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10 Abr 2005

Católico e Caótico

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O cardeal D. Eusébio Scheid declarou recentemente que Lula não é católico, mas caótico, e não se entende muito bem com o Espírito Santo.

Confesso que em fins dos anos oitenta compareci a eventos e reuniões programados por organizações de base da Igreja Católica que se articulam junto aos movimentos sociais. Ia com o espírito aberto, mesmo que recebido com suspeição e sabendo que não encontraria afinidades ideológicas. Após algum tempo, desisti. Tais encontros se davam em locais religiosos e ocasionalmente era providenciada uma missa (depois eu conto essa parte). Mas o conteúdo dos debates jamais tinha algo de religioso. Era ideológico, partidário e, quando se aproximava uma eleição presidencial, o Lula podia não estar na agenda, mas compunha a pauta de quase todos os pequenos ou grandes grupos.

As celebrações eucarísticas, em eventos desse tipo, têm uma característica peculiar. Para quem não sabe, profere-se, em todas as missas, um ato penitencial, no qual os participantes pedem perdão por seus pecados. Nas missas da esquerda, essas faltas nunca são pessoais. São sempre faltas alheias, do neoliberalismo, da globalização, da imprensa, dos proprietários rurais, da empresa e da propriedade privadas. Participante de movimento social não peca. É santo por opção ideológica. O valor dessa filiação é mais do que sacramental e se impõe ao próprio batismo.

O cardeal D. Eusébio Scheid declarou recentemente que Lula não é católico, mas caótico, e não se entende muito bem com o Espírito Santo. Foi uma frase dura, inconveniente, a refletir profunda contrariedade com a conduta do presidente. Se a contrariedade tem sólidos motivos, a afirmação é contrária à razão. Tivesse dito que Lula é um católico caótico, estaria absolutamente certo, porque o presidente é, de fato, as duas coisas. Estou convencido de que se fosse fazer um check list de suas adesões ao conteúdo do Credo dos Apóstolos, o presidente marcaria a lista inteira. Seu problema é, como em tudo mais, a superficialidade da formação religiosa.

O zeloso e piedoso frei que ele escolheu para ter perto de si cuidou apenas de ideologizá-lo e não de evangelizá-lo. Como conseqüência, e apenas para ficar com fatos bem recentes, o Brasil tem a legislação sobre uso de embriões humanos mais permissiva entre os países católicos e talvez seja a única nação organizada em regime constitucional que delibera sobre aborto, por modo autocrático, mediante norma técnica do Ministério da Saúde.

Apesar disso - e de muito mais - a consciência do presidente é imaculada e virginal. Como pude observar nos meus contatos com a base esquerdista da Igreja, Lula acolheu um sermão magnânimo, abraçou uma ideologia santificadora e pode se proclamar, como fez em Roma após a missa em memória do Papa João Paulo II, "um homem sem pecados". Houvesse comparecido à cena da adúltera, quando Jesus desafiou os circunstantes a que a primeira pedra fosse jogada por aquele que estivesse sem pecado, Lula, o impecável, teria fulminado a mulher com um tijolaço. Vem aí o primeiro santo brasileiro nato?

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:00
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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