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05 Mai 2020

ASSIM É SE LHE PARECE

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Quem diz o que pensa não merece castigo, mesmo quando não pensa no que diz.

 

Confesso que estou chocado com a demissão de Sérgio Moro. Não importando se ele tem boas justificativas ou não, é uma grande perda para a nação. Todos nós o admiramos como o juiz da Lava Jato, um gigante em defesa da lei e contra a corrupção.
Segundo a fala do próprio Sérgio Moro, o nó da questão estava ne demissão do Chefe da Polícia Federal, coisa que ele não desejava, mas Bolsonaro insistia. Acescente-se a isso Moro ter dito que Bolsonaro prometeu a ele autonomia na gestão ministerial, coisa que incluía admissão ou demissão de todos que estivessem subordinados a ele, o que é o caso do Chefe da Polícia Federal.
 
Contudo, Bolsonaro em sua fala deixou bastante claro que “autonomia” não é “soberania”, ou seja: O chefe da PF estava subordinado ao Ministro da Justiça e este subordinado ao Presidente da República, no caso: Jair Bolsonaro. Por lei, o Presidente goza da prerrogativa de admitir ou demitir qualquer ministro ou membro de seu governo.
 
Moro não concordava com a exoneração do Chefe da PF, e é um direito que ele tem enquanto cidadão, mas daí a criar um mal-estar por causa disso, tomando uma posição frontalmente contrária à do Presidente... [ Entra em cena o velho Cervantes: “Entre el dicho y el hecho hay grand trecho”].
 
Não quero entrar no mérito de se a supramencionada demissão do Chefe da PF era apropriada ou não, mesmo porque quem tem que decidir isso é, em última instância, o Presidente, estando acertada ou não sua decisão. Ele só deve satisfações à sua consciência.
 
Além disso, Bolsonaro disse em sua fala que o próprio Chefe da PF disse a ele que estava cansado e queria se demitir. Não creio que isso tenha sido mentira de Bolsonaro. Mentir não é seu estilo, mas sim uma franqueza cavalar, que às vezes cria problemas para ele mesmo. Quem diz o que pensa não merece castigo, mesmo quando não pensa no que diz. Neste último caso, isso pode ser considerado afoito, desapropriado, mas nunca dissimulado, insincero.
 
Quem perde com essa  estória? Não é Moro, nem Bolsonaro, mas sim o País numa hora de grande crise causada pela Peste Ming-Ling, a mais terrível das pestes desde a Peste Negra do século XIV, que matou um quarto da população da Europa. Quem perde é o povo brasileiro, o eleitor detentor da soberania delegada a Bolsonaro.

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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