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20 Mai 2020

O ACOMODADO, COVARDE, HOJE, SERÁ O ESCRAVO NO AMANHÃ

Escrito por 

A passividade será sempre estímulo para que os abusos ocorram, se avolumem, sem limites.

 

Meu amigo e prezado leitor, por acaso, você já leu algum livro sobre Treblinka? O de Jean François Steiner, por exemplo?
Terá lido O Arquipélago Gulag, de Soljenitsin? Ou Uma Longa Noite Sem Lua, de John Steinbeck? Ou, ainda, O Obelisco Negro, de Erich Maria Remarque?
Por acaso, terá assistido ao filme A Lista de Schindler? Ou o documentário O Holocausto?
Ou mesmo qualquer das dezenas de filmes que retratam a realidade do gueto de Varsóvia?
Vindo para os dias de hoje, você tem conhecimento da realidade em que vive o povo na Venezuela? Ou o que acontece na Coréia do Norte?

Caso não tenha lido nenhum desses livros, nem visto nenhum desses filmes, ou similares que tratem dos mesmos temas, você não terá se dado conta de duas verdades, que, muito provavelmente, pode levá-lo a ser um idiota útil, hoje, e um escravo amanhã.

A leitura desses livros e/ou assistir esses filmes conscientiza seus leitores e espectadores de que, de um lado, a capacidade do ser humano de explorar seus semelhantes, quando isso lhe é permitido, é ilimitada e, de outro, que a covardia dos explorados acaba sendo o maior estímulo para que a tirania se estabeleça, se imponha à coletividade.

O objetivo dos autores de todos esses livros e filmes e de tantos outros que tratam desses temas, com certeza, terá sido o de alertar a humanidade para tais verdades.

Os tarados, doentes mentais, que, assumindo o poder, em qualquer tempo e espaço, arriscam, em nome do poder, usar a força contra seus semelhantes, fazem isso de forma gradual, sub-reptícia. Vão arriscando, aos poucos, a imposição à sua coletividade de medidas restritivas de liberdade, sempre, sugerindo que isso estará sendo feito para defender essa coletividade de um mal maior a que ela estaria sujeita, se assim não se fizesse. Estar-se-ia trocando liberdade por segurança.

Diante dos riscos de se construírem em vítimas desse mal maior, a população vai aceitando as normas impostas, a ação policialesca implantada, na expectativa de que estaria sendo protegida por aqueles que ela população guindou aos cargos de poder, exatamente, para defendê-la, conquistar o atingimento dos seus interesses maiores.

Progressivamente, as restrições vão aumentando. Abusos são cometidos e cada um que ainda não foi vítima desses abusos, não foi atingido por ele, se acomoda, se acovarda e se auto justifica com a reflexão:
- “Ah, não tenho nada com isso. Vai ver que estão fazendo por merecer”.

Foi exatamente isso que ocorreu, por exemplo no gueto de Varsóvia.
Inicialmente, foram confinados.
Depois assistiam o vizinho ser preso e sumir. “Não tenho nada com isso”.
Depois assistiam um amigo ser surrado. “Não tenho nada com isso”.
Depois tomavam conhecimento de que um outro amigo havia sido expropriado dos seus bens. “Não tenho nada com isso”.
Até que, um belo dia, eram vítimas também daqueles abusos.

A passividade será sempre estímulo para que os abusos ocorram, se avolumem, sem limites.

O que está acontecendo no Brasil, hoje, prezado leitor?
Por nojenta motivação política, com a estória de cobertura de proteção à população diante da ameaça de ser vítima da pandemia, cidadãos estão sendo espancados nas ruas por policiais despreparados, que extravasam suas taras, sua ignorância, suas angústias, suas frustações, acobertados com a eterna justificativa, igualmente covarde do “estou cumprindo ordens”.

Ordens emanadas de autoridades preocupadas, unicamente, em preservar seus cargos e salários e que se valem da mesma justificativa covarde: “Estou cumprindo ordens”.

Cidadãos estão sendo privados de exercerem suas atividades profissionais. Empresários ou negociantes de menor porte estão sendo impedidos de desenvolverem suas atividades produtivas, se vendo na circunstância de despedirem seus funcionários e fecharem suas firmas.

Em cada ponto do país, prefeitos e governadores, motivados em desqualificarem a ação do governo federal, se permitem, acobertados pela justificativa de uma pretensa situação de excepcionalidade, e se valendo de um discurso falso de defender a população dos riscos de uma doença “perigosíssima”, se permitem absurdos inaceitáveis, dentro de um contexto do cometimento de inacreditáveis atos de corrupção.

Cidadãos têm sido impedidos de transitar em determinados espaços municipais, e/ou em determinadas circunstâncias estabelecidas despoticamente por prefeitos ou governadores.

O judiciário, acumpliciado às motivações políticas desses candidatos a tiranos, respalda toda e qualquer iniciativa adotada, lhes dando cobertura jurídica para o que quer que façam, sinalizando que podem prosseguir nesse processo de acordeiramento da coletividade e de enfrentamento do governo federal.

Ocorre que seres humanos não são pasteurizáveis. Todas as tentativas de fazê-lo, ao longo da história, fracassaram.

O problema é que, quando tentadas, causaram malefícios inqualificáveis, que se perpetuam no tempo por décadas.

Estive na Rússia, em setembro passado. O primeiro alerta, a primeira orientação recebida da profissional encarregada de nos ciceronear foi:
- “Por favor, não questionem qualquer ordem recebida de policiais, guardas ou seguranças. É imprevisível o que poderá ocorrer”.

Portanto, um século após a revolução russa ter acontecido, a população continua assustada, amedrontada, temerosa da sua relação com quem quer que possa representar “autoridade”.

No Brasil, o pobre coitado do governador de São Paulo chegou ao absurdo risível, de pretender mudar o calendário de eventos do país, alterando, por exemplo, a data do Dia das Mães. Agora, sugeriu a mudança de datas de celebração de feriados anuais. Pior e inacreditável, há o risco de que isso poderá acontecer.

Talvez, sua próxima iniciativa seja a de que, tendo em vista que se divulgou que o vírus se dissemina mais em períodos frios, ele vá decretar que, esse ano, findo o outono, se terá o verão no Brasil.

E você, prezado leitor, vai continuar de cabeça baixa, acomodado, acordeirado, esperando que um bando de irresponsáveis, aos quais a população atribuiu algum poder, faça uso dessa delegação, não para defender os objetivos maiores dos seus eleitores, mas sim seus objetivos políticos pessoais e/ou dos grupos que integram, para isso, humilhando você, desconsiderando, desrespeitando seus direitos.

Qual o seu limite? Até quando você vai aceitar esse acinte?

Última modificação em Sábado, 30 Maio 2020 17:39
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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