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07 Abr 2020

NÃO CONTE NADA. A NINGUÉM!

Escrito por 

Eu era Adido Militar em Washington. Havia participado das negociações com o Exército Americano para o envio das nossas tropas ao Haiti.


“Vocês não estão fazendo nada no Haiti” Quem falava era um dos representantes de uma ONG, que, em seguida, me repassou um álbum com terríveis fotografias de pessoas mortas. E prosseguiu: “Haitianos continuam sendo assassinados, e vocês não têm impedido”.

Na semana seguinte, recebi representantes de outra ONG de direitos humanos, que, como a anterior, era ligada ao Partido Democrata. Na pauta, o mesmo tema.

Eu era Adido Militar em Washington. Havia participado das negociações com o Exército Americano para o envio das nossas tropas ao Haiti.

Vivia-se 2005. Quem estava à frente da Minustah era o Heleno, mais antigo do que eu, mas meu brilhante colega no Curso de Comando e Estado-Maior. E bota brilhante nisso! Quem o conhece, sabe exatamente do que estou falando.

Pois lhes garanto: foi muita sorte para a Minustah ter o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira como o seu primeiro “Force Commander”. A começar, por ele ter tido que organizar e enquadrar efetivos militares de várias nacionalidades. Segundo, por ser a primeira vez que nosso Exército participaria de uma missão para “impor a paz” e não apenas para “garantir a paz”, como já havíamos feito dezenas de outras vezes. E, por último, porque o Haiti estava em guerra. E a estava perdendo. Estava sendo derrotado pelos bandos armados.

Mas o que seriam aqueles tais bandos armados? Como eu já havia informado a Brasília, o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide (ex-padre católico salesiano, ligado à teologia da libertação) havia, por sugestão (ou imposição?) dos norte-americanos, extinguido as suas forças armadas. Muitos militares, vendo-se, de uma hora para outra, desempregados, levaram para casa todo o armamento e munição que puderam. Tornaram-se, então, bandos armados e passaram a infernizar a vida dos haitianos de Porto Príncipe, a capital, sobretudo nos bairros de Belair, Cité Soleil e Cité Militaire.

Informei Brasília. Simultaneamente, liguei para o Heleno. Ele tinha que saber de imediato, pois era quem estava sob fogos.

Tempos depois, em 29 de outubro, minha eficiente secretária, Dona Edília Vieira da Rosa, entrou no meu gabinete e avisou que era aniversário do Heleno.
Peguei o celular (num tempo em que celulares só serviam para falar) e liguei: “joyeux anniversaire”.

“Nem joyeux anniversaire, nem happy birthday, nem nada! Estou aqui em Cité Soleil. Tem tiro pra todo lado. Esses caras (referia-se aos bandos armados, que haviam se comprometido a depor as armas) não cumprem o que prometem. Mesmo assim, muito obrigado”. E desligou. E desligamos…

Fico imaginando se aquelas ligações de 2005 acontecessem hoje em dia. Na mesma hora, o mundo todo saberia que o Brasil não estava protegendo os haitianos. Haveria críticas exacerbadas, sem ninguém – jornalistas, analistas e os famosos “especialistas em segurança e defesa” – levar em conta que estávamos naquele país caribenho havia pouquíssimo tempo, tendo herdado uma situação para lá de caótica dos americanos.

Teria tido um resultado semelhante à simples conversa (não foi nem uma ligação ou mensagem no celular, muito menos uma declaração à imprensa) informal do Heleno com um colega de ministério, queixando-se do posicionamento de alguns membros do Congresso Nacional. A repercussão foi desproporcional ao fato em si. A mídia quase a transformou (bem que tentou…) em ameaça à democracia.

Cá entre nós, a tecnologia, como quase tudo na vida, tem inúmeros aspectos louváveis e positivos. Em compensação…

Em compensação, fica aí o conselho: não conte nada a ninguém, sequer ao marido, à esposa, aos pais, filhos… Muito menos, confesse a um padre, pois ele, como Jean-Bertrand Aristide, pode ser ligado à teologia da libertação. Aí então, você passará a viver o inferno aqui na terra mesmo.

Por fim, cara leitora ou caro leitor, se hoje for o seu aniversário, você certamente será abraçado por seus familiares e amigos. Comemorá-lo em Cité Soleil, longe de todos, só mesmo para o meu amigo Heleno. Mas ainda bem que era ele quem estava por lá!

Aliás, para quem não sabe, ele nasceu em Curitiba. E a Dona Edília também. Chato, né?

Hamilton Bonat

Hamilton Bonat nasceu em Curitiba. De 1965 a 1971, estudou em regime de internato, inicialmente em Campinas (SP) e, posteriormente, em Resende (RJ). Em 2001 foi promovido a General-de-Brigada, posto no qual passou para a reserva.

Foi assistente do Chefe do Estado-Maior do Exército, assistente especial do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, instrutor da Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, assessor parlamentar junto à Assembléia Legislativa do Paraná e chefiou a seção de comunicação social da 5ª Divisão de Exército.

Como Coronel, comandou o 3º Grupo de Artilharia Antiaérea (Caxias do Sul). Como General, comandou a 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea (Guarujá), foi Diretor de Especialização e Extensão (Rio de Janeiro) e Adido Militar nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Além dos cursos militares normais, que lhe asseguraram o título de Doutor em Ciências Militares, freqüentou cursos e estágios de comunicação social, da tecnologia da informação, da ADESG e, na França, o curso de capitães de artilharia antiaérea. 

Das condecorações e títulos que recebeu, destacam-se a Ordem do Mérito Militar, Aeronáutico e das Forças Armadas, a medalha do Monumento Nacional ao Imigrante (Prefeitura de Caxias do Sul), Cidadão Honorário de Guarujá e Vulto Emérito de Curitiba.

É autor de “Sessenta Crônicas” (2009), “Mãe de Candidato” (2011), “Túneis, Tatus e Ora Bolas!” (2013), “Ciscos e Franciscos” (2015) e “O que penso, escrevo e digo por aí” (2018), todos publicados pela Editora Íthala.

É membro efetivo da Academia de Cultura de Curitiba.

Em novembro de 2014 assumiu a Cadeira de número 19 da Academia de Letras José de Alencar, cujo Patrono é Emílio de Menezes.

Em 2016 foi agraciado com o Troféu Inspiração, da Academia de Letras José de Alencar.

Conta mais de 300 crônicas publicadas em jornais e revistas.

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