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22 Abr 2020

O MÁRTIR ESQUECIDO

Escrito por 

   "Libertas quae sera tamen"

 

POR: SÉRGIO PINTO MONTEIRO


 
Neste feriado de 21 de abril, recolhido ao lar em face de uma inusitada e, por que não dizer, ainda mal esclarecida pandemia, vi-me, de repente, com lembranças de um tempo que já vai muito longe, eis que completei oitenta anos. Refiro-me à minha infância, na metade do século passado. A data de hoje era muito especial. Nas escolas, dia de festa cívica. O Hino Nacional Brasileiro, rotineiramente cantado nas formaturas que antecediam o início das aulas, provocava naquela garotada uma forte emoção e muitos até chegavam às lágrimas. Crianças e adolescentes, em trajes de época, representavam cenas da tragédia. Afinal, na véspera, os professores de História do Brasil focavam suas aulas na belíssima e emocionante saga do mártir Tiradentes.        
No início dos anos 50, a televisão surgia no Brasil. Muito poucos possuíam aquele caríssimo aparelho. O Rádio era o grande veículo da mídia sonora da época. No dia de hoje, Tiradentes era pauta prioritária em programas e noticiários. Professores e escritores faziam depoimentos sobre o sacrifício do precursor da independência do Brasil. Muitas vezes, rádio atores interpretavam personagens históricos, no estilo das novelas radiofônicas. Nas organizações militares, as comemorações ocorriam com o habitual espírito cívico. Tempos distantes, de um país diferente.
Mais de meio século decorrido, vivemos tempos estranhos. Nas escolas, agora fechadas em função da pandemia, a História do Brasil, quase sempre é contada de forma errônea e ideologizada. Heróis verdadeiros são substituídos por vultos inexpressivos. A imagem do assassino argentino, travestido de cubano, "Che" Guevara, campeia, livremente, em nossas salas de aula, muros e camisetas. Quanto ao noticiário da mídia televisiva, um sinistro e lamentável silêncio se abate sobre a saga do Mártir da Independência e o sonho de liberdade dos Inconfidentes. Há um claro propósito de ignorar ou, até mesmo, reescrever, ao arrepio da verdade, alguns dos mais relevantes episódios da história da nossa pátria. Aliás, temem a palavra PÁTRIA como os vampiros de ficção fogem da Cruz. Qu em sabe, ainda conseguiremos reverter esse triste cenário. As futuras gerações precisam do nosso esforço. E até, se necessário, como Tiradentes, do nosso sacrifício.
        
Rio de Janeiro, manhã de sábado, 21 de abril de 1792. Às onze horas e vinte minutos, depois de penosa caminhada, sob um sol rigoroso, pelas principais ruas do centro, o Alferes José Joaquim da Silva Xavier, subiu, sem medo, o patíbulo erguido no Campo da Lampadosa, atual Praça Tiradentes. Como demorasse a morrer, o carrasco, um criminoso comum, montou-lhe nos ombros para abreviar o seu fim. Segundo a sentença, Tiradentes, único executado entre os Inconfidentes, seria enforcado, decapitado e esquartejado. Com o seu sangue, lavrou-se uma certidão de que fora cumprida a pena. Sua cabeça apodreceu dentro de uma gaiola em Vila Rica. Os quatro quartos, conservados em salmoura, foram colocados em postes, ao longo do Caminho Novo, na Capitania de Minas Gerais, onde o Alferes fazia as "infames prédicas" pela liberdade de nossa pátria. Seus bens foram confiscados, as casas em que morou arrasadas e salgadas, para que nunca mais, naquele chão, algo germinasse.
 
Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746 na Fazenda do Pombal, localizada entre a Vila de São José, hoje a cidade de Tiradentes, e São João Del Rei. Era filho do português Domingos da Silva Santos e da brasileira Maria Antonia da Encarnação Xavier. Quarto filho entre sete irmãos perdeu a mãe aos nove anos e o pai aos onze. Sua família, com muitas dívidas, ficou sem a pequena propriedade onde vivia. Joaquim, menor de idade, acabou sob a tutela de um padrinho, cirurgião, residente na cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto. Trabalhou como mascate e minerador. Foi sócio de uma botica de assistência à pobreza na Ponte do Rosário, em Vila Rica, se dedicou também às atividades farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido de Tiradentes. Na carreira militar tinh a o post o de Alferes, correspondente hoje ao de segundo tenente e serviu no Regimento de Cavalaria Paga (os Dragões) da Capitania das Minas Gerais. Solteiro, teve uma filha com uma viúva de nome Joaquina. Considerado líder da Inconfidência Mineira, Tiradentes foi preso na Rua dos Latoeiros, hoje Gonçalves Dias, no Rio de Janeiro, quando divulgava os ideais revolucionários de tornar o Brasil uma nação independente.
Visitei a cela onde Tiradentes esteve confinado. Muito bem cuidada, fica nas instalações do atual Hospital Central da Marinha, na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Dali Tiradentes foi transferido para a Cadeia Pública da cidade, conhecida como Cadeia Velha, demolida em 1922 (próxima do atual prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), de onde partiu a pé para ser executado, por enforcamento, na praça que hoje leva o seu nome.
A Marinha do Brasil tem sob a sua guarda um dos mais importantes sítios históricos brasileiros. Foi emocionante adentrar aquela masmorra, escura, fria e úmida, sabendo que há mais de dois séculos o nosso herói maior ali padeceu pela liberdade do Brasil. Respiramos por alguns minutos o ar mal cheiroso proveniente da umidade que emana das paredes de pedra. Chegamos às lágrimas, face ao clima e à emoção que pairam no ar.
O sacrifício do Alferes Tiradentes, nosso herói maior, que hoje completa 228 anos, deve ser lembrado com o merecido destaque. Pela Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965, José Joaquim da Silva Xavier - Tiradentes, foi proclamado Patrono Cívico da Nação Brasileira. Seu martírio, em última análise, retrata os ideais de liberdade e soberania do nosso povo, gente humilde e trabalhadora, que repudia qualquer tentativa de condução do país por caminhos que não se coadunem com os princípios democráticos e cristãos que forjaram a nação brasileira.
 

O AUTOR É PROFESSOR, HISTORIADOR E OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO BRASILEIRO. É PATRONO, FUNDADOR E EX-PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DOS OFICIAIS DA RESERVA (CNOR). É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE DEFESA, DA ACADEMIA DE HISTÓRIA MILITAR TERRESTRE DO BRASIL E DO INSTITUTO HISTÓRICO DE PETRÓPOLIS. É PRESIDENTE DO CONSELHO DELIBERATIVO DA ANVFEB.
 

Última modificação em Quarta, 22 Abril 2020 12:18
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