro. Aí, envereda-se para a necessidade de regras de convivência, de leis, do estado.

 A segunda e sobre a qual se deseja inicialmente propor reflexão é a de que há que se compreender que as materializações do exercício da liberdade (locomoção, reunião, credo, expressão, negociação, etc..), alvo da esmagadora maioria das incontáveis manifestações a respeito, são, na realidade, subsidiárias do que se poderia chamar de verdadeira manifestação de liberdade, que é a liberdade de “decidir”, de construir “referências” a partir das quais surgiriam as vontades, os interesses, as necessidades.

 Por que se deseja ir para lá, ou acolá? Por que se acredita nisso ou naquilo? Por que, como decorrência, se deseja ter o direito de dizer, expressar isso ou aquilo no que se acredita como correto? Por que desejo viver dessa ou daquela maneira? Por que se deseja conviver com esse ou aquele grupo?

 É possível que se seja levado a ter vontades que não sejam manifestações legítimas de quem as pensa ter? Que lhe foram induzidas?

 É possível que no convívio em sociedade haja manipulação das vontades? Que se pense querer ir para onde, na verdade, se foi induzido a quere ir? Que se expresse o que se foi induzido a expressar? Que se construa, segundo o interesse de outrem, as referências que balizarão decisões futuras?

 É transcendental que se reflita a respeito, porque se isso for possível as manifestações de liberdade, de locomoção, de reunião, de credo, de expressão, assim como outras, podem ser falaciosas.

 Parece desnecessário que se conclua que, do cruzamento das reflexões sobre essas duas dimensões, emergem inúmeros outros espaços de questionamentos.

 O estado pode institucionalizar, legalizar, a manipulação das referências, das vontades?

 Retomamos no artigo seguinte.

 

Última modificação em Quinta, 28 Maio 2020 18:15
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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