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08 Mai 2020

A MÍDIA, O CENTRÃO E O GOVERNO

Escrito por 

Fica difícil pedir respeito ao parlamento quando o voto parlamentar é mercadoria à venda aguardando comprador. E o grande comprador é o Poder Executivo.

 

Já perdi a conta do número de vezes que critiquei a postura do centrão desde que se organizou como força política dentro do Congresso durante a Assembleia Nacional Constituinte. Tenho sido rigoroso nessa denúncia porque vejo aquele ajuntamento de partidos como um dos grandes males de nossa democracia. Fica difícil pedir respeito ao parlamento quando o voto parlamentar é mercadoria à venda aguardando comprador. E o grande comprador é o Poder Executivo.

Ficou evidente, desde fevereiro do ano passado, que o novo governo enfrentaria problemas para aprovar seus projetos por ter no Congresso uma base parlamentar pequena e, com frequência, dividida. Malgrado a grande renovação na Câmara e no Senado, consequência da convicção da maioria do eleitorado sobre a necessidade de expurgar velhas raposas felpudas, não demorou um mês para o centrão ressurgir com muitas caras novas e costumes bem antigos, alardeando ter mais de 300 votos nas prateleiras dos partidos que o integram. O centrão derrubou medidas provisórias, virou projetos de lei do governo pelo avesso, aprovou despesas que comprometiam o equilíbrio orçamentário. Mas ficou longe da tesouraria.

Não há nenhuma novidade no que estou narrando. Novidade é a atitude da mídia militante que, de uma hora para outra, tão logo mudou o ocupante do Palácio do Planalto, passou a atacar o governo por não “negociar” com o parlamento. Em seguida, passei a ler que a “negociação” a que o governo se recusava correspondia a um “louvável protagonismo do legislativo nas decisões nacionais”. Faltava “articulação” ao governo!

Só isso já seria motivo de reprovação a um jornalismo que, por motivações políticas, ideológicas, empresariais ou pessoais, muda de entendimento conforme a conveniência. Se é para causar dano ao governo até o centrão vira gente boa.

Houvesse a grande imprensa cumprido seu papel com o bem do país, denunciado como chantagens as chantagens em curso, seria possível reverter essa conduta e fazer andar os projetos do novo governo. Tinha ela, contudo, um inimigo a derrotar.

Agora, Bolsonaro busca aproximação com o centrão. Vai distribuir cargos. E a mídia militante? Subitamente troca outra vez de entendimento. Agora, o que se lê é que o governo está se aproximando do fisiológico centrão e passa a andar em más companhias. Não há como pensar em outra coisa quando vejo que entre os oito líderes do bloco, fora Gilberto Kassab (PSD) e Marcos Pereira (REPUBLICANOS) quem não é réu na Lava Jato, ou foi condenado, ou já foi preso. O governo está comprando dificuldades para poder governar!

Li em Zero Hora de ontem (05/05), com chamada de capa, extensa matéria. “Centrão de volta ao velho hábitat”. E, em seguida: “Em busca de sustentação no Congresso, Bolsonaro negocia verbas e cargos com partidos vinculados a suspeitas de corrupção”. Conta a matéria que o deputado Arthur Lira (PP/AL) telefonou aos 40 deputados da bancada informando que a adesão ao governo estava concretizada e que ele colhia nomes para indicação a vagas na burocracia estatal. “Quem não estiver à vontade é melhor não vir – avisou o deputado, explicando que uma das missões é barrar um processo de impeachment”. E a mídia militante se julga dispensada de dar qualquer justificativa para suas movediças convicções.

As forças que se articularam para a construção deste momento político sabem muito bem o dano que causaram ao país em hora tão grave. Deixaram o presidente sem saída.

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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