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06 Mai 2020

A CHAMADA, A CANTADA E A PANCADA

Escrito por 

Governador - Paulo, estou te ligando não como governador, mas como amigo. Quem sustentava o governo era o Sérgio Moro e você. Agora, sobrou você. Você é muito admirado. Em nome da sua biografia quero te dar um conselho: desembarca do governo agora.

Ministro - João, eu agradeço sua ligação, mas não sou eu que sustento o governo Bolsonaro. Quem sustenta o governo é o povo que elegeu o presidente. ele tem um terço de apoio. E outro terço que fica no meio do caminho depois vai apoiá-lo. João, o país vive um momento democrático que é barulhento, mas virtuoso.

 

Em meio a um turbilhão de problemas, preocupações e incertezas políticas e econômicas, um verdadeiro pandemônio alimentado pela saída do ministro da Saúde e, poucos dias depois, aquela saída nada cavalheiresca do ministro da Justiça e Segurança Pública, tudo isso em tendo como cortina a enorme tensão provocada por confinamentos, máscaras, estímulos ao pânico, prisões de senhoras por caminharem em praias e ataques incessantes ao governo por parte da velha mídia, volto a dizer, em meio a tudo isso e como se fosse pouco, eis que se passou uma cena inacreditável.

Segundo revelou em primeira mão o site Poder360, repercutido depois por diversos órgãos de imprensa e nas redes sociais, o governador de São Paulo, do PSDB, telefonou para o ministro da Economia pouco depois  impacto provocado pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública ao demitir-se no dia 24 de abril. Até aí, nem o Neves tinha morrido.

Mas, quando o governador sugeriu ao ministro  que desembarcasse do governo federal, pois assim fazendo estaria “salvando sua biografia”,  a chamada revelou-se uma cantada. E a resposta do ministro foi uma verdadeira pancada, segundo relatou a matéria. Eis o  diálogo em toda a sua bizarrice:

Governador – Paulo, estou te ligando não como governador, mas como amigo. Quem sustentava o governo era o Sergio Moro e você. Agora, sobrou você. Você é muito admirado. Em nome da sua biografia, quero te dar um conselho: desembarque do governo agora.

Ministro  – João, eu agradeço sua ligação, mas não sou eu que sustento o governo Bolsonaro. Quem sustenta o governo é o povo que elegeu o presidente. Ele tem 1/3 de apoio. E outro 1/3 que fica no meio do caminho depois vai apoiá-lo. João, o país vive 1 momento democrático que é barulhento, mas virtuoso.

Sobre a gravidade desse episódio, recomendo vivamente os comentários de Guilherme Fiuza nesse vídeo com o sugestivo título O homem e o rato.

Francamente, essa atitude do governador do estado mais importante do país é inadmissível, vergonhosa, constrangedora, uma verdadeira traição ao povo que o colocou no palácio dos Bandeirantes e de resto a todos os brasileiros que têm amor ao país.

Primeiro, pela absoluta falta de ética. Como uma autoridade estadual pede a uma autoridade federal para entregar o cargo e abandonar o governo? Isso não tem nenhum cabimento moral e nem jurídico. É uma cantada imoral, de envergonhar até o mais tosco paquerador.

Segundo, pela total falta de patriotismo. Como um homem com tamanha responsabilidade, como sói ser a de governar o grande motor da economia do país, e sabendo que o ministro da Economia vem adotando uma política correta e que, portanto, sua saída, em meio a tantas incertezas provocadas pela pandemia, seria muito provavelmente a bomba que faltava para desestabilizar de vez a economia, o governo e o país?

A resposta do ministro da Economia foi uma pancada na imoralidade e uma formidável patada na ausência absoluta de patriotismo de seu interlocutor, que não mostrou qualquer escrúpulo em manchar o mandato que os paulistas lhe conferiram, em rasgar a ética e em tentar desestabilizar o país, tudo para semear uma ainda impalpável candidatura à presidência, que só acontecerá daqui a mais de dois anos. Não posso afirmar, mas acho que o autor dessa iniquidade possa ter se queimado de vez.

Última modificação em Terça, 05 Maio 2020 23:47
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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