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08 Mai 2020

O QUE ESTÁ POR TRÁS DA MÁSCARA DA CHINA NA PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS

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Esse mesmo condão da diplomacia pública chinesa adotado no Brasil, uma postura ativa na propagação de comentários inapropriados, já causou tensões com França, Suécia, Estados Unidos, entre outras nações

 

Como em nenhuma oportunidade no passado, o coronavírus está dando à China a chance de expressar que espécie de liderança o país oriental está disposto a exercer. Saindo da tradicional cautela em mostrar suas cartas, na crise do coronavírus o mundo está sendo brindado com diversos exemplos da visão chinesa sobre seu papel no mundo. A imagem deixada por Pequim neste momento está longe da ideia de nação próspera e forte amplamente divulgada pelo governo por décadas.

Há diversas questões ainda não respondidas sobre a administração da crise, e o resultado que emergir da pandemia pode redirecionar a balança de poder mundial, com reflexos nos fluxos internacionais de comércio. Isso passa pela imagem chinesa, seu posicionamento internacional e diplomático, controle da narrativa e entendimento dos mecanismos ocidentais de poder.

Cada vez menos países acreditam na alegada competência com que a China tratou da crise em seus estágios iniciais – e o exemplo mais claro disso é a falta de credibilidade dos números de casos/mortes no país, que acabaram gerando danos colaterais para a OMS (Organização Mundial de Saúde).

No intuito de mostrar-se preocupada com os efeitos da pandemia no mundo e evitar o forte dano de imagem pela qual tem passado, a China tem usado ações como doações de equipamentos de forma estratégica, algo que se desdobra em uma situação com claros reflexos geopolíticos.

O resultado, entretanto, tem sido desastroso. Há casos em que os equipamentos se mostraram de tão má qualidade que países os devolveram; em outros, os equipamentos foram vendidos, e não doados; em outros ainda, a China devolveu estoques que havia adquirido de países europeus.

No campo diplomático os resultados também não têm sido satisfatórios. A iniciativa de estimular seus diplomatas (e o porta-voz do Partido Comunista da China) para usar de forma intensa o Twitter em uma campanha agressiva de difamação de outros países – Estados Unidos à frente – parece ter se mostrado contraproducente. Exemplos incluem a tese inconsequente de que militares americanos teriam plantado o vírus na China e os termos inaceitáveis da resposta do embaixador chinês a autoridades brasileiras.

Esse mesmo condão da diplomacia pública chinesa adotado no Brasil, uma postura ativa na propagação de comentários inapropriados, já causou tensões com França, Suécia, Estados Unidos, entre outras nações. Esse estranho modelo de exercício diplomático vem causando danos sérios para a imagem do país asiático.

Tudo isso e o crescente dissabor que a China já causava no meio empresarial dos Estados Unidos e Europa é suficiente para fazer que uma sino-confrontação torne-se um elemento importante no mundo pós-coronavírus. Os europeus passam por um momento de afastamento prudente da China, que teria “perdido a Europa”, segundo Reinhard Buetikofer, chefe da delegação do Parlamento Europeu para relações com Pequim. Existe a preocupação com o real gerenciamento da crise nos estágios iniciais e a ação “extremamente agressiva” da diplomacia chinesa baseada na propaganda da superioridade do Partido Comunista sobre a democracia. Algo que, para os europeus, é inaceitável.

Porém, a probabilidade de que a China venha a perder a influência que estava adquirindo depende de 2 fatores: a forma como sairá dessa crise, tanto na esfera econômica, quanto política; e a forma como o resto do mundo, especialmente Washington e Bruxelas, se encontrarão depois da pandemia.

Se o Ocidente conseguir usar a crise como um fator de unificação política e alavanca para um modelo econômico que responda aos desafios da desigualdade e sustentabilidade, esses países terão condições de tornar o modelo da democracia capitalista atraente mais uma vez. Além disso, terão também condições de colocar em curso uma estratégia de contenção da China, tanto em suas economias, quanto nas de outros países, sobretudo aqueles em desenvolvimento.

Se, por outro lado, o Ocidente falhar no combate ao vírus e a China mostrar resultados positivos (algo que não é fácil de se apurar no curto prazo, dada a falta de transparência e a pouca credibilidade de suas estatísticas), será difícil evitar uma expansão chinesa no mundo, tanto como parceiro econômico (o que já é uma realidade) quanto como modelo político a ser seguido.

Fato é que a realidade do mundo que enxergaremos adiante passa pelos resultados da pandemia e como China e Ocidente se comportarão, tanto em seu combate, como mais adiante. No guerra da narrativa, Pequim perde aliados. Ao exercitar sua musculatura diplomática, tem sido massacrada.

Entretanto, a China soube ao longo do tempo construir dependência econômica que tem sido cobrada na esfera política em tempos recentes. Ao tirar sua máscara, pós-pandemia, é provável que o mundo reconheça a verdadeira face do império oriental, guarnecida por uma política de imagem estrategicamente organizada ao longo de décadas.

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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