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02 Mai 2020

REFLEXÕES NADA ORTODOXAS DUM CAIPIRA HETERODOXO

Escrito por 

Todo mundo entende a preciosidade singular do dom da vida, todos; menos aqueles que defendem a legalização do assassinato dum inocente no ventre materno.


Não conheço ninguém que tenha se arrependido de ter permitido que seu filho viesse ao mundo, da mesma forma que não conheço ninguém que não tenha sua consciência atormentada por ter decidido que seu filho tivesse sua vida arrancada no ventre materno.

[ii]
Todo mundo entende a preciosidade singular do dom da vida, todos; menos aqueles que defendem a legalização do assassinato dum inocente no ventre materno.

[iii]
Nas turbulentas horas da história, quando as colunas da polis estremecem, os homens de geleia deixam suas máscaras cair, os fanfarrões se empolgam feito urubus, se lambuzando na carniça, e os tontos acreditam, candidamente, que estão entendendo tudo tintim por tintim.

[iv]
Não há nada mais doentio do que uma preocupação desmedida com a saúde. É algo tão insensato quanto o total desprezo a ela.

[v]
Se realmente desejamos entender algo espinhoso, como uma treta política descomunal, a primeira coisa que, penso eu, deveríamos fazer, seria nos perguntar sobre o que está, de fato, acontecendo e em que medida nós desejamos entender o furdunço. Se não admitimos para nós mesmos que não estamos entendendo o fervo, com um mínimo de clareza, se não reconhecemos que não tivemos acesso a todas as informações minimamente necessárias para compreender o rolo, com o perdão da palavra, estaremos tão somente caminhando, a passos largos, para aquela casa nada engraçada que fica lá na rua dos tontos, número zero, enquanto acreditamos, sonsamente, que estamos entendendo tudo criticamente.

[vi]
Um incapaz, sem muitos talentos, querendo fazer a coisa certa, sem saber exatamente o que está fazendo, é algo que pode ser muito desastroso. A história está aí para nos ensinar algumas coisas sobre esse tipo de encrenca. Agora, uma pessoa inteligente, com algum talento, agindo de modo habilidoso para fazer algo duvidoso, ciente ou não dos desdobramentos dos seus planos, é um trem que pode ser muito perigoso e, mais uma vez, a história está aí para nos ensinar alguma coisa sobre isso.

[vii]
Uma instituição será tão boa quanto as pessoas que dão vida a ela.

[viii]
Não é na calmaria que são forjadas as grandes almas; é no meio das tormentas que isso é feito. Sejamos os timoneiros duma nação, ou apenas os barqueiros de nossa porca vida, não é no remanso que se vive verdadeiramente; é no furdunço mesmo. Por isso, aquilo que fazemos quando a água começa a bater em nossa bunda, diz muito mais a respeito do nosso caráter, de nossa personalidade, do que todos os dias gostosamente vividos na bonança garantida pelo fiar monótono duma pacata rotina.

[ix]
Muita gente está manifestando sua indignação [criticamente crítica] contra o veto ao projeto de lei que regulamenta a profissão de historiador e que estabelece os requisitos para seu exercício (PLS 368/2009). Diante dessa indignação difusa, ocorrem-me algumas perguntas, dentre elas, destaco essa: será que os indignados, por ventura, leram e analisaram devidamente o referido projeto de lei - bem como o parecer da AGU a respeito - e refletiram sobre as possíveis implicações do mesmo? Se sim, tudo bem. Vida que segue. Caso contrário, penso que seria um bom momento para se rever essa criticidade epidérmica cultivada com tanto mimo e construída “laboriosamente” com base em um punhado de memes e uma e outra manchete de jornal.

Última modificação em Sexta, 01 Maio 2020 21:33
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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